sexta-feira, 6 de abril de 2012

QUARTO, CASACO E CECÍLIA


                Hoje me deu saudades dos meus tempos de adolescente. Eu dividia o quarto com minha irmã mais nova, e era quase um milagre que coubéssemos nós duas ali. Quando a cama box dela era puxada, para dormir, não punhamos mais os pés no chão; só dava para passar por cima das camas...

            Tínhamos uma estante que tornava-se escrivaninha, e era ali que estudávamos. Era ali, também, que eu escrevia, muitas vezes. A minha janela, de venezianas brancas, dava para uma pequena vila, atrás de nosso sobrado, e para um pé de ipê amarelo que transformava o meu mundo cada vez que floria. Podia ficar horas ali, olhando pela janela, sentada na minha cadeira branquinha, vendo o céu recortado pelos galhos do ipê.

            Quando o outono chegava, vinha com ele uma sensação indescritível, de borboletas no estômago, que ia preenchendo tudo, até chegar ao peito, como se eu fosse flutuar. Via as folhas das árvores caindo, e tudo parecia irreal. Ainda consigo sentir o mesmo, quando recordo daquele quarto.

            Tinha um casaquinho azul, que ficava melhor no espaldar da cadeira do que em mim; o desenhei várias vezes, achava que a cadeira ficava muito elegante. Diferentemente de mim, que me achava desajeitada, naquele crescer todo, cheia de pernas e mãos estabanadas, a voz sempre muito alta, uma timidez de doer os ossos. Eu era sem ainda ser; a consciência de mim apenas brotara, sem grandes pretensões, através de poemas e diários (diariamente visitados por minha irmã, para minha agonia!).

            E então veio o natal de 84. Pedi livros, e entre eles, Flor de Poemas, de Cecília Meireles. Daí por diante, quantas vezes me peguei a ler aquele livro, e viajar em seus poemas, me identificar com ela. Sentir-me, tão adolescente, com fases, como a lua, em seu poema Lua Adversa; ou descobrir-me, quando lia

“Eu canto porque o instante existe

E minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.”

            Meu coração adolescente já pulsava, reconhecendo a verdadeira natureza. Eu demorei a entender que a palavra não era coadjuvante em minha vida, mas a atriz principal. Mas me danava a escrever, me identificando com a poetisa; “não sei se sou eu, não sei se sou ela...”. 

            Quando todos dormiam na casa, eu levantava da cama, e ia sentar dentro do banheiro da suíte, com meu casaquinho azul, para não esfriar as costas nos azulejos da parede. Eu sentava no tapete do banheiro, e escrevia poemas e mais poemas. Depois, relia os antigos, para tomar consciência de quem eu estava me tornando.

            E lia meus poemas como se fossem histórias de outro mundo, que estivessem me visitando. Depois ia dormir, feliz, com versos na cabeça. Na manhã seguinte, acordava em meu pequeno quarto, afogada em sonhos que se transformariam em novos poemas. Mas só mais tarde, na volta da escola, quando me sentava novamente na escrivaninha ao lado da branca janela, e me perdia nos galhos do ipê...

            O quarto ainda existe, mas as meninas que lá dormiam já se mudaram há muito. A minha garota, porém, algumas noites espera que todos durmam, e volta, sorrateira, para seu antigo quarto. Ela acende o pequeno abajur, entra debaixo das cobertas, e fica apreciando o casaquinho azul, deixando a branca cadeira toda elegante, e com um sorriso no rosto, adormece.

domingo, 1 de abril de 2012

EU SOU

                Sentada em minha escrivaninha, com meu passarinho ao ombro, faço o trabalho de pensar. Sim, penso, de forma com que eu exista. Eu insisto em existir fora do lugar comum, em existir além da linha de tempo e espaço, fora das idéias pré-concebidas.

                Eu insisto em ser uma sonhadora, que para subverter a ordem, deixa de sonhar e põe as mãos na massa, arregaça as mangas, para que seu sonho se concretize. A antítese do sonho, transformando-o em pura realidade.

                Sonhador que só sonha continua na mediocridade do sujeito vexado por existir, vexado por ter sido notado, por querer sumir. Eu aprendi a não ser mais assim. Quero, para mim, a clareza de duas luas cheias. Que me iluminem toda,  fui feita para brilhar! Mas o que será isto,  pensarão aqueles acostumados a penumbra agradável do lugar comum? Como ousa esta sair de seus papéis ancestralmente definidos, de mulher, mãe, filha, e querer ser ela mesma? Absurdo!

