quinta-feira, 8 de março de 2012

QUE DIA, O DA MULHER!

                Muitas vezes queremos escrever histórias para sonhar, mas o mundo não deixa. Hoje, em pleno Dia Internacional da Mulher, provei a mim mesma que mereço um dia só meu. Comecei como mãetorista; depois, fui office wife, ou office mother, dependendo do serviço do alheio que haviam me incumbido; depois, fui personal conselheira, quando uma amiga me ligou; e houve também a hora da choradeira, quando eu estava morrendo de cansada, com as pernas doendo e a barriga com uma moleza e cansaço, sem vontade nem para comer...

                Começou ontem,quando fui tentar renovar minha carteira de habilitação, processo, dizem rápido no “toma-tempo” (ai, desculpe, poupa-tempo), e a ação foi ineficaz. Cheguei britanicamente na hora agendada, não xinguei nenhum funcionário público ou terceirizado, levei um livro para ler e não perder a paciência; até barrinha de cereal tinha na bolsa.

                Estava tudo indo bem, quando deu pane no sistema, e, juntamente com mais uns dez cidadãos, fui premiada com o Limbo DETRAN 2012. Não consegui fazer  o exame médico porque o sistema não identificava a coleta de minhas digitais. Também era de se irritar (apesar de milagrosamente, eu não chegar ao ponto de) que os que chegaram depois de nós conseguissem fazer o procedimento completo, enquanto nós éramos mandados para casa, sem solução. Gasto de tempo, perda de clientes, dinheiro para o estacionamento...

                Voltei, fiz almoço em trinta minutos, fui buscar meu filho (olha a mãetorista aí, gente), voltei, dei almoço, consegui fazer xixi, lavei as louças, coloquei roupa para lavar, e logo chegou uma cliente. Uma hora e meia depois, ela se foi, dei um lanche para meus filhos (e para mim), e, mesmo exausta, fui acompanhar a lição de casa do menor. Depois da janta, fiquei um pouco no computador, para relaxar; ganhei praticamente um torcicolo, dormi mal.

                Acordei na manhã seguinte com meu esposo brigando com minha filha as cinco e cinquenta da manhã.  Amei tudo isso, como diz o jargão de uma lanchonete conhecida de todo mundo que já enfiou o pé na jaca, e não consegui dormir mais. Os dois foram embora para serviço e escola, e eu fui arrumar a lancheira do menor.

                Ás dez para as seis, acordei o pequeno, que sonolento se vestiu e esqueceu de pentear o cabelo, parecendo que tomara um susto. Dei o café, troquei a comida dos pássaros, e consegui tomar um café também, em vinte e cinco minutos, cronometrados. E mãetorista até a escola. De lá, fui entregar o material de desenho de minha filha, que ela esquecera, há vinte minutos dali. Voltei, fui para a igreja (pois é, as sete e meia da manhã, para rezar pelo meu dia), e após a missa, atendi o padre com acupuntura para sua artrose, e este ainda me chamou a atenção por eu estar com um vestido (até os pés) de alças. Quase virei as costas e fui embora, mas pensei que ele era de outra geração, e continuei atendendo. Acabei ouvindo as confissões do padre (que eu não conto aqui), e após o atendimento, fui ao banco (office wife).

                Dia da mulher: consegui pegar meu filho pontualmente ao meio dia na escola, correr para dar almoço, falar com minha amiga ao telefone, tomar um banho de sal grosso antes de ir atender (porque já no meio do dia eu estava com vontade de chorar de cansada, não sei por que...), e as duas horas estava sorridente e cheirosa na clínica, para atender minhas clientes. Só saí de lá as cinco, agradecendo que minha filha mais velha estava em casa com o mais novo, e o pai dera uma passada lá na minha ausência.

                Cheguei em casa e vi que ainda deveria ter tirado xerox de documentos e pego folhas de cheque para meu marido (office wife 2). Deixei novamente meus filhos em casa, e seis  e meia estava eu no shopping próximo a minha casa, com xerox na mão, correndo para tirar as folhas de cheque, e a seguir comprando papel higiênico para a casa, porque tudo o que entra sai, não é mesmo?

                Cheguei exausta, quase com cãibra nas pernas, quando escuto minha filha me pedindo para fazer porcarets de janta (leia: nuggets, batatinhas e afins). Dei graças a Deus de não ter que fazer comida normal, e estava indo ao banheiro, quando o menor pediu para fazer a lição com ele. Pedi dois minutos, e fui ao banheiro. Quando lá estava, escuto a porta do apartamento abrindo, e meu marido já brigando com quem estava na frente, me chamando, porque o menino estava fazendo a lição com a televisão ligada????? Eu pedi dois minutos de sossego porque eu estava no banheiro (deveria ser um direito do dia das mulheres), e fui tourear a situação.

