segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

ATENTA

Atenta
ao que se passa
aqui dentro...
construo novas
realidades -
não sou mais
levada por
qualquer
vento.
foto por Dani Hiro (theodora beat)

JANELAS E SEGREDOS


Numa janela,
Ritinha.
Na outra,
S. Francisco. 
Não sei se 
Conto
um segredo
À moça,
Ou outros
Aprendo
Com o doce
Irmão Sol.

PORTA DO PARAÍSO


Se esta fosse
A porta do
Paraíso
Entraria sem
Pensar.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UM ALMOÇO COM TERESA


Hora do almoço. Teresa entrou no restaurante simples, comida por quilo, postou-se na fila com a bandeja e o prato na mão, esperando a sua vez de servir-se. Logo atrás dela uma moça miúda, morena, posicionou-se olhando impaciente para a fila. Teresa lhe dirigiu um sorriso e a moça comentou:
- como está cheio hoje, não acha?
- está, mas não me incomodo – respondeu Teresa, já se servindo das saladas – gosto de ver gente – sorriu.
A moça balançou a cabeça, colocou duas fatias de tomate no prato e disse:
- eu não me acostumo, vim do interior, sabe?
- ah, isto explica bastante – comentou Teresa –quer sentar comigo? Aqui não tem muitas mesas, e estou só. E me chamo Teresa.
- ah, então aceito. E me chamo Marta,  muito prazer.
Pesaram os pratos e foram se sentar. Marta contou que vinha de uma pequena cidade, o ritmo era outro, muito mais lento.
- parece que não consigo me adaptar a esta cidade. Deste jeito eu vou ter que voltar para minha terra... – arqueou os ombros para frente, enquanto olhava para o prato.
- tudo é questão de ser flexível, você sabia?
- como assim?
- por exemplo. Eu peguei um monte de salada e você só dois tomates, não foi?
- sim. E daí?
- há uns dois anos eu só pegava tomates, como você. Aí li que tínhamos que fazer pratos coloridos, para conter todas as vitaminas. Comecei a experimentar o agrião, depois outro dia a beterraba, um brócolis... o paladar acostumou, olhe a diferença! – e apontou para o prato, sorrindo.
- ah, mas a vida não é um prato...
- mas pode ser, se você quiser. – e deu uma piscadinha.
Marta remexeu-se na cadeira, olhou para Teresa intrigada:
- ok. Então me explique.
- por exemplo, hoje você está sentando comigo. Imagine que eu sou um brócolis... não ria. Você está experimentando algo novo no “seu prato”.
Marta riu junto com Teresa.
- ah, mas com você está sendo fácil, caro brócolis! Como fazer com o resto, que acho estranho?
- eu tenh
o uma teoria: todos temos limites a vencer. Primeiro temos que reconhecê-los, e depois atacá-los um a um.
- hum... e como se faz isto, me explica! – Marta inclinava-se, começando a interessar-se.
- bem – começou Teresa – vamos a outro exemplo gastronômico. Eu não conseguia comer nada com coentro. Sempre dizia que era forte, que o sabor tomava toda a comida, enfim. Tinha um preconceito gastronômico contra o pobre coentro...
- tá, e... – Marta grafava a comida, prestando atenção em Teresa.
- um dia fui comer com uma amiga num restaurante baiano. Escolhi um peixe com leite de coco, delicioso, de lamber os beiços. Quando o garçom veio recolher os pratos, eu elogiei o peixe, e falei que queria saber o que tinha dentro, para ficar tão bom. Ele educadamente me descreveu o prato, e disse que o segredo era o coentro!
- uai, então você gostava de coentro!
- sim! Eu só achava que não. E hoje não recuso nada com o tempero, e tenho experiências culinárias incríveis!
- hum... então você acha que eu deveria experimentar tudo o que acho estranho e diferente?
- não é bem isso. Há coisas que não precisa experimentar, pois não te farão diferença alguma na vida. Eu por exemplo, não como quiabo e não vou morrer por isto...
- então – concluiu Marta – devo perceber o que me incomoda mas é importante para eu me adaptar à esta cidade e experimentar, é isto?
- isto mesmo! A gente é que se limita, e a gente também é que tira estes limites de nossas vidas.  – Teresa olhou o relógio – e agora, uma limitação imposta. Horário de ir embora, tenho que trabalhar!
- ah, Teresa, obrigada pela conversa! Nunca mais vou esquecer da história do coentro...  – riu.
- Que bom. Sorte para você nesta cidade que vai desbravar a partir de agora!

