sábado, 8 de outubro de 2011

O QUE É ALEGRIA PARA VOCÊ?

O que é alegria para você? Já parou para se perguntar? Não estou questionando a clássica: para que vim ao mundo? Só quero saber o que te traz alegria. O que te faz sorrir.


Enquanto você pensa, eu vou te contar o que eu acho que é alegria, o que me faz sorrir. Acho que é justo, pois estou te perguntando, e você pode achar isto muito particular...

Bem, para começar, acho que a beleza me faz sorrir. A beleza pode estar em qualquer lugar. Exemplos? Um vaso de flores bem arranjado; um quadro que me convida a entrar nele; um belo poema que faz cócegas em minha alma; uma foto que me faz o coração crescer no peito; um beijo de filme que faz sentir-me beijada; o abraço do meu filho e os bate-papos com minha filha.

Mas há mais coisas que me fazem sorrir: a cumplicidade com meu parceiro de toda vida; uma viela escondida, cheia de flores, casas coloridas e gente sorridente, das cidades do interior. Um final de semana aproveitado do amanhecer ao por do sol, com todas as minhas entranhas, como um momento raro de descanso e união com os meus.

Vou te contar também de uma alegria quase juvenil que experimentei ontem: tomar um café com as amigas. Era um encontro que estava sendo cogitado há algumas semanas; marcamos com uma semana de antecedência, e meus preparativos não foram poucos. Quem iria ficar com o meu pequeno e levar a mais velha no compromisso inadiável que ocorreria na mesma hora do café?

Minha super irmã, também classificada como super tia para a ocasião, aceitou a tarefa de me substituir. Inclusive me mandou ir embora quando eu não sabia como sair de casa, pela total falta de experiência de ter momentos só meus...

Cheguei ao Café no horário, e minhas amigas foram chegando, uma a uma, de vários cantos da cidade, de vários compromissos. Não somos mocinhas, também não somos velhas. Nosso círculo é formado por garotas de 25 a 65 anos, aproximadamente. Temos maleabilidade para aceitarmos pessoas mais jovens ou mais velhas. Só não aceitamos pessoas que não saibam rir da vida ou chorar junto com as outras.

Começamos a conversar enquanto escolhíamos o que iríamos comer: com certeza, nada com menos de 500 calorias para cada uma. Afinal era um momento para ser celebrado, e não posto na balança...e mais um incentivo para recomeçarmos os exercícios na segunda feira.

Estávamos espantadas com a amabilidade dos atendentes, sempre cercando nossa mesa, quando descobrimos que eu pressionava um botão com meu punho cada vez que pegava a chícara de café... gargalhada geral, avacalhação geral. Pedi desculpas sem conseguir parar de rir, e prometi dar tchauzinho, quando errasse novamente...

Falamos sobre tudo: filhos, netos, viagens inadiáveis, rezas certeiras, a melhor pinga, como ajudar amigas das amigas, nossas angústias e nossas conquistas... nos emocionamos, rimos e choramos. Tiramos fotos para registrar o momento, pois este era um momento único.

Voltei para casa com o coração leve, cantando uma música de coral que falava de arco-íris cor de prata... remocei vinte anos, relembrando a minha juventude. Quando cheguei ao meu apartamento, meu periquito veio me receber, cantando na minha orelha, pedindo beijinhos.

Meus filhos ainda não haviam chegado, e fiquei saboreando as lembranças da tarde. Lembrei-me do rosto de minhas colegas, sorrindo, rindo, e identifiquei beleza. Lembrei-me das rugas de umas, do viço de outras, e continuei vendo beleza. Foi quando me dei conta que a beleza de todas vinha da alegria do momento.

Viver o momento como se fosse único é óbvio; como se fosse o último, não é tão óbvio. Mas percebi que todas em volta daquela mesa estavam vivendo aquele momento único como se fosse o último, pois se viesse um tufão no próximo momento, todas iríamos embora nos sentindo amadas umas pelas outras.

Agora é a sua vez. Já compartihei o que é meu. Vamos tomar um café para você me contar o que te faz sorrir?

sábado, 1 de outubro de 2011

ESTRANGEIRO

Somos estrangeiros.

