segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TÔ ME GUARDANDO PRA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

De tantos tons me vestia no meu dia a dia, mas minha temperatura sempre era fria, nos lábios encruados, a falta de luz. Labuta diária, minha alegoria, sem riso e sem graça, escassa alegria, mas pus-me de aviso, chamaram meu nome! E ficou de lado passado recente, abracei o convite, que me soou presente.
         Dourado e branco, pedrarias. Ornamentos que brilham com o roçar da luz. Corpo suado, sorriso lavrado nos lábios, com a força da alegria. Manhã de carnaval. Mamãe Oxum habita em mim, enquanto visto suas vestes. Eu e centenas de outras Oxuns, deslizando em mar dourado na passarela. Eu, que não sou passista, nunca pretendi ser sambista, agora peço licença, que minha escola vai passar.
         A luz agiganta os brancos sorrisos, em rostos por demais coloridos. Não há branco, negro, oriental; há só a comunidade, unida para o carnaval. Forma mais clara de se perceber a entrega não há: despir-se de suas marcas, jóias e adereços, aquele anel, que pra você não teria preço, e a alma da escola incorporar. Dar-se assim, de corpo e alma para a escola ganhar, sem deixar dúvida a nenhum comitê julgador: todos ali e naquele momento, não pertencem mais a si próprios; doaram-se para a escola, alegre desprendimento.
         Dourado e branco, pedrarias, e gira, gira que a gira chegou. É aum, é umbanda, africana magia, que se mescla com o samba, que me enfeitiçou. E a temperatura do corpo mede a vida que cresce em nós. E nós, de corpo suado, ornamentos pesados, mas que estranhamente, nos fazem voar. Eu, que não era do samba, que nem mesmo sou bamba, agora confesso: aqui quero voltar!

         E na quarta de cinzas, na volta para a lida, canto num canto, como o compositor o faria, melancólico, voz baixa, quase uma agonia: “tô me guardando pra quando o carnaval chegar...”

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLuciana NepomucenoLunna Guedes,Maria CininhaTatiana KielbermanThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

PORQUE A VIDA É FEITA...


        Porque a vida é feita de palavras que ancoram, palavras que se vão, palavras que nos levam junto, e palavras que nos fixam em alguns lugares da memória... Somente por isso tomo teu nome, palavra primeira a assomar em meus lábios, e o bendigo.
        Somente por isso tomo tuas citações e as anoto, como se tuas palavras pudessem trazer-te de volta. Como se o peso de cada letra te materializasse. Imagine se eu pudesse?
        Porque a vida é feita de palavras, tatuagens somente visíveis quando jogamos luz na nossa pele, somente por isso toco onde ficaram estas marcas, para não me esquecer da potência de cada uma. Transformações.
        Porque a vida é feita de pequenas estórias contadas com a devida veracidade, podemos nos esconder de nossas reais verdades e vendermos aos outros as nossas sinceras mentiras. Porque palavras e parábolas são filhas da mesma mãe, mas diferentes em suas finalidades. Como as nossas histórias, que usam o mesmo personagem em contextos diferentes...

        Porque usei de palavras que me levam para te levar, sei que agora estás comigo, onde sempre deveríamos estar. Da memória para a estante, ali, para dentro de um livro, e no livro, no final, costumeiramente, felizes.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

