Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de maio de 2014

AS CIDADES, O PASSADO

Pisava em falso.
Falso -
O riso, o gozo, até o brilho nos olhos.
Ficou ali,
Adormecida em seu canto,
Não cadáver,
Nem alma.
Apenas seu espanto
Em saber-se ali,
Como parte dos muros,
Dos velhos paralelepípedos,
Da antiga hera a pintar
As paredes das casas.
Algumas quadras a frente,
Numa antiga janela,
Olhos antigos
 - Cegos de lembranças –
Fazem arrepiar
Os pelos de quem passa.
E na viela estreita
Ainda se sente
O cheiro seco
De pobreza
E de cachaça.
Na praça nobre,
Fantasmas de senhoras
Com seus filhos e babás
Passeiam no paraíso,
Assim na terra
Como no céu.
E o pão nosso
De cada dia,
Vai sendo arduamente
Tratado,
Enquanto a velha padaria
Assa sonhos olvidados.

- este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.


www.pontocontos.blogspot.com

www.perfumesepalavras.blogspot.com
www.catarinavoltouaescrever.wordpress.com
www.marianameggouveia.wordpress.com
www.detalhesintimistas.wordpress.com
www.thalopes.com/blog
www.2edoissao5.blogspot.com


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DONA BRANQUINHA

Perdida em meio aos meus ais, encontro motivos toscos para todos eles. Afinal, de que serve uma melancolia sem motivos? Nem que seja a leveza que me traz o copo de vinho, nem que seja a estranha certeza do teu amor antigo, que ainda permanece comigo.
Perdida em meio aos meus ais, me sento no alpendre da casa antiga com sempre renovada disposição de sofrer por ti. Sim, pois que envelheci, assim, seca de amor, esses caminhos em minha face, esses meus cabelos rajados de branco, nunca mais cortados desde o dia que te vi partir prometendo que voltarias. Minha trança conta os anos de lonjura em cada nó, e eu fico aqui, só. Poderia ter sido avó, antes poderia ter sido mãe, se tivesses me possuído.
Mas cá estou eu, perdida em meio aos meus ais, colo vazio, ventre improdutivo, perdido para o destino das mulheres. Que prazer tive eu, que pouco ou nada tive de você? O prazer imaginado das moças antigas dos interiores, onde recato era moeda de troca no mercado vigente... o prazer de poder andar de mãos dadas contigo, em tardes perfumadas pelos jasmineiros em começo de primavera, o prazer de poucos beijos roubados, assim, na curva antes de chegar ao muro da casa, quando um olhar rápido nos assegurava a ausência de um vigia.
Lembro-me de teu sorriso franco, de tuas declarações, hoje tão infantis, nas cartas amareladas que guardo no fundo de minha gaveta. Lembro do frio que corria minha espinha quando me enlaçavas para dançarmos, em nosso bailes interioranos. E minha caderneta de dança era só tua... hoje danço sozinha, e pouco me importa se me vejam. Já estou na idade da senilidade, que pensem o que quiserem.
E aqui, perdida em meio aos meus ais, me vejo na plataforma do trem, me despedindo de ti. E vejo teu olhar brilhando, teu sorriso triste, e escuto tua promessa. Será que realmente aconteceu? Não posso precisar, pode ser o vinho, pode ser minha vontade de que realmente tivesse acontecido... as lembranças já nada são, que importa se criadas ou vividas? Me contento com elas, revivo, sinto novamente, remoço por dentro.
Mas não voltaste. Lembro de pessoas chegando aqui nesta casa, neste alpendre, me chamando. Lembro... de não lembrar de mais nada. Não sei quem te levou, não consigo lembrar como partiste. Não houve corpo para velar, nem missa de sétimo dia. Pus teu nome nas intenções da missa, e enlutei. Do teu amor fiquei viúva. Mas vesti branco, a cidade estranhou, minha família estranhou. E eu disse: de negro já vai a noiva Morte, com ele. Eu sou a amante, e de branco eu vou.