Imagem desfocada

Na paisagem do país

Em que vivemos.

Diferentes,

Face, corpo,

Pensamentos.

Um estrangeiro em seu país:

Jardim de rosas de sua casa.

Um estrangeiro no estrangeiro:

Pedra, cinza, pinheiros, templos.

O escuro dos templos

Combina com branca pele,

Cabelos de ébano

E olhos rasgados,

Discretamente cinzelados

Com riqueza deslumbrante.

O estrangeiro combina

Com cores, vida, liberdade,

A não-domada consciência.

De tudo, a essência

É a mesma,

Mas alteram-se as formas,

Elaboradas

A partir do vivente espaço.

INDAGAÇÃO

Saberia ainda

Ter a pureza,

A inocência

Da infância?

Meus pensamentos,

Há muito foram violados;

O sentido do que é bom,

Deturpado,

A criança,

Há muito se enterrou.

Idéias, valores, política,

Tudo o que me ensinaram

Em criança,

Caminha contra

Os preceitos que vivencio

Em adulta.

Talvez por isto

Exista o verbo adulterar...

Se ressuscitar os valores infantis

Morrerei na selva adulta;

Se me guiar pela conduta vulgar,

Perderei meu eixo no mundo.

Se posso ver aos dois lados,

Por que raios

Não posso seguir minhas leis

E habitar o mundo?

Indignação profunda da criança prestes a apanhar.



Tão presa às regras,

Tão temente a Deus,

Vou me deixando escravizar,

Com medo de sacrificar

Os meus.

Em criança, o pecado,

Em adulta, o destino,

Ao morrer será que Deus

Estará satisfeito comigo?

São indagações que me faço,

Enquanto eu mesma

Me persigo.

Anti-heroína

Dos dois lados,

Brigando

Para defender

A posição

Em que não me sinto.

Meu eu, tão procurado,

Também está brigado comigo,

Pois não lhe sacio as vontades,

Não lhe solto em seu destino.

Estou amarrada de todo o lado

E ainda assim me obrigo a sorrir,

E a dar por findo

Meu dilema,

Meu crime e castigo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A SERPENTE E O BUDA

Japão
o corpo
quente
a cabeça
fria.
disparidade
entre
a serpente
e o Buda.
Tranquilo
é o jardim
e o lago
aonde debruça-se
a árvore lapidada.
Quente
é a entrada do templo
aonde repousa
pousa
o Buda dourado:
pura essência
irrefreada
que vai morrer
no lago.
E, cruzando meu corpo,
o dragão,
pura e indomada
energia,
suave e potente
elegia
que solta
 o fogo
do Buda
na mente
disparmente
fria.
É a chuva
que cai
na entrada
do templo.
É a água do lago
que volve a ser
água
e volverá
a ser nada
no instante
que o Buda
-calor incessante-
a toca.
A árvore lapidade.
E assim
o Japão
chora.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O telefone toca...

            O telefone toca. Atendo, e do outro lado, minha amiga moradora do outro hemisfério me diz olá com sotaque de “hello”. Nos conhecemos há muito, muito tempo, desde os nossos 12 anos. Ela, com o jeitinho oriental, eu com o meu jeito italiano de ser, formamos uma bela amizade há vinte e oito anos.

            Nos correspondemos desde que ela emigrou para os Estados Unidos, e lembro da minha família esperando para que eu lesse a carta que chegara. Invariavelmente, minha mãe chorava, pois as sincronias eram tantas entre nós que nem mesmo a distância nos separava. Eu amava receber uma carta “par avion”, com um “please, don´t fold”, pois sabia que o “favor não dobrar” vinha seguido de uma bela foto, ou uma dobradura, ou um belo desenho.