                Não, não é absurdo. Hoje eu sou aquela que sempre fui, mas sem as vestes que me cobriam, destoando com meus contornos. Hoje eu sei quem sou, desde tempos imemoriais, mesmo antes do meu nascimento, antes de minhas mil mortes. Fui cortesã, fui abadessa, fui pobre, fui condessa, fui amada e fui amante, idosa e infante, macho e fêmea, pó e pedra, mar e rio. Eu fui e sou, inteira, esta grandeza que se define como Alma, com tantas primaveras e outonos que já nem sei.

                O pássaro se agita em seu sono. Ele percebe todos os meus personagens desfilarem pela sala, lentamente, se assusta, e voa para a segurança da gaiola, aonde há sua água, seu alimento e sua fêmea e filhotes a espera. Um lar. Eu o admiro. Me sinto um São Francisco, abençoada com este pequeno animal em meu ombro. Me traz sempre a lembrança de que sou muito amada.

                Escrevo isto, me corrigindo já. Me amo antes que qualquer um tenha me amado. Sou íntima de mim mesma antes que qualquer um tenha me tocado. Sou íntegra desde que me dei conta da simplicidade da vida, quando não queremos complicá-la. A vida é boa de ser vivida, se soubermos dar-lhe pouca importância. Caso contrário, ela começa a aparecer mais do que o dono da vida, e o domina completamente. Ilusões, maya. Buscar fora o que sempre esteve dentro, te esperando.  Encantar-se com o altar interno, de rara beleza, delicados detalhes, e um espelho mostrando aquilo que estavas procurando, há tanto tempo.

                A paixão? É transitória, passa, e ainda que não passe, não deve ser o foco. Se não nutrir a paixão por mim mesma, a qualquer desencontro estarei derrubada, acabada, apartada de um meu pedaço, que deixarei na mão de um estranho. Mas se nutrir a paixão por mim mesma, por minhas graças, habilidades, qualidades, de mim não me apartarei jamais. E ainda que as paixões acabem, mudem ou permaneçam, fiéis, eu estarei completa em mim mesma, mas desfrutando de bons momentos compartilhados com quem me ame e respeite. Mesmo que seja meu pássaro.

                Sou agora um pedaço do Nada, Caos primordial, me importando somente em sentir e transmitir o que sinto, me fazendo entender. Sou uma e sou muitas. Sou tudo e sou nada, o pó e a pedra, a erva daninha e a arvore benfazeja, de bons frutos e sombras. Eu sou. Sou a potência infinita de criação, querendo abraçar o mundo, querendo me dar em pedaços.

                Penso, logo, existo? Ou insisto em existir, assim, trêmula de emoção  ou impávida ante a vida e a morte? Volto a minha escrivaninha. A areia do sono me cerra os olhos, meus pensamentos voluteiam como que bailando, e só tenho uma certeza hoje: eu sou.

quarta-feira, 28 de março de 2012

SUBVERSÃO

De todo o possível

O impossível se fez;

Subverter a ordem,

Mas um de cada vez.

Sumir com a vergonha,

Descobrir timidez,

Coração giramundo

Simulada altivez.

Artesã de palavras,

Sem palavras para o amor;

Reinventar a vida,

Esquecer a dor.

Diurna clausura,

Alma quieta, há censura.

A noite, voa em sonho,

Busca colo antigo e seu dono.

Serena, faz a guerra,

Se berra, não é nada;

Se fala, superfície,

Àgua  profunda se calada.

De sua boca dói palavra

Que amor confesse;

Medo.

Nos seus olhos

Tão verdades

A saudade

O segredo.

Sua alma:

Passarinho,

Frágil e mágica,

Forte e trágica.

Subverter a ordem

Fazer a sua vez

Rasgar a máscara

Sagrada nudez.

domingo, 25 de março de 2012

MÚSICA PARA A ALMA

                Escuto o piano. Suave, entra em minha alma, que anda precisando de alento. A música preenche estes espaços, clareia os caminhos, apascenta meu coração. Transporta-me   para outros lugares, aonde eu posso ser livre.

