sábado, 11 de junho de 2011

O PÃO

                O aroma do pão rescendia pela casa. Em um dia de “tia Anastácia”, resolvera colocar a mão na massa, literalmente. Farinha, grãos de trigo, ovos, leite, fermento...tudo fora devidamente amassado, amalgamado, até formar aquela massa perfeita, desgrudando da mão, que fora então posta a crescer, no milagre da multiplicação que só um bom fermento pode fazer.

Enquanto fazia o pão, pensava em tudo o que este representava. Era o alimento do corpo; na missa, o pão repartido era o pão do espírito. Para alguns, era prosperidade; para ela, era realização.

            E o pão se espalhava pela casa, com seu cheirinho tão bom, pedindo uma manteiga em cima e uma xícara de café fumegante como acompanhamento. Aos poucos, os viventes foram chegando, trazidos pelo aroma que apontava para a cozinha.

            O filho mais novo já pedia um pedaço; a mais velha relutava em declarar-se faminta. A sua natureza belicosa em relação a mãe e suas produções foi dobrada pela aparência convidativa. Logo estavam todos em volta da mesinha da cozinha, com o passarinho da família piando, querendo participar da festa.

            Aliás, o periquito era um caso a parte. Criado solto pelo apartamento, sofria de ilusões de ser passarinho francês, e queria estar sempre em cima da mesa, imaginando que sobraria alguma migalha de comida para ele.

            Voltando a cena, era tão raro ver todos em volta da mesa! Um queria ver televisão enquanto comia; a outra mal comia em casa. Normalmente era só a mãe a utilizar a cozinha, fosse para preparar as refeições, fosse para comer sozinha. Os três riam, os dois irmãos conversavam e brincavam; a filha começou a contar os sentimentos e acontecimentos recentes, os sonhos. Neste momento a mãe viajou novamente para o significado do pão: pão da vida.

            Naquele momento aquele era o pão da vida, o pão que devolvera a comunhão daquela família. E como aprendera anos antes, o fazer do pão a transformava, e aos seus também.  Pequenos milagres diários.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

CASAMENTOS

O assunto era o casamento da professora de ginástica. Preparativos para a festa, prova de vestido, quantos andares teria o bolo, quais as lembrancinhas escolhidas... Do lado das alunas, o presente que iriam dar a noiva, a surpresa no chá de cozinha...

Na academia de público feminino, praticamente um clube da Luluzinha, as mais velhas traziam conselhos. Outras  traziam lembranças. Todas compartilhavam, não mais em volta de uma fogueira, ou na mesa da cozinha, mas na roda de ginástica.

Uma magia universal, de mulheres se unindo, foi tomando forma. Umas diziam: “nunca durma brigada com o marido”. Outras aconselhavam: “tenha Deus no casamento”. Outras simplesmente aconselhavam a guardar no coração (e em cadernos, fotos, bilhetes), os bons momentos, para que fossem o sustento para os dias difíceis.

                Interessante que nenhuma destas mulheres falava de como administrar uma casa, como guardar dinheiro, como aumentar um patrimônio. Todas deram de si o que melhor tinham, e o que era mais importante: segredos para manter uma boa relação com o companheiro.

                Afinal, casamento não se resume em fazer festa, brincar de casinha, assinar papéis de propriedade conjunta. Casamento é companheirismo, crescimento mútuo, e isto, somente regado a muita paciência.

                Atire a primeira pedra aquele que nunca pensou em arrumar as malas e ir embora ao menos uma vez na vida. Os antigos tinham paciência. Casamentos que duram são fruto de muitas voltas por cima, muitos sapos engolidos, muitas lágrimas escondidas. Mas há atrás disso tudo a lembrança de um começo bom, da paixão. Os corpos envelhecem, a barriga, a bunda, os seios, os cabelos não ficam no mesmo lugar.  Olhar para o companheiro(a) com o mesmo desejo é uma arte. A arte de ater-se a realidade, de reconhecer o esforço de quem está com você, por todos esses anos, suportando todos os defeitos (sim, temos defeitos!), e também o nosso envelhecer.