            Éramos muito quietas, as duas. Introvertidas, metidas em nossos próprios mundos. Eu escrevia poemas; ela desenhava o que hoje popularizaram como garotas de mangá. Ela me ensinava a desenhar os olhos, rosto, mãos... Eu lhe deixava levar meu caderno de poemas para ler em casa. Eramos consideradas “CDFs”, mas não nos importava. Adorávamos ler os livros do Richard Bach, escutar Richard Cleiderman, um pianista muito brega, com uns arranjos faceizinhos que até moazinha aqui tocava, e também ficarmos caladas, sentadas no carpete do quarto minúsculo, encostadas na parede, sem falar nada.

            Esquisitas? E atrapalhadas. Como no dia que fomos conhecer o Centro Cultural de São Paulo e pegamos o ônibus errado. Fomos até o ponto final e voltamos. O passeio ficou para o outro dia... Idealistas, fomos assistir o filme “Gandhi”, compramos a biografia do homem (que eu não consegui terminar de ler até hoje- biografia é um porre!), discutíamos o assunto como verdadeiras entendidas.

            Tínhamos uma outra colega de “recreio”, que queria ser escritora, e começou a escrever um “livro”. Trazia os manuscritos uma vez na semana. Parecia com estes romances de banca de jornal. Tinha o moreno bonitão-rico –e- musculoso, a garota virgem- e-pobre, e um cenário típico dos anos oitenta. Espero que ela tenha guardado os manuscritos, pois se eu dou risada relembrando das descrições de cada suíte do casarão aonde se passava a história, imagino ela, lendo os originais. Era algo como “o quarto com papel de parede floral em tons verdes, com abajur combinando, banheiro com azulejos verdes...” No outro quarto, a mesma coisa, só que em cor de rosa. E assim ia. Se quiser ter uma idéia, basta entrar numa casa ou apartamento que não foi reformado desde essa época, e olhar a cor de cada banheiro...

            Ficávamos as três, tomando lanche e compartilhando as nossas criações artísticas. Foi a melhor época que eu tive naquela escola, pois parei de me incomodar com os apelidos que me davam e brincadeiras sem graça que faziam. Eu era vítima de “bulling” e não sabia...

            Porém, quando íamos para a oitava série, minha amiga me contou que a família estava se mudando para os Estados Unidos. Chineses, fugindo do comunismo, haviam conseguido finalmente o visto para morarem lá. Ela se foi, eu mudei de escola, e passei da infância para a adolescência com minha melhor amiga partindo para muito longe.

            As cartas começaram.  Vivemos por carta a emoção da outra de entrar numa faculdade, de estar apaixonada, de casar, do primeiro filho... Tempos modernos, começamos eventualmente a utilizar o telefone. Tempos ultramodernos, agora nos conversamos por email.

            E hoje ela me ligou. Pelo telefone percebo a voz desanimada. Ela tenta disfarçar, pergunta das minhas crianças, do meu carro que foi roubado (sim, sou brasileira!), eu respondo, mas logo pergunto: “e você?”. Silêncio, e logo ela começa a contar. Ficamos uma hora e vinte conversando. Como já disse, ela calada, com seu jeito oriental, e eu falando, e aconselhando, bem italiana. Acabamos desligando pela absoluta impossibilidade de eu dar um abraço ao vivo nela, passar pelo fio do telefone, sei lá, ser teletransportada até lá, para poder confortá-la. Acabamos rindo ao confessarmos, ambas, que estávamos famintas.

            Duas mulheres maduras, cada uma de um lado do globo, mas unidas pela amizade. Ela não tem até hoje uma amiga como eu onde ela vive! Ela gastou um interurbano danado para ficar fungando do outro lado da linha, enquanto eu dava a solução para os problemas do mundo...Minha filha sempre se espanta, e diz que é muito engraçado eu ter tantas amigas(os) espalhados pelo mundo, todos longe de mim. Eu acho uma dádiva, pois provamos,com estes laços que perduram por décadas, que  a presença física não importa, mas a ligação entre as almas, sim.  

sábado, 11 de junho de 2011

NAVEGANDO NA INTERNET

Há alguns dias uma amiga querida me enviou, como de costume, alguns e-mails com belíssimas imagens e mensagens, ou notícias de todo o mundo. Daquela vez ela me enviara um documento em “PDF”, um livro, falando dos primeiros banqueiros, os Rostchild, e datando ao longo dos séculos como esta família continua a frente das maiores instituições financeiras, e, diz o documento, fomentando guerras para poder financiá-las de ambos os lados. Também me enviara um “Power Point” sobre o Islã, sobre a Sharia, e como os muçulmanos vão impondo seu modo de vida quando vão morar em outros países. Ela escreveu a todos os amigos que concordando ou não com o que era relatado, achava interessante conhecer todos os lados de um assunto. Mas os textos e imagens eram tão chocantes, que me causaram um forte impacto.