                E o que é liberdade? Quando não estamos presos aos outros, ou quando não estamos presos a nós mesmos? Quando seguimos por nossos caminhos, ainda que tortos, ainda que enganados, somos livres? Ou só somos livres quando totalmente cônscios de nossas escolhas?

                Neste momento em que abstraio minha realidade através do som suave e devastador de um piano que toca, tenho vontade de chorar. Podem ser os hormônios, sim. Mulheres são animais regidos por hormônios. Mas além dos hormônios, há a vontade de voar mais alto, há a espera pelo não sei  o que, que ocorrerá não sei quando, que faz aquela enorme diferença.

                Sinto os acordes penetrando em meus músculos, me massageando por dentro. Estão em tom maior, mas me falam de tristeza, em escalas descendentes e incompletas. Quando você pensa que a música vai se completar, volta para o mesmo ponto, como se o autor estivesse perdido num labirinto. Parece comigo, parece comigo... e lágrimas descem, sem estardalhaço.

                Sou dramática, me dizem sempre. Sou um clown, penso eu. Rio para esconder minha verdadeira natureza, totalmente sem proteção. Sinto tudo superlativamente, juntando a realidade ao sonho, o que me faz dramatizar tudo. Falo muito e sobre tudo. Porém ,  se precisar falar do que me é caro, me calo.

                Escutem o piano agora! Há um casal bailando, você pode ver? O homem conduz a bela lhe segurando a cintura por trás, uma das mãos segurando as mãos dela no alto. Ela está se inclinando para trás, repousa as madeixas no ombro dele, e ele a enlaça mais forte, e rodopiam, suavemente, suavemente... ele a vira para frente, e dançam, passos sincronizados, como se só fizessem isto por toda vida...  a música finda, a imagem some.

                Estou só, novamente. Ao meu redor, o mundo continua igual. Uns assistem o noticiário, outros estudam, a criança brinca, os animais comem e dormem. Uns nascem, outros morrem, e eu continuo aqui, estanque, ou em estado de suspensão.

                Faço novos caminhos como se fossem de nuvens de algodão. Não são estradas de terra, não são pontes de madeira ou de aço; são etéreos, às vezes parecem frágeis,  e tenho receio de entrar por eles. Busco minha certeza mais escondida, meu segredo mais bem guardado,  fecho os olhos e sigo o novo caminho. Uso do recurso da loucura para poder sentir um chão debaixo dos pés, e consigo.

                Agora o piano me conta uma história de princesa, presa numa torre,  olhando seu amor lá embaixo, inalcançável, sem perceber que há uma escada, logo atrás da porta destrancada. É preciso que um pássaro entre pela janela e fale com ela, lhe mostre a porta, lhe guie pela escada. O grande torreão está na penumbra, mas ela segue o pássaro, sem titubear. E alcança a saída da torre, correndo para fora. Seu amor, não a vendo de longe, na janela, pensa que ela se cansou de olhá-lo, e vai embora.  E agora, para onde irá a moça? Voltará para a torre, ou irá atrás do amado? A música para, e fico sem saber o final.

                Mas inicia-se uma nova música, acordes belamente encadeados, subindo, confiantes, me contando que não há um dia igual ao outro. E me conta, sim, eu escuto! Que sou capaz de fazer tudo o que quero,  que não preciso ficar neste estado ensimesmado.

                E sinto, vindo de não sei onde, um abraço que me toma todo o corpo, me aquece. Sinto que estou sendo tomada nos braços,  ganho colo, e nos cabelos, afagos. Deixo-me  ficar nesta sensação doce, acolhida, amada, enquanto o piano continua tocando, dentro de minha alma.

quarta-feira, 21 de março de 2012

ENCONTROS



         Eram dois “naive”. Viviam em vários mundos ao mesmo tempo. Trabalhavam, mas também sonhavam, e compartilhavam sonhos. Amigos de longa data, apreciavam a companhia um do outro, mas não confessavam nem a si próprios.

         Na mocidade, passavam horas no barzinho da esquina, tomando um pingado que nunca acabava, contando mútuos sonhos, falando da vida. Os anos passaram, mudaram de cidade, e trocavam cartas. Correspondências cheias de histórias e subterfúgios, para terem um ao outro através das palavras.

         E havia os encontros, há cada tanto, aonde a afinidade lhes trazia de volta o brilho nos olhos, o riso sem moderação, como na juventude.