                No Japão, quando o marido volta cansado do trabalho, a esposa diz: “otsukaressama deshita”. Não há uma tradução literal, mas o significado seria “bendito seja o teu cansaço”, pois “tsukareru” é cansar-se, o prefixo “o” indica respeito, assim como o “sama”, e “deshita” indica a ação no passado. `As vezes aprendemos com outras culturas a respeitarmos aquilo que não vemos, como o dia que o nosso companheiro passou longe de nós. Eu levo comigo esta atenção especial das submissas porém sábias japonesas.

                A vida é feita de pequenas coisas. Mas mesmo as pequenas coisas não sobrevivem sem amor, sem atenção. Uma comida simples, feita com atenção, vale. O trabalho feito com dedicação, vale. Ouvir o que o outro está falando, vale. Um chá quente, um afago quando estão juntos, cuidados não solicitados, vale.

                O amor não tem pressa. Não é conto de fadas, com um ”viveram felizes para sempre”, nem uma eterna vilania do sexo perfeito, como o querem os livros e filmes americanos. Há o prazer no dia certo, o respeito ao cansaço alheio, quando este se faz evidente. Mas tudo isso é amor, respeito, vida a dois. Não é o paraíso, também não é o inferno, a não ser que assim queira considerá-lo.

                Uma das maravilhosas companheiras do círculo de mulheres contava a relação com o marido com Alzheimer. Ela poderia ter considerado a experiência um inferno, mas não. Cuidou do companheiro até o final. Contava para nós como o casamento foi maravilhoso. Às vezes ficava louca com as atitudes já insensatas do marido, se entristecia por não ser mais reconhecida, mas sabia que havia no fundo dele a história dos dois, pois, até o final, ele sentava ao lado dela para ver televisão, sempre de mãos dadas, como quando estava são.

                Histórias fortes, histórias tristes, como das que foram abandonadas, e lutaram para criar sozinhas os filhos, histórias....O casamento de uma despertou o casamento de todas as outras, e resultou num compartilhar de experiências sem igual.

sábado, 2 de abril de 2011

RELIGARE

1-

PAI,

Que as coisas

Sejam.



2-

Ampliando,

Abrindo a visão.

Vendo sempre

O voltar por seus braços.

O Eterno.

Dissolução.



3-

A ignorância,

A boa ignorância.

O conhecimento,

O mau conhecimento.

Viver em dissonância

Entre o ato e o pensamento.

Querer ir

E fazer coisas para ficar.

Não crer que o sonho

Possa acabar.

O que me chama?

A música.

A música!

E a ajuda.

A união.

A não religião.



3-

Tomates vermelhos.

Redondos

Maduros

Túmidos.

Prontos

A explodir

Em oferenda

A Deus.



4-

Na busca,

A perda.

Conhecimento?

Divisão.

Meu espírito

Eterno.

Meu corpo

Decomposição.

Atômicas notas

No espaço...

segunda-feira, 14 de março de 2011

ESPADA

Meu costumeiro verso


É sagrado,

Cheio de palavras

De espada,

Que cortam

O vento e o universo

Desfazendo a vida

Em tudo e nada.

sábado, 12 de março de 2011

PASSARINHO

A vida é cheia de graça. Há algumas semanas estava em depressão, vendo tudo embotado, minhas capacidades, minha falta de riso... tudo denunciava o meu lado chato, nada “clown”, nada simpático ou agradável.


Eis que minha filha, com toda sua determinação, conseguiu trazer para casa um periquito que estava prometido a ela desde o ovo, literalmente. Fomos buscá-lo na casa da amiga, e ele veio com várias recomendações , uma lata com ração e uma velha gaiola.

Ela declarou que o animal seria criado solto, no dedo, porque morria de dó de passarinho preso na gaiola. Também disse que cuidaria do periquito, pois era dela. Fiquei realmente impressionada com o discurso, e esperei a prática.

Obviamente, no dia seguinte a chegada do novo membro da família, quem limpou a gaiola, colocou jornal para o passarinho fazer cocô enquanto lia as notícias e reabasteceu a ração foi esta que vos fala. A dona do animal limitou-se a levá-lo para seus aposentos, para que ele pudesse ficar lendo o livro junto com ela, empoleirado em seu ombro.