Teresa saiu em direção ao caixa, deixando a moça a digerir suas palavras.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TERESA E A VULNERABILIDADE

O sol ameno daquela manhã de inverno entrava pela janela, aquecendo o quarto onde Teresa acabava de entrar. Faziam já três meses que ela visitava semanalmente a senhora à sua frente, a fim de lhe proporcionar alívio para suas dores, com sua massagem.
Aquela mulher, grande estudiosa de assuntos espirituais, conhecedora de tantas técnicas de meditação e cura encontrava-se praticamente impossibilitada de andar devido à complicações advindas de um antigo acidente automobilístico. Teresa gostava muito de atende-la, pois ela sempre compartilhava um pouco de seu vasto conhecimento.
Naquela manhã, porém, a senhora dirigiu-se à Teresa:
-Teresa, já te contei que desde meu acidente, há cinco anos atrás, recebo semanalmente a visita de uma senhora que vem me aplicar Reiki?
-não senhora, dona Sara.
- então, esta semana fiquei preocupada...
-por que?
- ela disse que a minha empregada recebe muitas cargas negativas e traz tudo aqui para minha casa, e que tudo isto fica comigo... estou tão desanimada! Por que será que isto acontece comigo, porque estou tão vulnerável?
Teresa não respondeu de pronto. Continuou massageando-lhe a perna esquerda, e depois de um minuto ou dois, respondeu-lhe:
- porque a senhora permite!
Dona Sara remexeu-se, e olhou para ela, boquiaberta.
- como assim, Teresa, eu permito? – o tom de voz indignado da mulher não intimidou Teresa.
- bem, dona Sara, vou lhe dizer o que penso, se me permite.
A mulher baixou a guarda e concordou. Teresa começou:
- a senhora estudou mais de vinte anos com grupos espiritualistas, certo?
- sim...
- aprendeu várias técnicas de cura também, não foi? Cura prânica, cura quântica... não é?
- sim, já te contei isto várias vezes.
- pois como é que a senhora, com todo este conhecimento, permite que algo de fora lhe atinja, dona Sara? – perguntou, com um sorriso, Teresa.
A mulher olhou-a com um ar desalentado, apontou a si mesma e disse:
- mas Teresa, olhe o estado em que me encontro!
Teresa olhou-a serenamente e disse:
- dona Sara, sei que quando estamos fragilizados, doentes, esquecemos de algumas coisas, mas vou lhe recordar algumas, está bem?  Primeiro, nós não somos somente este corpo. De acordo?
-sim, de acordo. – Sara sorriu – temos um espírito.
-isto mesmo. E sei que acredita que este espírito faz parte de uma centelha Divina.
Sara assentiu com a cabeça. Teresa continuou.
- e também sei que acredita que semelhante atrai semelhante, ou seja, que só chega até nós coisas, pessoas e fatos para os quais vibramos em igual sintonia, certo?
- claro,  isto mesmo!
- ótimo, até agora entendi tudo o que a senhora vem me contando. Por último, lembro que a senhora disse que se somos parte da Centelha Divina, não há nada que nos sustente ou nos fira que venha de fora, pois temos Deus dentro de nós, certo?
Sara olhou Teresa, e começou a rir:
- oh, Teresa, que vergonha! Eu esqueci de tudo o que falei, e me coloquei como vítima desta situação lamentável! Será que não aprendi nada?
- dona Sara, aprendeu sim, mas enquanto foi só na teoria, estava fácil. Agora seu teste está no nível prático: tem que aplicar em si toda a teoria que passou anos aprendendo. Enquanto estamos vivos, nosso aprendizado passa invariavelmente pelo corpo.
Sara abriu um grande sorriso, e seu rosto se iluminou. Falou então:
-Teresa, parece que acabei de acordar de um sono profundo! Que tola eu estava sendo! Estava me sentindo fragilizada como meu corpo, esquecendo de tudo o que aprendi.
-acontece, dona Sara. O que importa é que agora acordou, e pode ajudar a si mesma.
- hoje, quem foi o Mestre aqui, minha cara? – perguntou Sara, com os olhos marejados, olhando para Teresa.
Teresa sorriu, e respondeu:
- não existe Mestre nem discípulo, quando todos aprendem juntos.