         Na era digital, aprenderam a trocar mensagens eletrônicas, fotos, mensagens. A distância era maior, mas o contato era mais rápido. E a necessidade de se falarem era mais constante.

         Finalmente, já mais velhos,  um teve a coragem de perguntar ao outro se aquele o amava. E este, sem raciocinar, falando o que nunca tinha sequer percebido, confirmou: sim. Ficaram um diante do outro, como se redescobrissem mutuamente suas essências, e também a teia de subterfúgios que haviam tecido somente para estarem juntos.

         Não se abraçaram, não se beijaram, somente  se tocaram levemente, com tocante pena de si mesmos, pela perda de suas vidas. O que perguntara não esperava ouvir a resposta; o que respondera não esperava ouvir a pergunta, e assim ,num  não sei como, se entregara.

         Cada um retornou para sua casa. Aquele que perguntara não conseguia se recompor de tamanha verdade, omitida por tanto tempo.  O que respondera esperava ansioso o próximo contato.

         Secaram os dois: um de espanto, e o outro, de espera...

ODE A LOTTE

Há leituras e leituras. As vezes leio com olhos que não são somente meus. Assim aconteceu com o livro Lotte &Zweig, de Deonísio da Silva. A leitura virou poesia.


Afogada estava, em vida.

O ar, que sôfrega puxava,

Não o queria.

Não lhe pertencia.

Andou na sombra,

Achando que a ela se rendia.

Nela não havia grito:

Ela não tinha norte.

Seu amante, seu braço forte,

Não lhe era real suporte.

Antes era bandido

A lhe ditar a sorte.

Também pássaro ferido,

Preferiu a morte.

Se a vida lhe foi tirada

Ou se ele mesmo o fez

Já  não importa:

Não ouviu os sinais

Que lhe chegavam a porta.

Lotte sentia e pré-sentia

E por isso já não vivia.

No desfecho de sua história, porém,

Lotte sofreu

Ao ver seu homem morto, ao lado,

E abraçada ao medo,

Angústia lhe fechando o peito,

Deixou-se ir, sem mais lutar,

Recusando o ar

Unindo-se ao funéreo leito.

Ficou vagando,

Espírito inquieto,

Pois negavam-lhe a voz.

Até que um escritor atento

Ouviu-lhe os gritos de socorro.

Ele a resgatou,

Pois tinha olhos para ver

E ouvidos para ouvir.

Da alma feminina

Um perscrutador,

Soube pegá-la no colo,

Niná-la e fortalecê-la,

Dando-lhe carne e ossos,

Brilho e voz.

Resgatada e reparida

Conseguiu na morte

O que não o fez na vida:

Ser por todos conhecida.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SONHOS REAIS

                Sonhos reais, sonhos que nos fazem acordar no meio da madrugada, coração aos saltos. As cenas nos remetem aos mais profundos anseios, e nos sentimos traídos por nós mesmos, porque não havíamos contado aqueles segredos a ninguém...

                Mas sonhos reais são como viagens da alma. Tem cor, tem cheiro, tem sensações de tato, de olfato. Sonhos reais trazem as emoções à flor da pele, do choro ao riso, da saudade a realização.

                Sonhos reais nos fazem questionar onde está a verdadeira realidade. Nos fazem questionar o que fizemos conosco, em que ruela nos perdemos, aonde estão os farelos de pão que jogamos para voltarmos a nós mesmos.

                Quando acordamos destes sonhos, temos a nítida sensação que tudo se alterou, o mundo não é mais o mesmo do dia anterior, e nem você mesmo. Há um frio na barriga de medo do desconhecido, a um rodamoinho no coração por saber-se vivo.

                E há a saudade de um tempo que não existiu, da conversa que não aconteceu realmente, do abraço que marcou sua alma mas não suas vestes, do aconchego que lhe completou a alma, mas não lhe tocou o corpo. O sonho nos conforta, pois temos uma realidade menos morta, como disse um poeta.

                Quem bebe desta fonte uma vez, quer sempre voltar a ela. A água é doce, ela refrigera, alimenta. Fonte do sonho é nossa alma, inquieta, perseverante em seu eterno buscar.

BORBOLETAS

Em meu peito dançam borboletas.

Borboletas de papel.

Papel de arroz, diáfanas.