A novidade durou dois dias. Logo as atividades diárias, escolares e extra curriculares foram maiores que o interesse pelo pássaro. Inversamente proporcional foi o aumento da minha responsabilidade para com o mesmo, e já que eu nunca tive que cuidar de periquitos, recorri ao nosso moderno “pai dos burros”, ou seja a internet.

Após duas horas de pesquisa, percebi que passaria mais tempo cuidando do pássaro do que de meus próprios filhos. Obviamente, se isso fosse possível. Expliquei para minha recém chegada filha, naquela tarde, o que não poderíamos fazer, o que o bichinho teria que comer. Ela não gostou nada, mas não retrucou, já que não tinha informações melhores.

Nos primeiros dias o periquito estava triste, assustado. Eu cantei para ele, dei frutas, e achei que o bicho iria morrer de tristeza sem os outros periquitos. Foi quando lhe dei um pedaço de espiga de milho, e conquistei sua confiança.

Aos poucos o periquito começou a voejar pela cozinha. Quando eu o queria na gaiola, lhe dava o pedaço de milho, e logo ele vinha comigo. Fui me afeiçoando ao pássaro. Quando chegou ao final daquele dia, fui dormir com um sorriso no rosto.

Passados mais dois dias, minha filha se queixou que o passarinho não vinha mais na mão dela. A estas alturas, ele já estava voando pela sala, e só ia na mão quando queria retornar a gaiola. Ela não queria o animal livre? Pois eu o estava criando livre.

E estou. Agora o periquito pia para que eu abra a gaiola, e vai no dedo até ela quando se cansa de voar. Hoje meu filho menor passou a manhã sem ver a televisão, ganhando a confiança do animal , e conseguindo finalmente que ele viesse na sua mão, e passeasse pelo apartamento pousado em seu braço. O periquito estava bem a vontade, e meu filho, feliz.

A dona do periquito dormia, e a casa estava acesa. Voltei a sorrir; meu filho sente que tem um companheiro, a vida ficou mais leve. Se o periquito é da minha filha ou da família, pouco importa. Meu esposo chega e vai assoviar para o passarinho. Hoje veio com areia própria para o bicho, e uma cordinha para ele bicar.

Todos mimam, todos precisam cuidar. A vida não é mais triste, por conta de um passarinho de dez centímetros.

DESPEDAÇADA

Despedaçada. É como eu me sinto. Todos os pedaços do meu ser sendo devorados por si próprios, autofagia, aniquilação. Não há processo criativo que vá para frente, não há esperanças.

Gostaria de não estar escrevendo isto, mas tenho que me colocar em algum lugar. Os poemas me fugiram. O piano me afugenta. Minha voz quer ficar silente, pois diziam que eu falava muito, ela se cansou. Meu riso está desacorçoado, não sabendo para onde ir.

Minha cabeça nada cheia de idéias, mas são todas fugidias, ou muito longas, estafantes. Estou cansada de sentir, de pensar, de amar, de me entregar. Preciso de férias de mim mesma, ir a um paraíso, sem juízo, sem juízes.

Tenho muito tempo de sobra, e não sei o que fazer com ele. Tenho obrigações rotineiras, e uma cansaço medonho, que tem me acompanhado estes últimos tempos. Acima de tudo isto, há uma perda muito grande. Há perdas muito grandes. Perda de entes queridos, perda de uma amiga querida, minha confidente, minha conselheira. Com ela tudo eu podia falar, pensar, sonhar. Ela me apoiava.

Agora, não há mais longas conversas ao telefone, nem curtas conversas, nem uma oração por mim quando me sentia triste, nem um “vai passar” que me console quando tudo parece uma bosta.

O luto é algo concreto, é a perda do contato com a pessoa querida. Da espiritualidade, que cuidem os espíritos nesta hora, pois o que nos faz falta é a presença física, ainda que acreditemos na imortalidade da alma. A alma não tem a capacidade de nos ligar ao telefone, enviar a carta, nos dar um sorriso visível. Ela está não estando, é não sendo, pois a matéria do qual é feita não nos pertence, não nos toca.