E continuou a trabalhar, agora em silêncio, como se as duas absorvessem a intensa troca havida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

TERESA NO MERCADO

O mercado estava lotado. Dia de promoção. Teresa escolhia com atenção cada fruta, legume ou verdura. Tempo de chuva, os produtos estavam um pouco mais judiados e ela escolhia com atenção. Não deixou, porém, de reparar num senhor que a vinha acompanhando a cada gôndola. Em cada uma que parava, reclamava da má qualidade do tomate, da feiúra daquela alface ali, ou que as maçãs não estavam tão grandes. Sempre conseguia alguém para engrossar o coro de reclamações, e Teresa percebia suas expressões quase sorridentes ao conseguir dar continuidade às suas lamúrias com outro ouvinte.
Agora não era diferente. Por que, naquele mercado tão grande, o senhorzinho teimava em fazer o mesmo roteiro que ela? acabara de se afastar de onde estava o homem, sentindo a atmosfera pesada que se instalava entre ele e a outra senhora que reclamavam. Foi buscar as bananas e para sua surpresa, quando virou-se para coloca-las no carrinho, lá estava ele. Começando a reclamar também das bananas. Só que agora não havia mais ninguém, e ele reclamava encarando-a, solicitando o diálogo deletério.
- e então, a senhora não acha que estas bananas estão feias? Só porque é dia de oferta, eles escolhem os cachos mais pintados, com alguma banana amassada para pendurar. Já percebeu? – ele a encarava exigindo resposta.
Teresa respirou fundo – aquele era um de seus dias de silêncio – e olhou para o homem. O rosto enrugado, com sulcos pronunciados ao redor da boca e um enorme entre as sombrancelhas; as faces extremamente rosadas, a mãozinha se agitando para cima e para baixo. Colérico, pensou.
- o que foi que disse, senhor? – Teresa ganhava tempo.
- estou falando da qualidade das bananas, ora. A senhora não reparou?
- hum... peguei um belo cacho aqui, quer que eu escolha um para o senhor? – sorriu, dirigindo-se para o expositor com todos os cachos pendurados, tentando mudar o rumo da conversa.
- não, não! Eu sei escolher, ora essa! Então a senhora acha que está tudo bom, não é? A banana feia, a maçã pequena logo ali, o pé de alface desmilinguido... é por causa de gente como a senhora que o país não vai para frente.
Teresa olhou o homem, espantada com o comentário dele. Seu período de silêncio acabava de ser violado. Aquele homenzinho precisava ser posto no lugar.
- não estou entendendo a sua agressividade, meu senhor. Eu só estava querendo ajudar. E não entendo onde é que eu estou prejudicando os outros e até meu país com minha atitude. Mas agora eu quero que o senhor me explique.  – Teresa o encarou firmemente, e cruzou os braços.
O homem pigarreou e empertigou-se.  Piscou os olhos rapidamente, e parecia não saber o que dizer.
- pois então – recomeçou Teresa – vejo que o senhor estava me observando, não é, enquanto eu fazia minhas compras. Devo tê-lo incomodado muito e quero saber porquê.
- bem, a senhora tem uma atitude muito... muito...conformada! parece que não está vivendo neste planeta. Escolhendo no meio daquelas porcarias com este seu sorrisinho alienado no rosto. Eu já vi a senhora várias vezes aqui no mercado...
- ah, então realmente o senhor me observa, não é? Pois então, eu também o observei hoje. Sabe quando foi que o senhor elogiou algo aqui? Nenhuma vez. O senhor foi me seguindo em todas as gôndolas, e reclamou de tudo em que pôs os olhos.
O velho se mexeu, desconfortável.
- eu não reclamo do que está exposto porque, ao contrário do que o senhor pensa de mim, eu tenho consciência que em tempos de chuva os vegetais nem sempre estarão bonitos. Eles não nasceram aqui no mercado. Eu sorrio porque estou numa terra com tanta fartura que ainda assim tenho o que escolher, e tenho o que levar para casa para comer.
- está vendo? Uma conformista.
- o senhor pode pensar e me rotular como quiser, o problema é seu. Mas eu também não pude deixar de notar que o senhor reclamou de tudo, com todos que te deram oportunidade. Isto é pior do que ser conformista, o senhor sabia? Cada vez que reclama, o senhor está reforçando a situação ruim. Eu agradeço ao que encontro bom, porque quero que esta situação se repita e aumente.
- não estou entendendo. O que tem demais eu comentar?
- tudo o que falamos vibra, senhor. Cada vez que puxa conversa para reclamar com outra pessoa, o ar fica pesado à sua volta. A vida só vai lhe dar coisas ruins, porque o senhor fica procurando por elas!
- não é assim, olhe aqui, estas bananas! – e apontou para um cacho um tanto batido.
- é assim, sim, olhe estas aqui... – e Teresa mostrou vários cachos perfeitos, logo ao lado.
- eu não tinha visto... eu...
- o senhor só viu aquilo que quis ver. A questão não é só as bananas, ou as maçãs, ou o alface. Quando foi a última vez que agradeceu por algo?
O homem desviou os olhos para cima, procurando alguma lembrança. Continuou em silêncio. Teresa voltou a falar:
- pois então, faça um favor a si mesmo, aos que o cercam e ao país. Pare de reclamar e comece a agradecer. Agradeça o que tem em cada gôndola, que não foi destruído pela chuva, e que brotou porque não houve seca; agradeça a água na torneira. Agradeça porque ainda está numa democracia, e não numa ditadura. E da próxima vez que eu vir o senhor por aqui, quero ouvir um elogio, entendido?
- sim, a senhora me desculpe, eu nunca havia pensado nisto assim... – ele estava constrangido.

