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segunda-feira, 19 de maio de 2014

AS CIDADES, O PASSADO

Pisava em falso.
Falso -
O riso, o gozo, até o brilho nos olhos.
Ficou ali,
Adormecida em seu canto,
Não cadáver,
Nem alma.
Apenas seu espanto
Em saber-se ali,
Como parte dos muros,
Dos velhos paralelepípedos,
Da antiga hera a pintar
As paredes das casas.
Algumas quadras a frente,
Numa antiga janela,
Olhos antigos
 - Cegos de lembranças –
Fazem arrepiar
Os pelos de quem passa.
E na viela estreita
Ainda se sente
O cheiro seco
De pobreza
E de cachaça.
Na praça nobre,
Fantasmas de senhoras
Com seus filhos e babás
Passeiam no paraíso,
Assim na terra
Como no céu.
E o pão nosso
De cada dia,
Vai sendo arduamente
Tratado,
Enquanto a velha padaria
Assa sonhos olvidados.

- este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.


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domingo, 18 de novembro de 2012

MEMÓRIA, PALAVRA E CÂNTICOS


            Há aqueles que nunca olham para trás. Eu, ás vezes olho, para certificar-me que não há nenhum esqueleto me seguindo. Quando, por desventura, pressinto algo além de minha sombra em meu costado, trato de cantarolar Glórias ao presente e exéquias ao passado, para que este se aperceba que foi morto e enterrado.
            Já olhei muito para trás, deste mal não há homem ou mulher que não padeça, não é mesmo, seu doutor? Olhei muito para trás, sofri e ressenti cada dor que eu achava perdida, reabri cada mal sangrada ferida, chorei como se num fosse cabra de aguentar ferro e fogo. Claro, não na frente de muitos, mas no duro de minha cama. E eu pedia ao senhor Deus que me levasse essas mágoas, águas ruins que empesteavam meu sono, mas acho que semente que eu plantei, eu tinha que desenraizar, doutor.
            Sim, amores de muitas primaveras, que plantei sementes e não se deram o trabalho de desabrochar; palavras ruins que ouvi e meus ouvidos não se dignavam a esquecer; e os olhos, doutor, que teimavam em ter outras imagens na retina além daquelas que comum e diariamente viam? Quase enlouqueci, por excesso de memórias dentro de mim. Também a pele, doutor, a pele, o nariz, teimavam em me trazer de volta toques e cheiros de peles que toquei e senti, como se fossem coisas vivas e independentes... parecia uma revolução de meu corpo contra meu coração. Eu queria verter fora as lembranças, e o corpo dizia não.
            Me acostumei então com aquela sensação de não pertencer a tempo nenhum. Pé no passado, corpo no presente, e desse jeito, sem esperança de futuro... meus fantasmas, meus esqueletos de memória me seguravam os pés, alisavam o corpo, embalavam meu sono, nem apelando a todos os santos conseguia me livrar deles... e então, descobri o cantar. Aprendi a cantar, e a sensação foi se indo embora. A música pôs meu sentimento no presente, e lavou meus olhos da terra velha, das imagens antigas que teimavam em permanecer. Minha pele arrepiou-se com os sons que vibravam nela, meus ouvidos se encheram de outras palavras, mais doces, e mais amigas. E a palavra, doutor, a Palavra me libertou. Porque através da harmonia da música, e da palavra que acompanhava os sons, me libertei de fantasmas, de esqueletos, do que não mais me pertencia e me habitava. Por isso, doutor, réquiem e glória andam juntos em meu repertório... para livrar-me do mal, amém.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...