                Janta dada, fui tocar piano com osom baixinho, para relaxar. Depois de tocar uma música de Dolores Duran (AH,  a noite escura o vento frio, esta saudade ,este vazio...), encontrei  todos de banho tomado, e indo para a cama. Vim então escrever esta crônica, para que da próxima vez que alguém vir uma mulher e não der os parabéns para ela no seu dia, se sinta muito, mas muito culpado!!

sexta-feira, 2 de março de 2012

QUANDO NASCE UM LIVRO

passei maravilhosos momentos
com pessoas por seu ofício iluminadas,
que tecem venturas de tormentos
e criam o tudo aonde havia o nada.
confraria de seres singulares
que com pena e papel se elaboram,
não se escondem, pois a Alma fala neles,
e os anjos com eles dialogam.
são da terra, no entanto,
e ainda sentem
o prazer, a dor e a alegria,
motivo para celebrarem sempre
novos rebentos
desta bela confraria.

UMA GRANDE CONFRARIA

                Ontem estive no lançamento de um livro de um amigo, Menalton Braff, apresentado há algum tempo atrás por um outro amigo de décadas, Deonísio da Silva. Resolvi ir de metrô, para não chegar irritada com o trânsito de São Paulo. Cheguei até cedo demais, mas inteira, o que considerei  um milagre, frente ao calor que fazia nesta terra.

                Fui uma das primeiras a chegar. Não havia bolso em meu vestido, e não tinha aonde colocar as mãos... tentei  sair para voltar mais tarde, mas o autor me avistou. E lá fui eu, prestigiá-lo, num sem jeito que me fez sentir como uma penetra em festa de casamento. Comprei o livro, logo autografado por ele, e eu fiquei ali, sem palavras, olhando, pouco a pouco, outros escritores chegarem, para prestigiá-lo. Fiquei saboreando satisfação alheia, percebendo o momento, as trocas, a emoção a cada chegada de uma pessoa querida.

                De repente fiquei pensando o que fazia mesmo ali. O local estava repleto de escritores, membros de uniões e academias, e eu, uma simples aspirante, no meio de todos eles. Quando me perguntaram se eu também era escritora, disse que sim, apesar de ainda não publicada. E fui explicando que só publicava em meu blog, como se pedindo o favor de poder participar daquela confraria que se reunia diante de meus olhos.

                Há pessoas que ficam mudas ante um ídolo da música, ou do cinema. Eu fico muda ante a grandeza  de outros escritores. São todos seres de carne e osso, mas com uma capacidade que me fascina. Sei que também escrevo, mas não tenho um livro meu publicado. Não tenho um objeto concreto que mostre que eu sou  escritora.

                A escrita está em mim, o ser escritor está em mim, mas continuo a admirar aqueles que fazem da escrita o seu ofício, com obras para chamarem de suas. Escritores são imortais, pois eles passam , suas obras ficam. Eu me dei conta que quero ser imortal também!

                Voltando a cena, acabei encontrando pessoas que havia conhecido, e fiquei até o evento acabar. Ri, conversei, beberiquei um vinho, e percebi, ao final, que me sentia em casa no meio de todos eles. A paixão em comum pela literatura me fez sentir em casa. E a pergunta inicial, sobre o que eu fazia mesmo ali, foi respondida: fui encontrar amigos de alma. E ponto final.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

APRENDENDO COM O AMOR OU COM A DOR

Ao longo de minha vida, sempre ouvi que a cada ação corresponde uma reação. Sempre tentei levar o meu dia a dia tendo isto em mente. Talvez boazinha demais, tentei durante boa parte de minha vida não ofender, não magoar, não causar conflitos.

         E passados quarenta anos de existência, me questiono se tudo o que fiz foi correto. Não que eu queira ser má, de uma hora para outra. A verdade é que percebi que, com algumas atitudes, tentando não magoar os outros, eu deixei que me magoassem. Foi um grande baque esta tomada de consciência. Eu quis tanto respeitar aos outros que me desrespeitei, dando a outras pessoas a liberdade de me magoarem.

         Me dei conta que eu vivia me lamentando por ser sempre uma vítima, em situações que se repetiam ciclicamente. Me perguntava porque estas situações me “perseguiam”. Foi quando eu ouvi, pela primeira vez, que eu permitia que estas situações ocorressem. Escutei e esqueci. Outras tantas vezes desempenhei perfeitamente o papel de vítima, até o dia em que cansei.