- é eu percebi. E agora, quer que eu escolha o seu cacho de banana? – Teresa sorriu para o homem, e deu-lhe uma piscadinha de olhos. Agora podia voltar para seu silêncio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TERESA E A MORTE

Teresa chamava sua velha amiga, que permanecia de olhos fechados, recostada no travesseiro imaculadamente branco. Sua saúde agora frágil contrastava com a mulher dinâmica que sempre fora.
- Déia, por favor, me responda, vá...
Déia meneou a cabeça, e resmungou um não. A filha entrou no quarto, deixou um copo de água para Teresa e disse:
- ela está assim há três dias; não consegue dormir de noite, me chama todo o tempo, com medo de dormir, e de dia fica sonolenta, como você vê.
- pode deixar, Bia, vou conversar com ela agora...
Teresa encosta a porta do quarto quando Bia sai, senta-se novamente ao lado de Deia e segura-lhe a mão branca e cheia de manchas senis. Deia abre um pouco os olhos, vira a cabeça para Teresa e fala:
- Teresa, não consigo dormir... me deixa dormir agora...
- agora eu vim cuidar de você, Deia, mas quero entender porque você está com medo de dormir... pode me contar?
- não sei, Teresa. Quando estou quase dormindo, começo a me agitar... vou te confessar: tenho medo de passar mal dormindo...
- sim, e se passar mal dormindo o que pode acontecer?
- não sei, Teresa... e se não conseguir chamar a Bia, o que faço?
- você está desconversando, Deia. – Teresa olhou-a e perguntou de novo: - se passar mal domindo o que pode acontecer?
- eu não sei...
-não sabe ou não quer dizer?
- não quero dizer, Teresa... você sabe, não sabe?
Teresa olhou-a e deu um suspiro. Lembrou daquela mulher guerreira, que desde a mocidade trabalhava num centro espírita, ajudara tanta gente, criara uma filha exemplar e afável dentro de sua crença, e agora estava com medo do confronto final.
- Deia, você está com medo de não acordar, se passar mal de noite?
- é acho que é isto...
- e como isto se chama, Deia? – Teresa deu-lhe um sorriso irônico, que Deia já conhecia bem.
- afe, como você é chata, Teresa! – Deia falou baixinho - Isto se chama morrer...
Teresa apertou a mão da amiga e disse:
- exato, isto se chama morrer.
- que vergonha, Teresa! Eu estou com medo de morrer!
- tenho que concordar com você, Deia! – Teresa deu-lhe novamente o sorriso irônico – você vai mesmo ‘amarelar’ no final do jogo? E tudo o que você viveu, seus anos trabalhando no centro espírita...  pensei que você acreditasse em vida após a morte, e não que fosse viver eternamente!
Deia começou a rir. Teresa a acompanhou, e se abraçaram.
-ah, garota, você tem um modo de fazer a gente enxergar as coisas... e morrer de vergonha! Que horror!
Ainda rindo, Teresa respondeu:
- Minha amiga, não posso deixar de ser sincera com você. Tenho muito orgulho de ser sua amiga, e mais ainda por saber que você é humana, e tem medos, como todos nós. E que é corajosa, e sabe admití-los. Diga para mim, o que você acredita, de todo o coração, que é a morte.
- para mim, por tudo o que vivenciei e estudei, a morte não é mais do que uma transição deste corpo físico para meu corpo espiritual.
-e você acha que isto será ruim, Deia?
-absolutamente! Este corpo está velho, cansado, doente. Meu espírito não tem estas limitações, eu poderei esta onde e com quem eu quiser com a velocidade de meu pensamento... – Deia respondeu entusiasmada, olhando para o alto.
- então, minha amiga, do que você estava com medo mesmo?
Deia pegou as mãos de Teresa, apertou-as e disse:
- minha jovem amiga, eu estava sendo ridícula. Obrigada por vir me ajudar!
- Deia, a verdade já estava com você. Eu só tive que te lembrar. Te admiro, viu?
As duas se abraçaram.

Bia ligou para Teresa dois dias depois. Era uma linda manhã de sexta feira. Deia havia morrido, dormindo. E sorrindo. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