Por elas passa a luz;

Em suas asas, levam memórias

Indeléveis, atemporais,

Súplicas de amor,

Efêmeras imagens.

São miragens,

Frutos de minha imaginação

Fértil,

E de minha coragem

Pouca.

Rosa louca,

Girando sem parar

E explodindo

Meu peito.

Permaneço silente

Mas de minhas mãos

Jorram torrentes

De palavras

Com pena e papel e tinta.

Papel de arroz

Com nanquim

Desenhando

Um pedaço de mim...

quinta-feira, 8 de março de 2012

QUE DIA, O DA MULHER!

                Muitas vezes queremos escrever histórias para sonhar, mas o mundo não deixa. Hoje, em pleno Dia Internacional da Mulher, provei a mim mesma que mereço um dia só meu. Comecei como mãetorista; depois, fui office wife, ou office mother, dependendo do serviço do alheio que haviam me incumbido; depois, fui personal conselheira, quando uma amiga me ligou; e houve também a hora da choradeira, quando eu estava morrendo de cansada, com as pernas doendo e a barriga com uma moleza e cansaço, sem vontade nem para comer...

                Começou ontem,quando fui tentar renovar minha carteira de habilitação, processo, dizem rápido no “toma-tempo” (ai, desculpe, poupa-tempo), e a ação foi ineficaz. Cheguei britanicamente na hora agendada, não xinguei nenhum funcionário público ou terceirizado, levei um livro para ler e não perder a paciência; até barrinha de cereal tinha na bolsa.

                Estava tudo indo bem, quando deu pane no sistema, e, juntamente com mais uns dez cidadãos, fui premiada com o Limbo DETRAN 2012. Não consegui fazer  o exame médico porque o sistema não identificava a coleta de minhas digitais. Também era de se irritar (apesar de milagrosamente, eu não chegar ao ponto de) que os que chegaram depois de nós conseguissem fazer o procedimento completo, enquanto nós éramos mandados para casa, sem solução. Gasto de tempo, perda de clientes, dinheiro para o estacionamento...

                Voltei, fiz almoço em trinta minutos, fui buscar meu filho (olha a mãetorista aí, gente), voltei, dei almoço, consegui fazer xixi, lavei as louças, coloquei roupa para lavar, e logo chegou uma cliente. Uma hora e meia depois, ela se foi, dei um lanche para meus filhos (e para mim), e, mesmo exausta, fui acompanhar a lição de casa do menor. Depois da janta, fiquei um pouco no computador, para relaxar; ganhei praticamente um torcicolo, dormi mal.

                Acordei na manhã seguinte com meu esposo brigando com minha filha as cinco e cinquenta da manhã.  Amei tudo isso, como diz o jargão de uma lanchonete conhecida de todo mundo que já enfiou o pé na jaca, e não consegui dormir mais. Os dois foram embora para serviço e escola, e eu fui arrumar a lancheira do menor.

                Ás dez para as seis, acordei o pequeno, que sonolento se vestiu e esqueceu de pentear o cabelo, parecendo que tomara um susto. Dei o café, troquei a comida dos pássaros, e consegui tomar um café também, em vinte e cinco minutos, cronometrados. E mãetorista até a escola. De lá, fui entregar o material de desenho de minha filha, que ela esquecera, há vinte minutos dali. Voltei, fui para a igreja (pois é, as sete e meia da manhã, para rezar pelo meu dia), e após a missa, atendi o padre com acupuntura para sua artrose, e este ainda me chamou a atenção por eu estar com um vestido (até os pés) de alças. Quase virei as costas e fui embora, mas pensei que ele era de outra geração, e continuei atendendo. Acabei ouvindo as confissões do padre (que eu não conto aqui), e após o atendimento, fui ao banco (office wife).

                Dia da mulher: consegui pegar meu filho pontualmente ao meio dia na escola, correr para dar almoço, falar com minha amiga ao telefone, tomar um banho de sal grosso antes de ir atender (porque já no meio do dia eu estava com vontade de chorar de cansada, não sei por que...), e as duas horas estava sorridente e cheirosa na clínica, para atender minhas clientes. Só saí de lá as cinco, agradecendo que minha filha mais velha estava em casa com o mais novo, e o pai dera uma passada lá na minha ausência.