         No dia que cansei, percebi da pior maneira: adoecendo gravemente. Apresentei uma doença auto imune, chamada Lúpus, e o que meu corpo dizia para mim era somente aquilo que eu não queria escutar: você permitiu que isto ocorresse. E, como não foi pelo amor, aprendi pela dor. Aprendi que durante anos e anos eu não me amara o suficiente para me fazer respeitar e impor limites aos que me cercavam. Quando eu era magoada e me calava, dava espaço para ser mais magoada; quando os abusos ocorriam, eu permitia que eles ocorressem, simplesmente porque eu não me amava.

         Como foi doloroso perceber que eu tivera estas atitudes comigo mesma! Eu estava dentro de um processo de tentar perdoar as pessoas que haviam me magoado, e tentar, senão esquecer, não ser mais atingida pela dor durante as lembranças. Chegara a conclusão brilhante de que cada pessoa só dá ao outro o que tem dentro de si, e conseguira perdoar a muitos somente analisando como eles tinham sido criados, como era sua história de vida. Não passei a amá-los, de uma hora para outra, mas parei de me sentir machucada a cada vez que revia suas atitudes, pois percebia que tinham limitações como qualquer ser humano, e agiam de acordo com suas verdades.

         Mas quando eu me dei conta que dera espaço para todos os que me magoaram ao longo da vida, como foi difícil me perdoar. Como foi difícil me enxergar com limitações, como vítima de meu desamor! Até então, eu achava que eu me amava. Proclamava minhas capacidades, minhas qualidades, mas no fundo, duvidava de todas elas. Tentei inventar novas rotas no passado, usando o “e se” como uma constante em meu discurso. Se eu tivesse falado tal coisa, ou agido de tal e qual maneira; e se eu pensasse por mim, e se eu acreditasse em meus sentimentos e intuições...

         Foi quando  escutei uma frase: “o passado não volta; o futuro ainda não chegou; a única coisa real é o presente, o agora. O que passou não pode ser lamentado; não adianta se pré-ocupar com o que está por vir; mas fazer o seu melhor no agora, é a única ação eficaz. Erros, todos cometemos; isto é vida.”

         Com certeza, já havia lido e escutado isto várias vezes; mas daquela vez eu entendi o significado. Parei de lamentar o passado, os atos dos outros e os meus, e fiquei mais atenta ao que ocorre a cada momento em que vivo.

         Em recolhimento, consegui perceber meus valores e meus defeitos, e consigo, hoje, perdoar a menina que se achava pequena demais para se defender; a adolescente que se isolava, para não se sentir ameaçada com o amor; a adulta que se anulou para viver a vida de outros, esquecendo de seus sonhos.

         E foi neste movimento que me permiti gozar de certas alegrias, como tocar meu piano no momento em que deveria estar lavando a louça suja; ou parar para ler até as duas da manhã um livro lindo, enquanto o resto da casa dormia; ou escrever histórias que nunca deixara antes sair, apesar delas ficarem bailando em minha cabeça por tantos anos. Foi neste movimento que me permiti estar com quem me agrada, e não com quem me ofende ou machuca. Foi neste movimento em que troquei o duvidoso pelo certo.

         Percebi que minhas atitudes mudaram, e alteraram também as atitudes dos que convivem comigo. Ensino a meus filhos e a quem me cerca, não com sermões, mas com ações, que ninguém tem o direito de nos machucar, nos deixar com uma opressão no peito, com vontade de sumir.

         Não me encaixo mais no papel de vítima, mas de merecedora de grandes bênçãos e presentes. As bênçãos são amigos que chegam, portas que se abrem, conversas únicas que temos com pessoas especiais as mais diversas.

         E por isso, hoje, também me prendo menos a convenções; escolho meus caminhos não para agradar aos outros, mas para agradar a mim mesma. Não vou aonde me machucam, pois não sei ser grosseira, às vezes não sei ainda impor limites. Me preservo, por saber, hoje, me amar.

          Não sou perfeita, tenho meus dias de mau humor, cometo erros, mas aprendi que perdoar a si e aos outros é um exercício constante. Por isto, pedimos para que Deus perdoe as nossas ofensas assim como perdoamos aqueles que nos ofendem. Se somos um pedaço da divina centelha, nós mesmos temos que nos perdoar, através do Deus em nós mesmos. Se não nos amamos, não amamos a Deus... não amamos aos outros, vivemos uma mentira.

         Sei que este não é um conto, não é uma crônica, mas também faz parte de mim, e bailava para sair...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A LIÇÃO DE ANNA MAGDALENA

            O piano era tocado pela adolescente, exaustivamente. Repetia a mesma melodia vez após outra, tentando acertar o ritmo entre as mãos esquerda e direita. A peça, uma composição de sua mãe, escrita a lápis, num caderno já amarelado pelo tempo.