TERESA NO MUSEU

 A tela antiga absorvia a atenção de Teresa, quando percebeu a moça elegante ao seu lado. O Museu era aonde todos se encontravam, pensou. Sorriu levemente para a moça, que lhe sorriu de volta e falou:
- nada como apreciar algo belo para melhorar o dia, não é?
- com certeza! – respondeu Teresa, percebendo que um diálogo se iniciava.
- hoje eu precisava disto. Fugi da minha empresa para ‘desestressar’ e... – a moça foi interrompida pelo celular. Atendeu soltando o ar preso nos pulmões, olhando para cima, como que em desepero, e depois de uma breve orientação a quem quer que fosse, desligou.
-viu? – dirigiu-se novamente a Teresa – é assim o tempo todo. Nem em casa, nem no final de semana tenho sossego...
Teresa meneou a cabeça sem saber o que dizer. Encaminhou-se para a outra tela acompanhada lado a lado pela moça elegante. A estas alturas ganhara uma companhia  no museu. A moça continuou a falar:
- sabe, gerencio um negócio de família, tudo reportam a mim. Como é cansativo! – falava com o olhar na tela, virando em seguida para Teresa – Ah, desculpe, eu é que devo estar sendo cansativa...
- não, sem problemas! – respondeu Teresa, lhe sorrindo – às vezes precisamos mesmo conversar com alguém. Aliás, meu nome é Teresa, e o seu?
- meu nome é Cristina; obrigada mesmo  por escutar. Nem sei porque estava te contando isto...
-vejamos... talvez porque te incomode? – respondeu Teresa, ao mesmo tempo em que apontava um detalhe no quadro que agora contemplavam – felizes eram estes aqui, que não tinham celular, não acha?
- ah, e como! – riu-se Cristina – era mais difícil por um lado, mas por outro... a simplicidade da vida que levavam...
- sim. Os dias de descanso eram sagrados. Trabalhava-se muito mas era dado a eles o direito de descansar.
-é... mas parece que não tenho mais este direito...
- como não tem? – retrucou Teresa – você sabe quem lhe dá este direito?
-não... a constituição? A religião? Não, não sei.
- oras, você mesma!
Cirstina abriu os olhos e encarou Teresa.
-Eu? Como assim?
Teresa a guiou par um banco, onde sentaram-se para apreciar os quadros. Mexeu em sua bolsa, pegou o celular e o mostrou à Cristina.
-está vendo isto aqui?
-sim...
- pois está desligado no momento.
- entendo. Mas eu estou em plena sexta-feira. Apesar de ser a dona, não posso me dar a este luxo...
- bem, se você diz... – Teresa arqueou as sombrancelhas, meneando a cabeça, euqnato voltava seu celular para a bolsa.
Sua companheira de banco voltou a falar:
-meu descanso é quando viajo, duas vezes ao ano. Escolho um destino na Europa e não há celular, e-mail nem nada para me perturbar...
Teresa concordou com a cabeça. Suas viagens eram diferentes, par dentro dos quadros, por exemplo. cada um viajava para onde queria, pensou. Cristina, olhando par cima, retomou a palavra, pensativamente:
- sabe do que tenho saudades?
- pois me conte.
