terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

PASSOS DADOS, PÉS DESCALÇOS...


Passos dados, pés descalços, poeira no espaço... me arriscar porta afora, pisar nas madeiras soltas da varanda, tocar na branca tinta descascada, na madeira mais uma vez crua, exposta ao tempo e á chuva, como eu...
Vejo as velhas janelas, um tanto emperradas com tanta água que caiu do céu; pelo lado de dentro, cortinas simples, uma chita xadrez, lembrando velhos filmes. Olho ainda a escada, que sempre range, anunciando vida na casa. Corrimão gasto, lustroso de tantas mãos que passaram; e o ‘lá em cima’, sempre o medo do escuro que pode me tragar, me levar, transformar. Lá em cima, dissolução, nos antigos quartos, de velhas camas, lençóis bordados por antigas noivas, perfurados pelo tempo e traças, flores simples na  jarra de louça que antes servia para verter a água na alva bacia, e acordar o rosto com a pátina do sono.
O lá em cima me traz a visão dos arredores, o pomar descuidado atrás da casa, os pássaros que teimam em fazer seus ninhos no beiral velho; os montes baixos que recortam minha paisagem, me dizendo “trás os montes, trás os montes...”, com sotaque lusitano. E eu lá sei o que pode haver atrás de cada monte, além de pasto, vacas e cupinzeiros? Não sei, não sei.
Aqui, neste alpendre antigo, me preparo para pisar na terra, irremediavelmente suja, pois que assim nasceu, dentro da minha concepção recebida, à força, de meus antepassados. Quisera poder pensá-la, senti-la, tocá-la, como coisa limpa, sagrada,  bendita, como algo em mim, fala – mas cala. Pisarei esta terra com pés curiosos, atentos ás sensações, arranhões e pedregulhos que possam me marcar, me causar novas experiências. Pisarei a terra como semente que nela cai, esperando germinar e criar frutos em seus futuros galhos.
Me preparo, pés descalços, compasso de espera, passo, compasso, passo. Levanto o velho saião, toco a mureta toda escalavrada por formões, rococós e antiguidade, e piso então, nesse solo que me viu nascer, que me viu crescer, e que receberá meu corpo quando este esquecer de ser. Pó, poeira, levantada com o passo, compasso, passo. Danço, cirandeiro solitário, músicas de minha infância, completude que me abraça.
Uma chuva fina me cola a roupa ao corpo, a lama aos pés, o sorriso à face, e me volto, então, para a janela (aquela, á direita, sempre com a veneziana aberta, aonde, sempre a espreitar, mora minha alma). Gotas de chuva escorrem no vidro sujo, caem no beiral, fazem caminho no chão, respingam  nas minhas pernas, pintura abstrata de argila molhada, e me sobe pelas narinas o cheiro doce e ocre de terra, e notas das folhas verdes do pomar...
Minha alma, antiquíssima, me olha da janela, e inveja a minha matéria, concreta, real, sensação em êxtase. Eu sorrio para ela, e a chamo: habita- me! e ela some da janela. Como num transe, vejo uma menina sair para a varanda, pés descalços, cabelos desgrenhados, dentes pequenos, de leite, alvos, um sorriso. Ela corre para mim, se joga em meus braços, e, assim, recebo minha alma, que se incorpora, definitivamente, em mim... passo, compasso, passo, pés descalços, vida enfim.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

REFLEXÃO DA MANHÃ




A memória passa pelos sentidos;

 e os sentidos, não passam pela razão. 

Então não há razão nas memórias que guardamos, 

só o sentido que para elas damos... 

Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...