            Vez por outra a mãe vinha da cozinha e tocava para ela a melodia, para que pudesse imitá-la e executar a música no ritmo correto. A mocinha voltava a tocar, até o momento em que, exultante, acertou a execução.

            Foi para junto da mãe, que preparava a janta, e se confessou arrependida por ter interrompido suas aulas de piano, há três anos. Agora que realmente apreciava o instrumento, não havia condições dos pais bancarem o custo das aulas.

            A mãe então falou que, mesmo que não percebesse, ela estava estudando, quando tentava executar a música dela. E que este fora um método usado por Bach para ensinar a sua segunda esposa, Anna Magdalena. Ele compôs pequenas peças para que esta executasse e aprendesse a tocar piano, e que foram reunidas posteriormente no Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach.

            A adolescente encantou-se com este ato de amor em forma de música. E voltou ao piano, cônscia que ao tocar a composição de sua mãe, podia repetir o movimento amoroso com que Bach brindara a esposa. A música e a métrica saíram a perfeição, para espanto da menina. A mãe, porém, não se espantou, pois perfeitos são todos os caminhos que levam ao coração...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O ÍDILIO

            Dona Alma, ou Alminha, como todos a chamavam, olhava para a parede da sala. Fotos da comemoração das bodas de ouro com Agenor penduradas na parede. A cortina semicerrada deixando entrar um raio de luz.

            Agenor se fora havia um mês. Um câncer lhe tomara tudo por dentro, e apesar de todos os tratamentos e cuidados de Alminha, ele não resistira. E agora lá estava ela, imaginando que rumo tomar. Sempre fora muito católica, participativa na igreja, e conversara com o velho Monsenhor há dois dias. Dissera que Deus já podia levá-la, e o Monsenhor a repreendera. “Não, minha filha, se ainda está nesta terra, Ele ainda tem surpresas para sua vida.” Mas, nessa idade?, pensou ela.

            Agora ela refletia sobre algo que o Monsenhor falara: aproveitar a sua vida, fazer o que gostava, procurar antigas amizades, enfim, viver. Foi então que deu seu primeiro esboço de sorriso. Recordara de Alceu, seu primeiro amor, em Itu, aonde nascera. Ele se enamorara de Eleonora, e   ela perdera o amigo, oculto pretendente, para outra. Afinal, ela também se casara, sua vida fora muito boa com Agenor.

            Mas uma idéia martelava em sua cabeça: e Alceu, aonde andaria? Será que já morrera? O comichão foi tão grande, a curiosidade, que conseguiu que uma amiga que enfrentava a parafernália da internet procurasse pelo homem nas redes sociais.  Pois não é que com nome e sobrenome encontraram o filho de Alceu? Ele era padre, ordenado, de uma pequena igreja no interior. Com outra amiga, conseguiu o telefone da igreja, criou coragem e ligou para lá.

            O padre, realmente filho de Alceu, ficou bastante assustado com uma senhorinha lhe falando que procurava por seu pai, amigo de mocidade. Ele pediu-lhe o telefone, prometendo que falaria com o pai, e daria o recado a ele. Quando desligou o telefone, o padre coçou a cabeça; a mãe doente, com o Alzheimer já em estado avançado, praticamente uma sombra da mulher que fora, e o pai cuidando dela, já há tantos anos, como falaria de uma mulher que lhe procurava?

            Mas falou. E Alceu lembrou de Alma; ligou para ela, contou que ainda estava vivo, que cuidava de sua esposa doente. Alma lhe contou então que enviuvara a pouco, e em que condições. Compartilhou com ele palavras amigas, experiências do que passara com o esposo, e colocou-se a disposição para conversar, se precisasse desabafar. Ele também era um católico fervoroso, tomava a comunhão diariamente, tinha um belo amparo, e apreciou as palavras profundas de ajuda que lhe deu.

            Depois deste telefonema, Alma não mais ligou para Alceu. Mas em Itu, a morte levava mais uma companhia para casa. A esposa de Alceu falecera, e agora era ele que tinha que repensar o que fazer com a vida. Fora um casamento de quase sessenta anos; nos últimos três, vivera quase que exclusivamente para cuidar da esposa. Mas no fundo da memória, bem lá no fundo, lembrara de Alma. Formosa, jovem, sua amiga, até que Eleonora aparecera. Começou a pensar no por que não namorara com Alma na época. Ah, sim, seu amigo gostava dela, não iria trair-lhe a amizade...

            Lembrou do telefone dela, em algum lugar...na gaveta do escritório, claro! Achou o papel, fez o interurbano para São Paulo, e logo Alma atendia o telefone. Ele contou que enviuvara, ela lhe deu as condolências, conversaram um pouco, e ele disse que gostaria de encontrá-la.