- da minha adolescência. Eu ia com meus pais para nossa fzenda, e lá cavalgava o todos os dias. Adorava correr com Lorde, meu cavalo, e depois voltar e cuidar dele... naquela época não sabia o que era stress! – riu discretamente.
Teresa a olhou, um pensamento se formando, e com um sorriso maroto falou:
- que pena que esta fazenda não existe mais, não é?
- mas ela existe sim!  - respondeu Cristina.
- ora, então deve ser bem longe daqui, ou não tem mais cavalos por lá, Viramundo morreu?
- nem uma coisa nem outra. Não leva mais do que uma hora e meia até lá, e Viramundo continua firme.
- interessante. Porque você falou de uma forma que pensei... bem , deixe pra lá. Ao menos é bem mais perto que a Europa. – e deu um sorriso irônico.
A moça franziu a testa, inclinou-se para a frente como que para ver melhor o quadro e virou-se em seguida para Teresa.
- você... acha que eu deveria ir para lá? Lembro sempre da fazenda, mas vão me encontrar, eu não conseguiria relaxar...
-bem – Teresa levantou-se do banco, dirigindo-se para a outra ala do Museu – eu acredito que se telefone tenha a função ‘desligar’...
A moça, ainda não convencida:
-mas eles me acham pelo computador...
- imagino que possa desligá-lo por um tempo, desativar conversas... ou não leva-lo?
-nossa, nunca pensei nisto!
- pois então. Você é que vai estipular seu dia de descanso. Se trbalha tanto, tem todo o direito! Claro que viajar para outro país é sem dúvida delicioso, mas não pode se tornar sua única opção, não acha? Seu momento de descanso pode estar aqui e sem culpa, não acha? – Teresa apontou as telas da nova ala.
O olhar fixo no amplo salão, ombros de repente relaxados, Cristina sorriu para Teresa:
- nunca havia pensado desta forma! Como pude não enxergar algo tão simples? Estou me sentindo uns cem quilos mais leve! Obrigada pela conversa! -O telefone toca e ela o faz silenciar – agora não! – pisca para Teresa – depois desta ala, faço questão de que tomemos um café lá embaixo, sim?

- convite aceito! – Teresa assentiu, sorrindo, enquanto continuaram a apreciar os quadros com a alma mais leve.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

CURSO: AUMENTE SUA AUTOCONFIANÇA

Pessoas queridas, como alguns aqui sabem, eu também sou terapeuta. Alguns textos meus do blog, inclusive, são de cunho motivacional. Estou com um curso em São Paulo, na região de Santo Amaro, para iniciar em 04 de novembro, Serão sete encontros, durante sete semanas, para que os participantes trabalhem comigo e com a coach Denise de Sá para alcançarem a autoconfiança que precisam para terem a vida plena que merecem. 
A dinâmica do trabalho em grupo será dirigida por nós de forma agradável mas consistente. Contatos estão no folder, para informações e inscrições. O preço está super bacana, e há desconto para pagamento antecipado. 
Por que estou divulgando aqui? porque foi por meio deste tipo de trabalho que consegui ser o que sou: terapeuta, escritora, compositora, artista plástica. Venham , divulguem , compartilhem! Gratidão!

