quarta-feira, 11 de maio de 2011

CASAMENTOS

O assunto era o casamento da professora de ginástica. Preparativos para a festa, prova de vestido, quantos andares teria o bolo, quais as lembrancinhas escolhidas... Do lado das alunas, o presente que iriam dar a noiva, a surpresa no chá de cozinha...

Na academia de público feminino, praticamente um clube da Luluzinha, as mais velhas traziam conselhos. Outras  traziam lembranças. Todas compartilhavam, não mais em volta de uma fogueira, ou na mesa da cozinha, mas na roda de ginástica.

Uma magia universal, de mulheres se unindo, foi tomando forma. Umas diziam: “nunca durma brigada com o marido”. Outras aconselhavam: “tenha Deus no casamento”. Outras simplesmente aconselhavam a guardar no coração (e em cadernos, fotos, bilhetes), os bons momentos, para que fossem o sustento para os dias difíceis.

                Interessante que nenhuma destas mulheres falava de como administrar uma casa, como guardar dinheiro, como aumentar um patrimônio. Todas deram de si o que melhor tinham, e o que era mais importante: segredos para manter uma boa relação com o companheiro.

                Afinal, casamento não se resume em fazer festa, brincar de casinha, assinar papéis de propriedade conjunta. Casamento é companheirismo, crescimento mútuo, e isto, somente regado a muita paciência.

                Atire a primeira pedra aquele que nunca pensou em arrumar as malas e ir embora ao menos uma vez na vida. Os antigos tinham paciência. Casamentos que duram são fruto de muitas voltas por cima, muitos sapos engolidos, muitas lágrimas escondidas. Mas há atrás disso tudo a lembrança de um começo bom, da paixão. Os corpos envelhecem, a barriga, a bunda, os seios, os cabelos não ficam no mesmo lugar.  Olhar para o companheiro(a) com o mesmo desejo é uma arte. A arte de ater-se a realidade, de reconhecer o esforço de quem está com você, por todos esses anos, suportando todos os defeitos (sim, temos defeitos!), e também o nosso envelhecer.

                No Japão, quando o marido volta cansado do trabalho, a esposa diz: “otsukaressama deshita”. Não há uma tradução literal, mas o significado seria “bendito seja o teu cansaço”, pois “tsukareru” é cansar-se, o prefixo “o” indica respeito, assim como o “sama”, e “deshita” indica a ação no passado. `As vezes aprendemos com outras culturas a respeitarmos aquilo que não vemos, como o dia que o nosso companheiro passou longe de nós. Eu levo comigo esta atenção especial das submissas porém sábias japonesas.

                A vida é feita de pequenas coisas. Mas mesmo as pequenas coisas não sobrevivem sem amor, sem atenção. Uma comida simples, feita com atenção, vale. O trabalho feito com dedicação, vale. Ouvir o que o outro está falando, vale. Um chá quente, um afago quando estão juntos, cuidados não solicitados, vale.

                O amor não tem pressa. Não é conto de fadas, com um ”viveram felizes para sempre”, nem uma eterna vilania do sexo perfeito, como o querem os livros e filmes americanos. Há o prazer no dia certo, o respeito ao cansaço alheio, quando este se faz evidente. Mas tudo isso é amor, respeito, vida a dois. Não é o paraíso, também não é o inferno, a não ser que assim queira considerá-lo.

                Uma das maravilhosas companheiras do círculo de mulheres contava a relação com o marido com Alzheimer. Ela poderia ter considerado a experiência um inferno, mas não. Cuidou do companheiro até o final. Contava para nós como o casamento foi maravilhoso. Às vezes ficava louca com as atitudes já insensatas do marido, se entristecia por não ser mais reconhecida, mas sabia que havia no fundo dele a história dos dois, pois, até o final, ele sentava ao lado dela para ver televisão, sempre de mãos dadas, como quando estava são.

                Histórias fortes, histórias tristes, como das que foram abandonadas, e lutaram para criar sozinhas os filhos, histórias....O casamento de uma despertou o casamento de todas as outras, e resultou num compartilhar de experiências sem igual.

Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...