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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TERESA E A MORTE

Teresa chamava sua velha amiga, que permanecia de olhos fechados, recostada no travesseiro imaculadamente branco. Sua saúde agora frágil contrastava com a mulher dinâmica que sempre fora.
- Déia, por favor, me responda, vá...
Déia meneou a cabeça, e resmungou um não. A filha entrou no quarto, deixou um copo de água para Teresa e disse:
- ela está assim há três dias; não consegue dormir de noite, me chama todo o tempo, com medo de dormir, e de dia fica sonolenta, como você vê.
- pode deixar, Bia, vou conversar com ela agora...
Teresa encosta a porta do quarto quando Bia sai, senta-se novamente ao lado de Deia e segura-lhe a mão branca e cheia de manchas senis. Deia abre um pouco os olhos, vira a cabeça para Teresa e fala:
- Teresa, não consigo dormir... me deixa dormir agora...
- agora eu vim cuidar de você, Deia, mas quero entender porque você está com medo de dormir... pode me contar?
- não sei, Teresa. Quando estou quase dormindo, começo a me agitar... vou te confessar: tenho medo de passar mal dormindo...
- sim, e se passar mal dormindo o que pode acontecer?
- não sei, Teresa... e se não conseguir chamar a Bia, o que faço?
- você está desconversando, Deia. – Teresa olhou-a e perguntou de novo: - se passar mal domindo o que pode acontecer?
- eu não sei...
-não sabe ou não quer dizer?
- não quero dizer, Teresa... você sabe, não sabe?
Teresa olhou-a e deu um suspiro. Lembrou daquela mulher guerreira, que desde a mocidade trabalhava num centro espírita, ajudara tanta gente, criara uma filha exemplar e afável dentro de sua crença, e agora estava com medo do confronto final.
- Deia, você está com medo de não acordar, se passar mal de noite?
- é acho que é isto...
- e como isto se chama, Deia? – Teresa deu-lhe um sorriso irônico, que Deia já conhecia bem.
- afe, como você é chata, Teresa! – Deia falou baixinho - Isto se chama morrer...
Teresa apertou a mão da amiga e disse:
- exato, isto se chama morrer.
- que vergonha, Teresa! Eu estou com medo de morrer!
- tenho que concordar com você, Deia! – Teresa deu-lhe novamente o sorriso irônico – você vai mesmo ‘amarelar’ no final do jogo? E tudo o que você viveu, seus anos trabalhando no centro espírita...  pensei que você acreditasse em vida após a morte, e não que fosse viver eternamente!
Deia começou a rir. Teresa a acompanhou, e se abraçaram.
-ah, garota, você tem um modo de fazer a gente enxergar as coisas... e morrer de vergonha! Que horror!
Ainda rindo, Teresa respondeu:
- Minha amiga, não posso deixar de ser sincera com você. Tenho muito orgulho de ser sua amiga, e mais ainda por saber que você é humana, e tem medos, como todos nós. E que é corajosa, e sabe admití-los. Diga para mim, o que você acredita, de todo o coração, que é a morte.
- para mim, por tudo o que vivenciei e estudei, a morte não é mais do que uma transição deste corpo físico para meu corpo espiritual.
-e você acha que isto será ruim, Deia?
-absolutamente! Este corpo está velho, cansado, doente. Meu espírito não tem estas limitações, eu poderei esta onde e com quem eu quiser com a velocidade de meu pensamento... – Deia respondeu entusiasmada, olhando para o alto.
- então, minha amiga, do que você estava com medo mesmo?
Deia pegou as mãos de Teresa, apertou-as e disse:
- minha jovem amiga, eu estava sendo ridícula. Obrigada por vir me ajudar!
- Deia, a verdade já estava com você. Eu só tive que te lembrar. Te admiro, viu?
As duas se abraçaram.

Bia ligou para Teresa dois dias depois. Era uma linda manhã de sexta feira. Deia havia morrido, dormindo. E sorrindo. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

INEXORÁVEL

No volante do carro, percebo as mãos ressecadas, as manchas senis se delineando. Os joelhos reclamam quando aperto os pedais neste trânsito infernal, andando a doze por hora numa das artérias principais da cidade. Provavelmente, enfartando, a antiga metrópole! E eu aqui, constatando que não estou muito melhor do que ela: desgastada, entupida – com certeza – por dentro, mas proclamando minha vida a cada respiração.
            Ao meu lado esquerdo, vislumbro árvores centenárias, Parque do Ibirapuera. A diferença das espécies: árvores tornam-se esplendorosas a cada punhado de anos que acumulam, e seus troncos ganham nódulos, vincos, que as enfeitam. Humanos decaem, perdem centímetros, acuidade visual, paladar para a boa comida; a musculatura diminui, e a pele sobra, rugas, vincos, marcas do tempo, nem sempre – quase sempre – desagradáveis.
            Meu compromisso exige pressa, mas minha idade grita calma. Ganhei, pela impossibilidade da eterna juventude, a virtude da paciência. Confesso, ainda sou impaciente, afinal o sangue quente grita em minhas veias, mas melhorei um bocado. Constatação dos outros, palavras alheias. Meu espírito continua com vinte anos, e não havia se dado conta dos silêncios que me tomaram nos últimos tempos, frente a tempestades dos outros. Antes trovoava junto, hoje aprecio o espetáculo nem sempre agradável.
            Novamente olho as minhas mãos. Um enfado toma meu peito. Por que, penso eu, o corpo não acompanha o espírito e estaciona na nossa melhor idade? Não precisaria ser aos vinte anos, talvez mais para frente, no auge do corpo, da libido, da beleza consciente... mas as mudanças se infiltram a cada dia – ou talvez a cada noite, quando nossa alma deixa o corpo á sua própria mercê.
            Recordo de momentos engraçados, quando perguntava a minha mãe por que meu vestido havia encolhido, aos sete anos; ou quando tentava omitir para mim mesma os pequenos seios apontando, como se pudesse continuar minha infância deste modo. Inconteste, o corpo tomou formas, e não sabia o que fazer com elas; as escondia em largas roupas, ombros curvados, cabelos caídos no rosto. Perdia-me em outros mundos, mais seguros do que este, entre palavras e traços, melodias e sonhos. Lembro de uma foto antiga, de maiô, que escondi por anos, me achando horrível. Ao resgatá-la, dia destes, olhei aquela bonita moça e pensei no desperdício com que nos brinda a ignorância da tenra idade.


            A realidade, o corpo, a madurez brindou-me com experiências, cicatrizes, cabelos pintados aqui e ali com o branco, e rugas de riso – ainda bem – ao redor dos olhos, e nos cantos da boca. Comparar não é a melhor atitude, mas as prefiro àquelas rugas que marcam cenhos franzidos pela eternidade, ou cantos de boca caídos, como um ríctus. Me pego rindo sozinha, e a moça do carro ao lado sorri para mim. Talvez pense que estou surtando. Talvez esteja. A idade nos tira certos filtros de ilusão, e a normalidade não nos acompanha mais. Chego ao meu destino, e isto não é muito. É só parte da jornada. Meu destino final, comum a todos que vivem, não chegou. Mas minhas mãos me lembram que a mão do tempo já vem me guiando para ele, dia a dia.


- este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

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Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...