E hoje dona Branquinha eu sou. Perdida em meio aos meus ais, cartas antigas e nós no trançado, como os das árvores, dando a data, a precisão do amor que ficou em mim. Neste velho alpendre, uma certeza eu tenho: do teu amor antigo, constante e amigo.

sábado, 16 de março de 2013

HA QUE SE CUIDAR


Há que se cuidar, com zelo, de todos os nossos antigos malfeitos. Sim, todos aqueles que bailam em nossa memória, repletos de odores, tatos, arrepios e calores; todas as mordidas nas entranhas de prazer ou de terror; cada olhar que nos chegou, cada cor, cada cena.
Há que se cuidar, com zelo, para que não cheguemos á perfeição. Sim, a perfeição de pensamento, sabendo que não mais existem ilusões, nem vida após morte, nem vida durante a vida. Tudo torna-se tão insosso, sem um segredo que nos leve para o diabo que nos carregue! Portemos, guardado em algum bolso, uma carta perdida, um pedaço de tecido velho, uma foto escondida, para que o passado venha, assim, alegro ma non tropo, colorir o presente insosso.
Há que se cuidar, com zelo, para não perdermos as sensações que nos foram caras. Escrevamos em todos os textos, a cada mil dias, para que, ainda que se passem mil anos, aqueles que lerem possam dizer: aquele ali, olhe, foi marcado por tal fato, presente do primeiro ao último ato.
Há que se cuidar, com zelo, de toda e qualquer  reação que haja marcado o corpo: o toque que trouxe o arrepio, o hálito que chegou tão próximo, mas não tornou-se beijo, o olhar profundo que fez subir calor pela espinha, a carícia pedinte a pedir carícia. Há que se cuidar para que não descuidemos dos pecados, pois já há mais de trezentos e sessenta e cinco santos espalhados para devoção, e outros tantos mártires esperando para serem dignos de oração.
Há que se cuidar, enfim, da nossa humanidade, dos nossos antigos malfeitos, das nossas querências, dos nossos pecados mais secretos, dos textos, hieróglifos, ainda a serem descobertos. Porque ainda escuto sinos repicarem enquanto leio poemas, e me esbofeteiam a face com palavras de amor que não cri.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

REFLEXÃO DA MANHÃ




A memória passa pelos sentidos;

 e os sentidos, não passam pela razão. 

Então não há razão nas memórias que guardamos, 

só o sentido que para elas damos... 

domingo, 18 de novembro de 2012

MEMÓRIA, PALAVRA E CÂNTICOS


            Há aqueles que nunca olham para trás. Eu, ás vezes olho, para certificar-me que não há nenhum esqueleto me seguindo. Quando, por desventura, pressinto algo além de minha sombra em meu costado, trato de cantarolar Glórias ao presente e exéquias ao passado, para que este se aperceba que foi morto e enterrado.
            Já olhei muito para trás, deste mal não há homem ou mulher que não padeça, não é mesmo, seu doutor? Olhei muito para trás, sofri e ressenti cada dor que eu achava perdida, reabri cada mal sangrada ferida, chorei como se num fosse cabra de aguentar ferro e fogo. Claro, não na frente de muitos, mas no duro de minha cama. E eu pedia ao senhor Deus que me levasse essas mágoas, águas ruins que empesteavam meu sono, mas acho que semente que eu plantei, eu tinha que desenraizar, doutor.
            Sim, amores de muitas primaveras, que plantei sementes e não se deram o trabalho de desabrochar; palavras ruins que ouvi e meus ouvidos não se dignavam a esquecer; e os olhos, doutor, que teimavam em ter outras imagens na retina além daquelas que comum e diariamente viam? Quase enlouqueci, por excesso de memórias dentro de mim. Também a pele, doutor, a pele, o nariz, teimavam em me trazer de volta toques e cheiros de peles que toquei e senti, como se fossem coisas vivas e independentes... parecia uma revolução de meu corpo contra meu coração. Eu queria verter fora as lembranças, e o corpo dizia não.
            Me acostumei então com aquela sensação de não pertencer a tempo nenhum. Pé no passado, corpo no presente, e desse jeito, sem esperança de futuro... meus fantasmas, meus esqueletos de memória me seguravam os pés, alisavam o corpo, embalavam meu sono, nem apelando a todos os santos conseguia me livrar deles... e então, descobri o cantar. Aprendi a cantar, e a sensação foi se indo embora. A música pôs meu sentimento no presente, e lavou meus olhos da terra velha, das imagens antigas que teimavam em permanecer. Minha pele arrepiou-se com os sons que vibravam nela, meus ouvidos se encheram de outras palavras, mais doces, e mais amigas. E a palavra, doutor, a Palavra me libertou. Porque através da harmonia da música, e da palavra que acompanhava os sons, me libertei de fantasmas, de esqueletos, do que não mais me pertencia e me habitava. Por isso, doutor, réquiem e glória andam juntos em meu repertório... para livrar-me do mal, amém.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...