            Marcaram o encontro para dali a uma semana, em São Paulo. Ele registrou-se num apart hotel, perto da residência de Alma. Deste reencontro, saíram remoçados; valores comuns, muitos anos de vida e a certeza de que a vida é hoje os fizeram tomar uma decisão que quase levou ao infarte os familiares de ambos: começaram a namorar.

            Alceu tinha condições, e se mudou de mala e cuia para o apart hotel. Alma foi se confessar com o Monsenhor, que sorriu, e disse que amar não era pecado, que isto era vida! E a abençoou, por poder encontrar a felicidade mais uma vez.

            Meses depois o mesmo Monsenhor os casou em sua paróquia, com os familiares de ambos entre emocionados e assustados. A cerimônia foi singela, e apesar do estranhamento, a noiva, jovem de oitenta anos, estava linda em seu tailleur creme com pérolas. Alceu a esperava no altar, nervoso, como se nunca tivesse passado por isso. E os olhos dos dois brilhavam, com genuína emoção.

            E então, a lua de mel...Para espanto de todos, os dois pombinhos esqueceram do mundo a volta deles, e sequer saiam para a missa matinal, como antes era o costume. O idílio durou três meses, quando então juntaram-se o Monsenhor e o outro padre, filho de Alceu, para terem uma conversa com os dois recém-casados, pois já estava pegando muito mal eles não saírem do quarto do hotel nem para comerem...

            Hoje ainda estão juntos, vivos, e são ativos trabalhadores da igreja, para o sossego do Monsenhor. Amém.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ESTADO SUBLIME

                O vento forte lhe soprava os cabelos violentamente para trás. Ela olhava o horizonte, o mar a sua frente. Sentia o peito aberto, como ferida doída. Mas era dor boa, dor de poder ser quem ela era, dor de poder sentir sem travas. Sua velha túnica branca voava, e ela se abraçou, como que para perdurar aquela sensação.

                Inteira, completa, assim ela estava. Sorria para si própria, enquanto recordava-se de passagens boas. Do respeito acima de qualquer desejo, do desejo acima de qualquer suspeita, do amor em gotas, em mãos enlaçadas, olhares trocados, o calor invadindo seu corpo, mesmo sem que quisesse.

                Eram amigos de férias. Ela ainda em meio a sua adolescência tardia, ele com sua sedução de homem recém feito, aliada a uma inteligência que transparecia em cada atitude. Ela o cativara com sua inocência, que contrastava em muito com seu corpo de mulher. Ele a cativara com seu respeito por ela e por suas escolhas.

                Conversavam muito durante aquele verão. Enganavam o desejo que sentiam com horas agradáveis, falando sobre música, filosofias de vida, e besteiras, muitas bobagens, como só os jovens conseguem fazê-lo, sem dor na consciência. Pena que se cresce, pensou ela.

                Houve então o passeio na praia. Um dia como este, com vento. Ele a chamara para caminhar. Vestiam ambos bermuda e camiseta, com agasalhos por cima, para conter o vento. O resto dos amigos não quisera ir. Eles caminhavam pela areia,  olhavam o mar encapelado, e sem nenhum aviso, ele lhe pegou a mão ao caminhar. Ela aceitou o gesto, como se o esperasse. Por dentro, havia um tambor em seu peito, a emoção que aflorava e corria solta por suas veias. Ele a  olhava, a apreciava na sua total inabilidade em ser mulher.

                Sentaram-se na areia, perto do paredão de pedras que os protegia do vento. Ela perdia-se na sua falta de desenvoltura, e ele, rindo dela, puxou-a para si, num “vem cá” que não lhe deixava escolha. Ele a olhou e ela desviou o olhar, sem o costume de encará-lo assim, com todos os sentimentos as claras. Ele lhe perguntou se sabia como ela era bonita. Ela não sabia responder, apesar da resposta óbvia ser não.

                Ele lhe deu um beijo de borboleta, segundo ele, encostando seu nariz no dela. Ela sorriu, cabeça meio baixa, sem olhá-lo. Ele levantou-lhe o rosto, e lhe deu um beijo de leve nos lábios. Haviam redemoinhos em seu estômago e no peito, como se a emoção fosse lhe tragar. Ela o abraçou e encostou sua cabeça no peito dele. Ele afagava seus cabelos, percebendo-a tal qual menina, em sua insegurança.  Ele deixou-a ficar deitada em seu peito, por muito tempo.