DE OUTONOS E PRIMAVERAS

E quando pensei que minhas estações estavam findas, chegaste tu, já no meu outono. Fresca primavera, olhar de pura espera, me puxou pra si, disse que eu era teu dono. Mas qual, descobri com o tempo, tu é quem me dominavas. Mas eram brandas as tuas mãos de dona; nelas me perdia, pelas madrugadas.
E quando pensei que minha chama estava extinta, chegaste tu, para aquecer minha jornada. Derme firme, olhar brilhante, desafiando a vida e aos passantes. Segurando minha mão como amante, eu me deixei ficar. Lá se foram calendários, diferenças, contrastes entre minhas rugas e teu frescor. Teu olhar, seta de fogo; neste fogo, meu amor.
E quando pensei que tu te cansarias de um homem como eu, enfadonho, me miravas e como te rias! Disse que me alcançarias, um dia, em sabedorias. Que nos queria como Zelia e Amado, amantes que compartilharam traços e caminhos. Queria caminhar ao lado, e se preciso, descansar á minha sombra. Teu corpo, flor a ser contemplada. Eu, carvalho a te guardar.
E quando pensei que já te conhecia, amoldada que estavas ao meu corpo, eis que tu novamente me surpreendias. Deu-me o teu silêncio, a tua ausência, a tua despedida fria. Contigo foi também a primavera, e tive que me acostumar novamente com a frieza dos meus dias.
Quando por fim jurei que te esquecia, lavado o meu corpo de teus segredos, e do teu frescor de menina, eis que retornas, tocada de um silêncio diferente. Vens como se nunca tivesses partido, me molhas o ombro com um choro sentido, e adormeces soterrada em meu peito. Não penso direito, em verdade, nem penso nada. Só sinto que recomeço e peço: quero outra manhã depois dessa madrugada...


*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLuciana NepomucenoLunna Guedes,Maria CininhaTatiana KielbermanThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

É MEIA NOITE NO FIM DA PÁGINA



“Basta-me um pequeno gesto,
 feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.”
 (Cecília Meireles, Timidez)

            Tenho dez minutos. Somente dez minutos para te dizer tudo, antes que comece um novo dia. Antes que a partida se concretize, e você suba neste ônibus, indo para o outro lado da minha vida. Sim, você simplesmente sumirá do meu mapa, não fará parte dos acidentes geográficos que conheço e percorro. Já tenho menos de dez minutos...
            Então, começo pelo fim. Não pense em ida sem volta. Aqui estarei, acenando ao te ver na janela, quando estiver lendo estas linhas, somente para te lembrar que estarei esperando. Você. Sem preâmbulos, sem palavras floreadas. Você. Carne e osso, cheiro bom, conversa e toque. Você. Não posso fazê-lo ficar, mas posso fazê-lo voltar.
            Nove minutos. Tenho que te dizer tudo. Embalei o que vivemos em canções antigas, anos 80, MPB de boa qualidade, para proteger de tudo que remetesse à realidade. “Nosso amor, um rubi, pedra rara e preciosa...”, canta aqui minha lembrança, e acredito que eles cantavam para nossa história. E você, o que acha? Pense, enquanto o ônibus te leva para longe de mim. Melhor, não pense, sinta. Sei que você tem esta música aí contigo, coloque o fone de ouvido e sinta.
            Sete minutos. Você me olha escrevendo, não sabe ainda que é tua esta carta. Sempre fui assim, avessa a dizer o que sentia. Nunca tive o dom de saber me declarar, demonstrar meus sentimentos. Sempre preferi escutar. Olha a tua sorte, estou conseguindo te escrever, e dizer que quero você aqui comigo! Que você fará falta, como um membro amputado. Como estômago com fome? É, não sou muito romântica, mas quem já não sentiu fome? Tenho certeza que você entenderá o que eu digo. E vai lembrar que eu te faço rir, sempre...
            Cinco minutos. E meio. Lembre-se das nossas conversas. Você vai querer ficar sem elas? Sinta. Sem o meu colo, para você deitar a cabeça cansada de pensamentos e pedindo sonhos? Sinta. Sinta. Lembre-se da conjunção das nossas peles, eu sou tua preta, lembra-se? E você é meu índio, olhos rasgados. Ok, não somos Peri e Ceci, mas somos uma bela dupla. Lembre-se. Sinta.
            Três minutos, e ainda não consegui escrever o que preciso. Talvez, quem sabe, um poeta me ajude? Amar o perdido deixa confundido este coração. Sim, amar o perdido. Sim, é disto o que falo. Sei que você me esperou por tanto tempo, mas eu sou aquela que não sabe se entregar, lembra-se? Aquela que você dizia que tinha vocação para a solidão. Pois eu também acreditava nisto. Até o dia de hoje. Quando estou perdendo minha referência, meu norte.
            Um minuto, e já nos despediremos. Não vou fazer cena, nem te dizer palavras ao pé do ouvido. Só te darei esta carta, para você começar a ler quando o ônibus começar a sair da plataforma de embarque. Quero que você vá, realize teus sonhos, que ajudei a dar forma, mas, por favor, quero que volte. Já é meia noite no fim da página, o motorista  irá chamar todos a bordo, e eu só preciso registrar que a nossa cumplicidade de anos tem nome. Amor. Sinta isso. Eu só me dei conta agora que você sabe disto, está implícito no teu abraço apertado, que me deste a pouco. Pois bem, eu vou contigo, e só volto quando você voltar. O que estará acenando para você será só meu corpo. Olhe para o lado, no teu banco. Eu estou contigo... Então, apelando pela tua compaixão, volte logo e me devolva minha alma, sim, meu Peri?