Foi quando lhe escrevi um e-mail, pois somos modernos, e não enviamos mais cartas, não é? E pus na telinha o que me ia na alma. Depois, achei que era algo que deveria ser compartilhado. Então, estou reproduzindo na íntegra o texto, pois acho que esta reflexão é necessária.



“Querida amiga X,

Vi o Power Point hoje; ontem li metade do livro falando sobre os Rostchild. É perturbador entrar em contato com todas estas informações, pois a sensação é de estarmos num beco sem saída. Como conseguiríamos colocar estas diferentes raças/culturas em seus devidos lugares, a não ser com mais matança e ódio por eles? E quem nos garante que tudo o que lemos também não é manipulado para que sintamos ódio por todos eles? Somos todos parciais e defensores do nosso status quo. C Cada um defende a sua própria verdade, de acordo com sua própria evolução pessoal. E as pessoas não estão reunidas por acaso neste ou naquele grupo étnico, religioso, etc. São os semelhantes que se atraem.

Dentro desta nossa globalização de informações, me recordo de um dia, há anos atrás, quando minha sogra, japonesa que assiste NHK diariamente, mas não assiste ao jornal nacional, estava preocupadíssima com a reprodução acelerada dos brotos de bambu...no Japão. Sofria por uma situação da qual não participava. Vivia (e vive) tão fora da realidade brasileira que não sabe nem comer arroz com feijão e uma farofinha. Precisa ir a Liberdade toda semana para reabastecer a despensa.

Agora imagine que nós estamos nos angustiando com o que ocorre em outras plagas, enquanto não conseguimos sequer ir visitar o orfanato ao lado semanalmente, para ler um livro para crianças carentes de tudo. Estamos nos preocupando com algo que pode, talvez, nos afetar financeiramente, se houver algum embargo comercial, mas nada com o qual já não estejamos acostumados, visto que pagamos impostos para tudo e não recebemos nada em troca (nem educação, nem saúde, nem estradas, nem polícia, nem...)

Ficamos absurdados com a Sharia, mas convivemos pacificamente com polícia que é bandido, com grupos de extermínio, padres comendo criançinhas, mulheres e idosos sendo violentados, intimidados. Você sabia que se você for (como eu fui), com uma idosa a uma delegacia para pedir para ajudar com um familiar que está se tornando agressivo e ameaçador, o policial irá rir da tua cara e dizer que não pode fazer nada, a não ser que “aconteça alguma coisa” (leia matar, bater ou estuprar, por exemplo...)? A delegacia do idoso é uma farsa, a da mulher também. Não nos indignamos com nada disto, porque ninguém nos informa. Mas nos importamos com o desrespeito idêntico que ocorre do outro lado do globo. Aqui não fazemos nada, e do outro lado também não o faremos, porque lá não vivemos.

O que aprendi é que a máxima “a caridade começa em casa” é abrangente em vários aspectos. Se ensinarmos aos nossos filhos a serem gente, e aos nossos vizinhos o que é ser ético (através do exemplo), com certeza já estamos fazendo algo. Se ensinarmos aos pequenos que a roupa que não serve irá para os pobres, que o brinquedo deve ser conservado, para poder ir inteiro para a próxima criança, já estamos começando um movimento. Se separarmos o lixo reciclável em seus devidos lugares ao invés de jogar a sacola com tudo misturado em qualquer um dos conteineres, já estamos dando o exemplo. Os movimentos reais são pequenos, como a pedrinha que faz um círculo ao cair na água. Este círculo irá se propagar.