                Mas ela se recordava das palavras dele para ela. Ele contivera sua natureza de homem para tornar-se um gentil homem para ela. Disse-lhe que gostaria de ser o homem da vida dela, mas tinha consciência que não seria, e que ela mereceria alguém especial. Disse-lhe que no dia que o ato de amor se concretizasse, que seria muito lindo, pois ela sentiria tudo vibrar dentro de si mesma, como se a felicidade pudesse partí-la em dois. Não foi acintoso, não foi obsceno, foi somente seu professor de amor, sem desnudá-la nem quebrar sua confiança.

                Repetia, como num mantra, que ela era linda, linda, que jamais se esquecesse disto, e que era muito especial, avis rara, ele disse, sorrindo. Ele deitou-se em seu colo, e ela acarinhou seus cabelos, beijando-lhe a testa, os olhos, a boca, quase como numa benção. Seu coração agradecia o momento especial, o presente que a vida lhe dava. Eles sabiam que não ficariam juntos, mas aquele momento era só deles.

                Viram o céu escurecer, a lua e as estrelas aparecerem, e então se deram conta da passagem das horas. Ele levantou-se, espanou a areia as roupas, puxou-a novamente para si, e cantando, dançou com ela, sob a grande lua, afundando os pés na areia. Ela entregou-se a dança, como uma despedida.

                Ficaram ali, se embalando, até que ele lhe beijou a testa e a puxou pela mão em direção a entrada da praia. Seguiram abraçados, calados, sem poder expressar em palavras tudo o que haviam sentido. No dia seguinte, ela partiria para sua cidade, ele também.

                Ele foi vê-la logo cedo pela manhã, para se despedirem. Nas férias seguintes, ele não mais aparecera, pois já se engajara no trabalho. Os anos passaram, e ela recordava-se, as vezes, daquele dia especial. Soubera, por amigos, que ele se casara. Ela também o fizera. E quando a felicidade lhe partira em dois, ela recordara da pequena profecia que ouvira da boca de seu amigo de férias.

                E ali, parada a beira do mar, voltava a escutar sua voz dizendo: você é linda, linda...e nem os cabelos arriscando a grisalhos,  nem seu corpo já na meia idade, tampouco suas rugas, traiam a beleza que ele anunciara um dia.

               

domingo, 12 de fevereiro de 2012

CABOCLO

            Sentia falta de pequenos detalhes. Não era de buquê de flores, mas de palavras. Não era de beijos, mas de breves afagos. Não era de lascívia, mas de cumplicidade. Sentia como se um pedaço seu estivesse faltante, um buraco no meio do peito.

            Motivo não tinha. Ele nunca dera nenhuma esperança, ah, não! Mas o que podia fazer, se em coração próprio ninguém mandava? Escutava uma música, pura melodia, vozes entrelaçadas, e seu coração compassava, descompassava, um vórtice quente se abria em seu peito, o mundo que conhecia sumia, havia só a emoção.

            Seus olhos fechavam sem querer, e o semblante moreno lhe aparecia. Ô caboclo, como podes tu me deixar assim, desacorçoada? Ô caboclo, como tua fala macia me chama, sem me chamar? Sentimento louco, desatino de querer! Ela abria a janela da casa e olhava a rua de paralelepípedos, a ladeira suave de antigas casas de um colorido desbotado.

            Silente, fica a morena encostada, quieta, a janela. Tenta sentir-se inteira, guardar a sensação que lhe envolve o corpo. A lassidão quente, que lhe envolve os braços, as pernas, o ventre, a moleza de um entregar-se o coração sem o dono receber...

            Caboclo belo, já de muito viver, muitos sofrimentos, tocava as modas na viola como se a voz lhe saísse do coração, não da boca. E olhava para ela, ela via que olhava, de comprido, depois baixava as pestanas, num não sei de nada.

            Às  vezes lhe dava dois dedos de prosa, com aquele sorriso largo só para ela, e quando ninguém percebia, lhe pegava uma mecha do cabelo índio, e lhe fazia um elogio, só para vê-la vexada, corando, sorrindo sem saber o que dizer.

            E então sumia. Dias e dias, sem vê-lo. O amor deles era ainda uma promessa, mas ela sentia como uma sina já marcada, mas sem modos de ser cumprida. Quando já começava a desesperar, ele passava pela rua antiga, e a procurava com os olhos, de soslaio. Ela o via por detrás da cortina simples, os olhares se cruzavam, um pequeno aceno, e o sol já brilhava mais.

            E o resto? O resto era sonho, era interjeição. O resto era aquela sensação de vir a ser que o amor tem, quando o olhar, o falar e o tocar pedem mais que o já havido, mas não há ação que acompanhe o sentimento.

            Ela olha de novo pela janela. Ajeita o cabelo de um lado só do pescoço, limpa um cisco que não tem no olho, e suspira. A vida, caboclo, a vida não espera. Quando você vai chegar? Se tu me chamasses, eu iria contigo!