Pois é, estou de luto. Luto por todos aqueles que se foram nestes últimos meses, e que me deram a consciência que o ser espiritual segue um caminho, nós que estamos aqui na terra seguimos outro, e enquanto nossos caminhos não se cruzam (o que significaria a minha morte, no caso), tenho que aprender a lidar com a finitude inevitável, com a dor palpável daquilo que não mais tocamos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

LAPSOS DE TEMPO

Lapsos de tempo. Passei por vários deles, desde a última vez que escrevi. Perdi pessoas queridas, e fui rever minha vida. A única coisa que nunca deixei de ser foi ser artista, escritora, sonhadora. Estou voltando a sonhar. Ou viver? Quem ler, decide.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ULTIMAMENTE

Ultimamente andei passeando pelos escritos de Mario Quintana, e percebo que nós, que escrevemos, somos como cães que correm atrás do próprio rabo. Escrevemos sempre novas obras, com assuntos antigos, nossos velhos conhecidos, nossos fantasmas ou nossas perdições.

São nossos medos mais secretos, nossos traumas que ficam arranhando a porta. Imagens que nunca se apagam. As vezes adormecem, mas num determinado dia, ressuscitam, num entardecer, ou no meio da noite. O beijo que não foi dado, o afago que ficou prometido no ar, o desejo que não foi concretizado. O eterno “e se...?”

Somos caceteantes, não fora a nossa capacidade de escrever sobre antigos temas de mil novas formas, que enganam a nós mesmos e aos leitores. Não temos coragem de escrever de letra inteira, não ocultando os fatos. Haja pseudônimo para fazer isto com tranqüilidade para acordar no dia seguinte!

Mentimos para nós mesmos, para os outros, enquanto estamos dentro do espaço do papel. Só não mentimos para nossas entranhas, que gritam por revelar a nossa podridão, os pensamentos pouco caridosos, os pensamentos libidinosos. Elas gritam: você é de carne e osso! Quem te rege é a terra! E a terra tem necessidades que o espírito sozinho não alcança.

Somos hipócritas porque devemos mostrar aos nossos filhos o que é ser digno, ético, politicamente correto. Se eles escutassem um quarto dos nossos pensamentos de um só dia (acordados, veja bem), estragaríamos toda a educação dada até então. Meu deus, será que devo escrever isto?

Quantas vezes já parei de escrever uma poesia, ou nem mesmo comecei, porque o que me ia na alma não condizia com o que eu vivia? Quantas vezes temi me revelar nas linhas, fazendo uma revolução para escrever o que não devia ser escrito, e me deixando de fora do que eu mesmo fizera?

Que loucura é a mente humana! Chegamos a uma certa idade (não digo a minha pois tenho um amigo que diz que mulher é sempre jovem e não passa dos trinta...) e cansamos de mentir. Cansamos de forjar personagens para viver. Cansamos até de respirar. E olha que respirar é importante.

Mas, voltando ao assunto inicial, cada um tem um tema preferido. Quintana namorava com a morte, dele dos outros, do dia a dia, em cada seu poema. Há os que namoram com sua própria libido; há os que namoram com sua própria identidade; há os que namoram com lembranças. Há os que namoram com as rejeições que sofreram. Como diz a música da Maria Rita, “é como um disco riscado, um velho tema batido...”

Nós, escritores, somos seres estranhos, que não queremos ser mais do que os outros, mas temos certeza de o sermos, pelo simples fato de escrevermos. Complicado, não é? É a história do falso moralismo novamente em cena: não posso ser pedante, orgulho é muito feio, não posso me achar melhor que os outros...mas eu quero ser super, eu sou super!

Ao invés de afundarmos nossos recalques num copo de bebida, no cigarro ou nos braços de alguém, o fazemos no papel, ou no computador. Não que não façamos nada do descrito acima, veja bem. Só que mesmo nos esbaldando em qualquer dos itens anteriores, ainda assim nos sobra um vazio no peito, uma necessidade de escrever...