sábado, 17 de outubro de 2015

CONFISSÕES DE UMA SUMIDA

Acredite, relacionar-se é divino!
Sumi. Quem me lê por aqui bem que percebeu, não é? Mas fui sumiço dos bons. Fui cuidar de mim, colocar a vida, as ideias e as ações nos eixos. Fui lutar o bom combate, com os bloqueios que me atrapalhavam o caminho.
Nestes tempos em que todos acreditam em crise, eu fui acreditar em mim e em meu potencial. Cansei de creditar aos outros a razão das minhas quedas, falhas, faltas. Levei, sim, muito tempo para aprender isto, sou humana, mas aprendi que a energia que gasto tentando culpar pessoas e situações é mais bem gasta detectanto minhas falhas e pontos fracos, e trabalhando tudo isto para que eu me torne alguém melhor.
Quando comecei a parar de escrever, há alguns meses, me questionava se valia a pena acreditar nas pessoas, nas trocas saudáveis que sempre fiz questão de manter. Naquele momento eu estava me sentindo uma trouxa, enganada por pessoas de má fé, que de uma forma ou outra haviam explorado minhas capacidades e abusado de minha boa vontade, pessoas que não me pagaram serviços e sequer responderam a e-mails meus, quebrando mais do que laços comerciais ou de trabalho, mas a amizade que eu acreditava existir. Eu me sentia traída em minha essência, e pensei que devia parar e começar a agir diferente. Dei de não acreditar mais no potencial do ser humano, e achar que no fim eram todos uns bons filhos da puta, com o perdão da palavra.
A raiva finalmente havia minado o meu lado bom. E estava assim, achando que dar-se, doar-se, era algo ruim. Não saía nem mais palavras. Não iria dar mais nada para ninguém mesmo...
Foi quando me deparei com gestos de generosidade da parte de uma profissional. Voltei a reparar que as pessoas felizes consigo mesmas estabelecem trocas positivas com outras pessoas. Percebi que pessoas assim são bem resolvidas, e não tem problemas em dar-se, doar-se. Não tem medo de dividir seu conhecimento com os outros, para multiplicar este gesto entre aqueles que as cercam. Relembrei que há muito tempo eu já tinha este tipo de ação. E me perguntei: por que não tenho o mesmo resultado? Por que tomei tantas invertidas?
E neste meu período de silêncio e busca de respostas, obtive várias, e gostaria de partilhar. A primeira resposta foi que eu partilhava, ajudava, mas não acreditava no meu potencial interno. Segundo, eu não escutava a minha intuição quando achava que algo estava errado e me envolvia com pessoas cujas energias não ornavam com as minhas. Terceiro, eu fazia trocas porque achava que o que eu estava dando não tinha um valor intrínseco que pudesse ser cobrado. Sempre achava que o que eu recebia era melhor do que eu dava, e por isto as pessoas nunca se acharam na obrigação de retribuir a troca ou mesmo pagar pelos meus serviços. Por último, eu também não achava que podia pedir ajuda, e ficava sofrendo sozinha, ou lutando sozinha.
Depois de ter identificado estas respostas, aos poucos mudei a minha forma de pensar. Mudei também minha forma de agir. Primeiramente, voltei a estabelecer trocas com outras pessoas, ou mesmo ajudar, sem trocas, mas sempre escutando minha intuição, sentindo se eu devia ou não. Depois percebi que meu posicionamento em relação ao que faço mudou; valorizo todas as minhas facetas – escritora, terapeuta, artista plástica, micro empresária, cantora, compositora...- e isto mudou minha relação com as outras pessoas, que também me valorizam. E por último, parei de querer fazer tudo sozinha: comecei a pedir ajuda, uma mãozinha, uma forcinha... e finalmente percebi que eu estava certa quando acreditava que se podem estabelecer boas trocas entre as pessoas. E me encantei novamente com o mundo.