Mas há círculos que, eu acho, não devem se propagar. O da desconfiança pelos semelhantes é um deles. Eu não sei o que falam de mim, ou de nós, mas na verdade, pouco importa. Se vierem me atacar, aí eu vou me defender, mas caso contrário, todos são homens e mulheres, pais e filhos, e importam para alguém. Tem sentimentos. E só conhecem aquele código cultural, Para eles, nós os amedrontamos, assim como eles nos amedrontam.

Sabe, nós ganhamos um periquito aqui em casa. Ele é criado solto, vai e vem da gaiola quando quer. Quando escuta a porta da casa abrir, corre para o nosso ombro, canta na nossa orelha, e mordisca de leve, como se desse beijinhos. Outro dia uma amiga minha o conheceu e ficou espantada. Disse que nunca em sua vida tinha visto um periquito domesticado, pois eles são ariscos e agressivos. Eu lhe respondi que como eu era ignorante da impossibilidade de domesticá-lo, domestiquei. Como não sabia que era agressivo, lhe dei carinho, e ele retribuiu. Como não sabia que era arisco, brinquei com ele e lhe dei de comer na mão. Sem os pré-conceitos conseguimos nos relacionar plenamente.

Se eu tivesse analisado como era a formação social japonesa, nunca teria me casado com um descendente. Às vezes a inexperiência e a ignorância enriquecem as nossas vidas...Vamos ler estas informações, sempre, mas vamos também buscar informações no primeiro quilômetro que nos rodeia. Acho que este movimento, sim, deveria ser propagado. O que você acha?

Beijinhos”



E boa reflexão para todos!

O PÃO

                O aroma do pão rescendia pela casa. Em um dia de “tia Anastácia”, resolvera colocar a mão na massa, literalmente. Farinha, grãos de trigo, ovos, leite, fermento...tudo fora devidamente amassado, amalgamado, até formar aquela massa perfeita, desgrudando da mão, que fora então posta a crescer, no milagre da multiplicação que só um bom fermento pode fazer.

Enquanto fazia o pão, pensava em tudo o que este representava. Era o alimento do corpo; na missa, o pão repartido era o pão do espírito. Para alguns, era prosperidade; para ela, era realização.

            E o pão se espalhava pela casa, com seu cheirinho tão bom, pedindo uma manteiga em cima e uma xícara de café fumegante como acompanhamento. Aos poucos, os viventes foram chegando, trazidos pelo aroma que apontava para a cozinha.

            O filho mais novo já pedia um pedaço; a mais velha relutava em declarar-se faminta. A sua natureza belicosa em relação a mãe e suas produções foi dobrada pela aparência convidativa. Logo estavam todos em volta da mesinha da cozinha, com o passarinho da família piando, querendo participar da festa.

            Aliás, o periquito era um caso a parte. Criado solto pelo apartamento, sofria de ilusões de ser passarinho francês, e queria estar sempre em cima da mesa, imaginando que sobraria alguma migalha de comida para ele.

            Voltando a cena, era tão raro ver todos em volta da mesa! Um queria ver televisão enquanto comia; a outra mal comia em casa. Normalmente era só a mãe a utilizar a cozinha, fosse para preparar as refeições, fosse para comer sozinha. Os três riam, os dois irmãos conversavam e brincavam; a filha começou a contar os sentimentos e acontecimentos recentes, os sonhos. Neste momento a mãe viajou novamente para o significado do pão: pão da vida.

            Naquele momento aquele era o pão da vida, o pão que devolvera a comunhão daquela família. E como aprendera anos antes, o fazer do pão a transformava, e aos seus também.  Pequenos milagres diários.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

CASAMENTOS

O assunto era o casamento da professora de ginástica. Preparativos para a festa, prova de vestido, quantos andares teria o bolo, quais as lembrancinhas escolhidas... Do lado das alunas, o presente que iriam dar a noiva, a surpresa no chá de cozinha...

Na academia de público feminino, praticamente um clube da Luluzinha, as mais velhas traziam conselhos. Outras  traziam lembranças. Todas compartilhavam, não mais em volta de uma fogueira, ou na mesa da cozinha, mas na roda de ginástica.