E aí, voltamos a ser como cães correndo atrás dos próprios rabos. Voltamos ao nosso pecado original, ao nosso orgulho incontido e vaidade escondida. Voltamos a nós mesmos, enquanto há aqueles que sequer sabem quem são, como diria Clarice (a Lispector, sabe?). Também não sei se ela diria assim mesmo, mas ela era tão confusa. Ela também se revelava nas linhas, e sabia disto, e sabia quem a lia. Como queria ser Clarice!

Mas escrevo quadradinho, com começo, meio e fim. Por falar em fim, eis aqui o meu, cansei.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sentir

Há sensações que a gente guarda


Na memória mais exata.

É o calor da mãozinha do filho,

Passando no nosso rosto, com carinho,

Tão pequenino, seguido do primeiro eu te amo.

É adormecer enganchada na filha,

Abraçadinha, porque ela tinha medo do escuro.

Deleitar-me com o amor incondicional

Que me dão,

E que pude dar, quando pequenos.

O choro pela manhã, e a última meia hora de sono,

Abraçadinha com o nenê.

Curti os dois. Muita distância lhes deu esta vantagem.

Também deu a mim. Pois o carinho doce das pequenas mãos,

Nos afagando o rosto, pegando a nossa mão,

É uma deliciosa sensação,

Que só uma mãe conhece.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CANTATA

Não sei mentir.
Não sei calar meus olhos
Ainda que minha boca
Esteja calada.


Não sei mentir.
Me sinto transparente
E transpirando o que sinto.
Me sinto olhada.


Elogios para mim.
Já não acho ruim.
Sou valorizada.


Os olhos em mim.
Meus olhos que falam.
Sonoras risadas.


(in o poente, o poético e o perdido, de minha autoria)

A ESPERA

A espera é longa. Esperar, paciente, quase impossível. Qual criança que solicita o peito da mãe, há certas esperas que deveriam findar de imediato. São alimentos da alma, e esta, ávida, se não saciada, grita ou estertora, até perder a voz e as forças.

Do que falo eu? De tudo e de nada. Dos sonhos que projetamos e não conseguimos concretizar rapidamente, da carta do amigo que não chega, da cura para uma doença que não vem, de situações pendentes quase insuportáveis que não se resolvem.

Falo de labirintos que meu cérebro tem, e que minha mente percorre diariamente, tentando encontrar soluções para a vida de amigos, tentando encontrar ações coerentes para com meus entes queridos. Labirintos cheios de pensamentos, imagens, idéias, que as vezes me envolvem num torvelinho. Diante da loucura que se expõe, mando a mente parar.

Há esperas concretas, do filho que não chegou da festa, do pagamento no final do mês, do consórcio que não sai, o bilhete de loteria... Há esperas mais sutis, como do retorno do telefonema, flores no aniversário, comentários sobre a comida que fiz, sobre o perfume que usei.... Há esperas impossíveis, como a de soluções para o problema dos que sofrem, por falta de dinheiro ou de organização na vida, por falta de amor por parte de parentes, falta de educação e perspectivas dentro do mundo em que vivo e me cerca.

Dizem que preocupação envelhece. Devo ter uns cem anos. Rio muito, mas não tenho a vida leve. Sou como um “clown”, cuja máscara tirada pode revelar um rictus desolador. Faço rir, alivio a dor de outrem, mas a minha própria dor, como posso aliviar? Eu mesma tento me abraçar e me consolar, argumento que a espera é longa ,mas conseguirei concretizar meus sonhos, dar boa vida a meus filhos, ter uma velhice em paz.

Por isso escrevo. Quando escrevo não espero, não sofro, deixo rolar as palavras pelo papel, com seixos rolam naturalmente do alto do morro quando chove, chuva boa, de pensamentos. Para a inspiração não há espera. Há uma vocação que nasce conosco, de deixar-se ir nas palavras, nas imagens que rolam a nossa frente, nas sensações que inundam o peito.

Quando me sinto saciada, não há mais a angustia da espera. Há o sono tranqüilo, o caderno cheio de escritos, e a sensação de que o mundo pode ser melhor, a vida pode ser melhor, se cada um puder sonhar um pouco. Eu sonho sonhos coloridos, alimentada de palavras, do consolo que dou a mim mesma, alimentada pelo meu próprio seio, do meu próprio leite. E então, só então , sobrevem a paz.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...