Por isto recomendo a todos: amem-se. Valorizem o que são e o que fazem. Invistam no potencial relacional, que é a rede de amigos e conhecidos que temos. Encantem-se com o lado bom do ser humano, não falem em crise, em maldades e atrocidades. Foquem no que há de bom. E a vida, com certeza, retribuirá com mais leveza. Namastê.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

GENTE DESBRAVADORA

Sempre gostei de pessoas desbravadoras. Provavelmente por ter passado a início de minha vida movida a covardia e comodismo, admirava àqueles que trilhavam seu próprio caminho. Sem perceber, e por falta de escolha melhor ou mais cômoda, fui colocada numa situação em que tive que desbravar uma nova cidade, fazer amigos, contas, saber controlar minha própria vida. Eu tinha 18 anos.
Ao sair daquela experiência, fui jogada em outra. Com 22 anos, eu acompanhava, apaixonada, o homem da minha vida para outro país, sem nem mesmo falar a língua. Novamente precisei me ajustar a situações, desbravar um mundo totalmente desconhecido para mim. E aprendi muito com estas experiências.
Hoje, tantos anos depois, tenho uma filha que seguiu o destino de desbravar. Deve ser algo contido no sangue. Hemácias efervescentes, talvez. Ela porém, não teve nunca a covardia e o comodismo para se escorar. Desde pequena sabia o que queria. Convicta, fez escolhas com idade em que outros só recebem ordens.
Com seu gênio forte, passou por cima de convenções, esbravejou muitas vezes, mas nunca perdeu seu foco. Não se conformava com “não pode”, ou “isto é impossível”. Para ela não havia impossibilidades, porque mais do que sonhar, ela corria para enfrentar os leões que apareciam, e partia para a ação.
Escuto muito falar sobre crenças limitantes. Eu mesma fui fiel depositária de várias delas. Mas fiz questão de não encher a cabeça dela com estas crenças. Acho que o serviço foi bem executado. Ela nunca acreditou que um orçamento apertado a impedisse de viajar para fora do país, e eis que sua determinação a levou à Irlanda.
Eu e o pai ajudamos, sim. Talvez impulsionados por sua convicção, não duvidamos um só momento sobre o fato de que teríamos todas as condições de enviá-la para outro país. Mas a ajudamos também porque aquela baixinha, pimenta e esquentada guardou cada centavo que recebeu em seu primeiro emprego, e depois no segundo, para poder ajudar nas despesas necessárias com a viagem.
Mais importante: ela sabia que teria que trabalhar no outro país, e não foi iludida, nem esperando o dinheiro acabar para buscar um trabalho. Ao chegar na Irlanda, carregava consigo um pequeno currículo, com suas experiências até então, vertido para o inglês por sua tia. Com uma semana no país, já havia distribuído um monte de currículos, em tudo quanto é biboca irlandesa, buscando um trabalho.
Ao findar um mês na nova terra, saía da casa de seus “pais irlandeses” (com quem mantém amoroso contato até hoje) e ia morar no seu primeiro cantinho, por conta própria. A esta altura, já havia arranjado seu primeiro emprego, e podia se sustentar sozinha.
Passados menos de seis meses, esta desbravadora, munida de listas, conselhos sobre métodos GTD, PNL, e muito pensamento e comportamento positivo, estuda, trabalha para se sustentar, viaja aos poucos pela Irlanda quando pode, e começou agora a conhecer outros países.
Não tem medo de nada. Vai sozinha mochilar, se hospeda com couchsurfing, e vive. Todos os dias. Se bate a saudade? Ela diz que sim. Eu digo para que descanse até a saudade passar, e continue vivendo este momento único.
Porque sei que estamos longe, mas tudo o que somos está gravado nela. Como sei? Hoje ela postou em seu facebook uma foto com flores enfeitando sua casa, dentro de garrafas, dizendo que foi influenciada por minha convivência... algo tão banal, mas que deixou marcas até em como enfeita sua casa!

Sempre gostei, como disse, de gente desbravadora. Minha filha tornou-se uma. Posso ter influenciado, mas se ela não quisesse, nada teria acontecido. Espero que este espírito a acompanhe até o último dia de sua vida. Bem vivida.

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...