Uma magia universal, de mulheres se unindo, foi tomando forma. Umas diziam: “nunca durma brigada com o marido”. Outras aconselhavam: “tenha Deus no casamento”. Outras simplesmente aconselhavam a guardar no coração (e em cadernos, fotos, bilhetes), os bons momentos, para que fossem o sustento para os dias difíceis.

                Interessante que nenhuma destas mulheres falava de como administrar uma casa, como guardar dinheiro, como aumentar um patrimônio. Todas deram de si o que melhor tinham, e o que era mais importante: segredos para manter uma boa relação com o companheiro.

                Afinal, casamento não se resume em fazer festa, brincar de casinha, assinar papéis de propriedade conjunta. Casamento é companheirismo, crescimento mútuo, e isto, somente regado a muita paciência.

                Atire a primeira pedra aquele que nunca pensou em arrumar as malas e ir embora ao menos uma vez na vida. Os antigos tinham paciência. Casamentos que duram são fruto de muitas voltas por cima, muitos sapos engolidos, muitas lágrimas escondidas. Mas há atrás disso tudo a lembrança de um começo bom, da paixão. Os corpos envelhecem, a barriga, a bunda, os seios, os cabelos não ficam no mesmo lugar.  Olhar para o companheiro(a) com o mesmo desejo é uma arte. A arte de ater-se a realidade, de reconhecer o esforço de quem está com você, por todos esses anos, suportando todos os defeitos (sim, temos defeitos!), e também o nosso envelhecer.

                No Japão, quando o marido volta cansado do trabalho, a esposa diz: “otsukaressama deshita”. Não há uma tradução literal, mas o significado seria “bendito seja o teu cansaço”, pois “tsukareru” é cansar-se, o prefixo “o” indica respeito, assim como o “sama”, e “deshita” indica a ação no passado. `As vezes aprendemos com outras culturas a respeitarmos aquilo que não vemos, como o dia que o nosso companheiro passou longe de nós. Eu levo comigo esta atenção especial das submissas porém sábias japonesas.

                A vida é feita de pequenas coisas. Mas mesmo as pequenas coisas não sobrevivem sem amor, sem atenção. Uma comida simples, feita com atenção, vale. O trabalho feito com dedicação, vale. Ouvir o que o outro está falando, vale. Um chá quente, um afago quando estão juntos, cuidados não solicitados, vale.

                O amor não tem pressa. Não é conto de fadas, com um ”viveram felizes para sempre”, nem uma eterna vilania do sexo perfeito, como o querem os livros e filmes americanos. Há o prazer no dia certo, o respeito ao cansaço alheio, quando este se faz evidente. Mas tudo isso é amor, respeito, vida a dois. Não é o paraíso, também não é o inferno, a não ser que assim queira considerá-lo.

                Uma das maravilhosas companheiras do círculo de mulheres contava a relação com o marido com Alzheimer. Ela poderia ter considerado a experiência um inferno, mas não. Cuidou do companheiro até o final. Contava para nós como o casamento foi maravilhoso. Às vezes ficava louca com as atitudes já insensatas do marido, se entristecia por não ser mais reconhecida, mas sabia que havia no fundo dele a história dos dois, pois, até o final, ele sentava ao lado dela para ver televisão, sempre de mãos dadas, como quando estava são.

                Histórias fortes, histórias tristes, como das que foram abandonadas, e lutaram para criar sozinhas os filhos, histórias....O casamento de uma despertou o casamento de todas as outras, e resultou num compartilhar de experiências sem igual.

sábado, 2 de abril de 2011

RELIGARE

1-

PAI,

Que as coisas

Sejam.



2-

Ampliando,

Abrindo a visão.

Vendo sempre

O voltar por seus braços.

O Eterno.

Dissolução.



3-

A ignorância,

A boa ignorância.

O conhecimento,

O mau conhecimento.

Viver em dissonância

Entre o ato e o pensamento.

Querer ir

E fazer coisas para ficar.