                Cheguei em casa e vi que ainda deveria ter tirado xerox de documentos e pego folhas de cheque para meu marido (office wife 2). Deixei novamente meus filhos em casa, e seis  e meia estava eu no shopping próximo a minha casa, com xerox na mão, correndo para tirar as folhas de cheque, e a seguir comprando papel higiênico para a casa, porque tudo o que entra sai, não é mesmo?

                Cheguei exausta, quase com cãibra nas pernas, quando escuto minha filha me pedindo para fazer porcarets de janta (leia: nuggets, batatinhas e afins). Dei graças a Deus de não ter que fazer comida normal, e estava indo ao banheiro, quando o menor pediu para fazer a lição com ele. Pedi dois minutos, e fui ao banheiro. Quando lá estava, escuto a porta do apartamento abrindo, e meu marido já brigando com quem estava na frente, me chamando, porque o menino estava fazendo a lição com a televisão ligada????? Eu pedi dois minutos de sossego porque eu estava no banheiro (deveria ser um direito do dia das mulheres), e fui tourear a situação.

                Janta dada, fui tocar piano com osom baixinho, para relaxar. Depois de tocar uma música de Dolores Duran (AH,  a noite escura o vento frio, esta saudade ,este vazio...), encontrei  todos de banho tomado, e indo para a cama. Vim então escrever esta crônica, para que da próxima vez que alguém vir uma mulher e não der os parabéns para ela no seu dia, se sinta muito, mas muito culpado!!

sexta-feira, 2 de março de 2012

QUANDO NASCE UM LIVRO

passei maravilhosos momentos
com pessoas por seu ofício iluminadas,
que tecem venturas de tormentos
e criam o tudo aonde havia o nada.
confraria de seres singulares
que com pena e papel se elaboram,
não se escondem, pois a Alma fala neles,
e os anjos com eles dialogam.
são da terra, no entanto,
e ainda sentem
o prazer, a dor e a alegria,
motivo para celebrarem sempre
novos rebentos
desta bela confraria.

UMA GRANDE CONFRARIA

                Ontem estive no lançamento de um livro de um amigo, Menalton Braff, apresentado há algum tempo atrás por um outro amigo de décadas, Deonísio da Silva. Resolvi ir de metrô, para não chegar irritada com o trânsito de São Paulo. Cheguei até cedo demais, mas inteira, o que considerei  um milagre, frente ao calor que fazia nesta terra.

                Fui uma das primeiras a chegar. Não havia bolso em meu vestido, e não tinha aonde colocar as mãos... tentei  sair para voltar mais tarde, mas o autor me avistou. E lá fui eu, prestigiá-lo, num sem jeito que me fez sentir como uma penetra em festa de casamento. Comprei o livro, logo autografado por ele, e eu fiquei ali, sem palavras, olhando, pouco a pouco, outros escritores chegarem, para prestigiá-lo. Fiquei saboreando satisfação alheia, percebendo o momento, as trocas, a emoção a cada chegada de uma pessoa querida.

                De repente fiquei pensando o que fazia mesmo ali. O local estava repleto de escritores, membros de uniões e academias, e eu, uma simples aspirante, no meio de todos eles. Quando me perguntaram se eu também era escritora, disse que sim, apesar de ainda não publicada. E fui explicando que só publicava em meu blog, como se pedindo o favor de poder participar daquela confraria que se reunia diante de meus olhos.

                Há pessoas que ficam mudas ante um ídolo da música, ou do cinema. Eu fico muda ante a grandeza  de outros escritores. São todos seres de carne e osso, mas com uma capacidade que me fascina. Sei que também escrevo, mas não tenho um livro meu publicado. Não tenho um objeto concreto que mostre que eu sou  escritora.

                A escrita está em mim, o ser escritor está em mim, mas continuo a admirar aqueles que fazem da escrita o seu ofício, com obras para chamarem de suas. Escritores são imortais, pois eles passam , suas obras ficam. Eu me dei conta que quero ser imortal também!

                Voltando a cena, acabei encontrando pessoas que havia conhecido, e fiquei até o evento acabar. Ri, conversei, beberiquei um vinho, e percebi, ao final, que me sentia em casa no meio de todos eles. A paixão em comum pela literatura me fez sentir em casa. E a pergunta inicial, sobre o que eu fazia mesmo ali, foi respondida: fui encontrar amigos de alma. E ponto final.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...