            Uma voz lhe chama de dentro da casa: “nega, cadê minha camisa passada?” – e a cabocla acorda, a vida não espera, marido também não.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

SOLILÓQUIO

            Queria escrever uma carta para ela. Podia escrever uma, não podia? Passa a mão nos cabelos, as volta para o bolso, e anda pela sala do minúsculo apartamento. Sozinho, indeciso, ficando velho.

            Vai até a velha mesa, cheia de livros e papéis espalhados, anotações, contas pagas. Tira o gato velho de cima da mesa, abre seu laptop e começa a escrever: “cara Ludmila,” e risca. Cara, não, é muito formal. “Querida Ludmila”. Não querida não pode, vai se denunciar. “Olá, Ludmila!” Perfeito, informal, amigo.

            E aí estaca novamente. O que vai escrever para ela? Sobre a chuva que caiu na semana? Ou sobre sua rotina de solteirice mofada? Qual será a desculpa desta vez? Já escaneou as fotos de colégio e lhe mandou os arquivos, lhe mandou mensagens edificantes e textos sobre os mais diversos assuntos. Mas nunca mais do que duas linhas, comentando sobre o assunto. Nada sobre o que sentia, sobre o que queria realmente falar.

            Sempre pisando em ovos, sempre muito polido, como mandava a etiqueta e a educação. Imagine se ela pensasse que ele a estava flertando via correio eletrônico?

            Levanta-se novamente, inquieto. O gato lhe segue. A cabeça cheia de idéias, o espírito cheio de vontades, mas não consegue escrever nada. Vai preparar um café, um expresso, na nova cafeteira. Depois que ela comentara que o melhor café era o expresso, comprara num impulso uma pequena cafeteira para seu apartamento. Guardou no armário a antiga, e a cada expresso apreciado, lembrava-se de Ludmila.

            Quando ele a vira, no encontro de ex-alunos do colégio, já três décadas haviam se passado. Os cabelos, antes de um castanho claro, agora estavam com alguns raios de branco. O corpo transformara-se no de uma mulher, ainda bem torneado, mas com mais carnes. Quando ela o abraçara, realmente feliz por vê-lo, o ar lhe faltou. Sentia-se novamente como aquele rapazote que um dia fora, magrelo, alto como um varapau, meio encolhido, tentando não aparecer tanto. Sorrira, e por um instante sentira que até seus cabelos tinham voltado a cabeça... ela continuava com o mesmo espírito alegre, não parava de falar, contar da vida, dos filhos já crescidos...

            Ele a observava, e não percebeu quando ela lhe perguntara dele, o que tinha sido dele? Ele então contara que não casara, que acabara vivendo para o trabalho, vivendo em várias cidades, aonde o emprego exigia. Ela lhe perguntou por que, se ele era tão popular no colégio, não fazia sentido. Ele respondeu que talvez não tivesse achado a pessoa certa.

            O encontro foi um sucesso. Endereços eletrônicos trocados, falsas declarações de eterna amizade, que os contatos seriam mais frequentes, piadas sem graça, lembranças da juventude. Na despedida, Ludmila lhe pediu que escrevesse mesmo. Eram tão amigos, não eram? Porque não voltarem a se comunicar?

            E então o recomeço da comunicação. Cada vez que ele ia lhe escrever um e-mail, rodava pela a pequena sala, suava, falava sozinho. Escrevia e apagava frases que lhe soavam pessoais demais. Afinal, o que ela poderia querer com ele? Mas a ele bastava falar com ela.

            Deu de sonhar com Ludmila. Ela se insinuava para ele nos sonhos. Seu corpo de mulher o chamava, um sorriso jovem, contrastando com as coxas de mulher já feita, os seios fartos de quem já fora mãe. Ele acordava suado, transtornado. Tentou sair com alguém, ler livros, ir viajar, mas ela se tornara uma obsessão.

            Tudo o que ela lhe enviava era uma mensagem criptografada, só para ele. Ah, ela também devia estar como ele. Mas e se não estivesse? Deu de esquecer a hora de comer. E de aumentar a ingestão de café, só para se sentir mais perto dela, quando tomava o expresso.

            E hoje, tinha que escrever a carta para ela. Cansou de rodeios consigo mesmo. E como que em um transe benfazejo, despejou:

“Cara Ludmila.

 Cara, não, caríssima. Como está você? Antes, quero lhe dizer como estou. Tenho pensado muito em você ultimamente, aliás diariamente. Sonho com você, e para ser mais exato, em trajes menores. Estou ficando louco, não sei o que me deu, mas preciso te escrever sobre esta minha obsessão por você.