Não crer que o sonho

Possa acabar.

O que me chama?

A música.

A música!

E a ajuda.

A união.

A não religião.



3-

Tomates vermelhos.

Redondos

Maduros

Túmidos.

Prontos

A explodir

Em oferenda

A Deus.



4-

Na busca,

A perda.

Conhecimento?

Divisão.

Meu espírito

Eterno.

Meu corpo

Decomposição.

Atômicas notas

No espaço...

segunda-feira, 14 de março de 2011

ESPADA

Meu costumeiro verso


É sagrado,

Cheio de palavras

De espada,

Que cortam

O vento e o universo

Desfazendo a vida

Em tudo e nada.

sábado, 12 de março de 2011

PASSARINHO

A vida é cheia de graça. Há algumas semanas estava em depressão, vendo tudo embotado, minhas capacidades, minha falta de riso... tudo denunciava o meu lado chato, nada “clown”, nada simpático ou agradável.


Eis que minha filha, com toda sua determinação, conseguiu trazer para casa um periquito que estava prometido a ela desde o ovo, literalmente. Fomos buscá-lo na casa da amiga, e ele veio com várias recomendações , uma lata com ração e uma velha gaiola.

Ela declarou que o animal seria criado solto, no dedo, porque morria de dó de passarinho preso na gaiola. Também disse que cuidaria do periquito, pois era dela. Fiquei realmente impressionada com o discurso, e esperei a prática.

Obviamente, no dia seguinte a chegada do novo membro da família, quem limpou a gaiola, colocou jornal para o passarinho fazer cocô enquanto lia as notícias e reabasteceu a ração foi esta que vos fala. A dona do animal limitou-se a levá-lo para seus aposentos, para que ele pudesse ficar lendo o livro junto com ela, empoleirado em seu ombro.

A novidade durou dois dias. Logo as atividades diárias, escolares e extra curriculares foram maiores que o interesse pelo pássaro. Inversamente proporcional foi o aumento da minha responsabilidade para com o mesmo, e já que eu nunca tive que cuidar de periquitos, recorri ao nosso moderno “pai dos burros”, ou seja a internet.

Após duas horas de pesquisa, percebi que passaria mais tempo cuidando do pássaro do que de meus próprios filhos. Obviamente, se isso fosse possível. Expliquei para minha recém chegada filha, naquela tarde, o que não poderíamos fazer, o que o bichinho teria que comer. Ela não gostou nada, mas não retrucou, já que não tinha informações melhores.

Nos primeiros dias o periquito estava triste, assustado. Eu cantei para ele, dei frutas, e achei que o bicho iria morrer de tristeza sem os outros periquitos. Foi quando lhe dei um pedaço de espiga de milho, e conquistei sua confiança.

Aos poucos o periquito começou a voejar pela cozinha. Quando eu o queria na gaiola, lhe dava o pedaço de milho, e logo ele vinha comigo. Fui me afeiçoando ao pássaro. Quando chegou ao final daquele dia, fui dormir com um sorriso no rosto.

Passados mais dois dias, minha filha se queixou que o passarinho não vinha mais na mão dela. A estas alturas, ele já estava voando pela sala, e só ia na mão quando queria retornar a gaiola. Ela não queria o animal livre? Pois eu o estava criando livre.

E estou. Agora o periquito pia para que eu abra a gaiola, e vai no dedo até ela quando se cansa de voar. Hoje meu filho menor passou a manhã sem ver a televisão, ganhando a confiança do animal , e conseguindo finalmente que ele viesse na sua mão, e passeasse pelo apartamento pousado em seu braço. O periquito estava bem a vontade, e meu filho, feliz.

A dona do periquito dormia, e a casa estava acesa. Voltei a sorrir; meu filho sente que tem um companheiro, a vida ficou mais leve. Se o periquito é da minha filha ou da família, pouco importa. Meu esposo chega e vai assoviar para o passarinho. Hoje veio com areia própria para o bicho, e uma cordinha para ele bicar.

Todos mimam, todos precisam cuidar. A vida não é mais triste, por conta de um passarinho de dez centímetros.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...