“Não faças de ti
Um sonho a realizar.
 Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.”*

Ceci.

* Excerto do poema Tu Tens um Medo, de Cecília Meireles


*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLuciana NepomucenoLunna Guedes,Maria CininhaTatiana KielbermanThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia 





segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

HÁ DE SE TOCAR SOMENTE COM OS OLHOS...

álbum de família



O passado revira no presente, mas não podemos revisitá-lo, nem pisá-lo com os mesmos passos, calçando os mesmos sapatos gastos. Há de se pisar nele vestido de memórias, e, tão somente, tocá-lo com os olhos. Se mergulharmos em nós mesmos atrás das antigas emoções, depararemos com emoções caudalosas, que nos tragarão. Não! Há de se tocar no passado somente com os olhos...
Evocações breves, nomes soltos no espaço, cenas antigas, sempre me fizeram voltar a espiar pelas janelas do tempo. Tentei, e tentei em vão, usar os mesmos sapatos para pisar aqueles ladrilhos vermelhos, usar minhas mãos para tocarem outras mãos novamente, sentir o plissado do vestido de seda amarela que me caia tão bem... mas faltava a carne, o vívido, o concreto. Percebia que flutuava, e cada esforço para me colocar no chão era permeado de uma grande angústia, e me dei conta, então, que quando estamos no passado somos fantasmas de nossa história, seres desencarnados querendo voltar para um corpo que não nos pertence, para uma emoção que não nos anima mais.
Nas evocações que me fazem voltar para o passado, redescobri a menina que um dia eu fui, fazendo buracos no morro de argila branca, amaciando-a com água e modelando-a em pequenos pássaros. Esta menina que não mais habito sorria sem abrir os lábios, para não mostrar a falta do dente que caíra, e limpava as mãos de barro em sua roupa de sítio, chinelo nos dedos. O  sol suave de outono lhe caía em cheio naquele cenário, junto com a brisa fresca que mexia em seus cabelos cacheados e seus olhos sorriam. Plena ela era, plena. Sabia-se a si mesma naquele instante, não duvidava porque desconhecia, e a inocência a protegia da angústia de não ser aquilo que os outros gostariam que ela fosse.
Nas evocações que me chamam para o passado, aquela menina se preparava com um vestido amarelo para dançar. Não sabia dar nome para a alegria que sentia, então vestia--se de delicadezas para o garotinho que a fazia sorrir, e o fazia sorrir também. Os véus da palavra ainda não haviam sido levantados para eles. Não nomeado, o amor era livre para estar onde queria, sem vergonhas, medos e pecados. O amor era e não era em si mesmo, porque assim não fora chamado.

O passado revira no presente, e vejo a menina de mãos dadas com seu pai, se equilibrando na guia da calçada, descendo a ladeira rumo ao mar. A imensidão de areia branca, convidativa, as gaivotas que voavam em profusão, arremetendo no mar logo á frente, buscando seu pescado. E a menina, esta que eu fui, respirava fundo, falando sem parar, confiante, escorada pela figura ao lado. Não posso mais pisar os mesmos passos, então flutuo. Não posso ser mais esta menina, então a contemplo. Não posso mais entrar dentro dela, mas a levo, intacta, aqui dentro, vestida de memórias, e tão somente a toco com os olhos...

- este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.

Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...