Já que me perguntou porque eu não me casei, lhe confesso: porque você já ia se casar com outro, e eu era muito covarde na época para poder me declarar. Pensei que encontraria outra, mas não encontrei. Agora, o que eu tenho para perder? Os anos se passaram, meus cabelos caíram, e, como diria o poeta, minha companheira fiel é a solidão.

Sei que você tem sua família, sua vida, e não espero que mude nada por minha causa. Só preciso que você saiba como foi e é especial para mim, desde nossa mocidade. Confesso, também, que se você quiser mudar, de preferência para minha casa, eu aceito de bom grado. Não sou orgulhoso.

Também sei cozinhar, e ainda que tenha vivido só, sei ser um bom amante, ainda mais se você for o meu par na contradança. Te quero demais e preciso te dizer isto, mesmo que você nunca mais queira falar comigo.”

            Acabou de escrever, colocou seu nome, e leu de novo. Caiu em si. Como iria enviar uma carta daquelas? Levantou-se e foi fazer outro café. Foi para a cozinha meneando a cabeça, se chamando de mentecapto, e dando risada de sua própria tolice.

            Voltou para a sala, café na mão,  e estacou, lívido. Seu gato acabava de sair de cima de seu laptop, e ele viu, rapidamente a tela da mensagem desaparecer. Correu para a mesa, mas não chegou a tempo. A mensagem fora enviada!

            Começou a passar mal. Se sentou no sofá, uma dor aguda no peito. O gato desgraçado subiu em seu colo, e ele não conseguia se mexer de dor. Ao fundo, o telefone começou a tocar. Ele ainda conseguiu pegar o aparelho, a tempo de escutar a voz de Ludmila do outro lado da linha. Não aguentou: morreu.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DE UM MORTO

                Carmé contava agora uma de suas histórias aos médiuns novos,  sobre as sessões espíritas que ocorriam em sua casa, havia décadas. Todos bebericavam seu café e pegavam seus lanches, enquanto escutavam a divertida mestra. Ela começou então a contar:

“- gente, de todos os espíritos que acabavam de desencarnar que me apareceram aqui, este foi o melhor. Lá pelas tantas da sessão, em meio as rezas, sentimos a presença de um irmão desencarnado, e ele incorporou num dos médiuns. Logo eu vi que ele havia acabado de desencarnar, poderia estar desorientado, desesperado.

            E o espírito logo falou através do médium:

- onde eu estou? Quem são vocês?

-irmão, você está numa sessão espírita...

-eu, numa sessão espírita? O que eu estou fazendo aqui?

-irmão, acalme-se. Você agora está desencarnado, acabou de morrer. Está usando o corpo de um médium para se comunicar e...

            Então o espírito interrompeu  a frase e disse:

-opa, então quer dizer que eu morri?

-sim,- eu respondi, já começando a me preparar para o desespero do espírito, para a orientação, quando ele disse:

-Graças a Deus! Então quer dizer que eu estou livre daquela família?

            E eu, espantada com a reação do espírito:

-sim, senhor!

-Graças a Deus! –e perguntou, desconfiado: -eu não preciso voltar lá para me despedir, não é?

-não senhor...

-então está ótimo! Com quem é que eu vou embora???

-com o grupo de socorristas que estão com o senhor, pois não? –respondi  sem entender nada.

-ah, sim! Muito obrigado!

            Em seguida, o médium voltou a si, e a mesa toda caiu na gargalhada. É, gente, já vi de tudo nesta vida... Agora, como este espírito, com pressa de ir embora, nunca mais!”

            E os ouvintes riram com a história, as gargalhadas ecoando pela cozinha aconchegante, enquanto trocavam idéias, após aquela sessão de sexta feira.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

QUERIAM QUE TÚ FOSSES....

Queriam que fosses advogado,

Queriam que fosses engenheiro,

Ou matemático ou enfermeiro,

Poderias ser terapeuta, psicólogo,

Ou arquiteto, ou fonoaudiólogo,

Mas a tudo contestaste;

Querias escrever,

Querias a arte.

Ainda tentaste, é bem sabido,

Agradar a todos, pais e amigos,

Mas então tu sufocastes até a dor.

Confessas-te para ti mesmo:

O que eu quero, mas quero mesmo?

É  ser escritor!

E descobriste então

Que não necessitavas querer

Algo que já tinhas por direito,

Que viera de seu nascimento.

Pois aprender a escrever,

Assim, por obrigação,

Qualquer um aprende.

Mas a sensibilidade

Para juntar palavras em frases,

Frases em idéias,

E adorná-las de nervos

Que transmitam aos que as lêem

O que sentiste,

Isto é um dom.

E sabes hoje

Que podes sobreviver como

Advogado, terapeuta, engenheiro,

Mas viver, vera, veramente...

Como escritor, somente.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...