Mostrando postagens com marcador dor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Subterfúgios

Me dói saber que não encontro eco em ti. Me sinto com frio. Falta de abraço. Falto de teu laço, de teu jeito, de te amor em mim. Teu silêncio não é aceite, é buraco. Teu silêncio não é palavra, é negação. Sinto que tu te afastas. Medo? Raiva? Largaste já meu coração? Pois então porque sinto ainda o aperto nele, comprimido por tua mão?
Ah! Que queres de mim? Que te conte tudo, dos sentimentos, dos pormenores, da angústia no meu peito? Assim tu foges mais depressa. Não, vou te enganando com belas palavras, canções mornas, que não te amedrontem. Bruxa velha querendo comer criancinhas... não me deixes assim, num monólogo. Tu sabes que machuca, não é? Que faço com esta vontade de me abraçar até apertar tudo, vísceras, músculos e alma, para ver se passa a dor profunda que me atravessa?

Queria o teu cheiro perfumado, tua pele boa, teu amor guardado... mas só tenho o nada, o vento, ideal emprestado. Me ame, me chame, me diga claramente o que quer. Eu então te direi, que só quero ser tua mulher. Enquanto vierdes com silêncios e subterfúgios, nada posso te dar. Quando vierdes com certezas, posso, enfim, me revelar...

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

EMPATIA

Queria te entender
Até o cerne
-mas não.
Queria sentir tua dor
-mas como?
Saberia te responder
Dar guarida
Cuidados
Se te soubesse do avesso?
Ou me enredaria
No teu novelo
De medos e tristezas
Antigas
Que me ofereces
Com olhos baços
E semblante triste?
Te miro
E entro no teu ritmo.
Meu peito fica opresso
Como se enorme pedra
Me prendesse ao solo,
Sem expectativa
De salvar-me.
Saio do teu ritmo,
Não preciso disto.
Águas abissais
Agonia, opressão...
Não.
Te ofereço, de fora,
Sim, de fora do poço,

Minha mão.
Foto de Heitor Augusto Mendes.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

CAÍDO


E tudo, tudo fica dançando na minha frente. Tenho vontade de dançar, mas com quem, porque, para que? Tenho vontade de dançar, para espantar a vontade de chorar que me amarra a garganta. Escondo a vontade, e fico vagueando pela casa, como perdido, desencontrado que estou de mim e de meu mundo.
Minhas costas doem. Há um nó, que veio da garganta e desceu pelo meu ombro, e depois, desceu, mais um pouquinho, no lugar onde cortaram minhas asas. Sabe? Como o anjo da asa quebrada, da asa cortada. Acho que a minha cicatriz dói, dói. Principalmente  quando o frio chega, e nos faz ficar quietos, pensando na vida, tentando lembrar do que já esquecemos, e tentando esquecer o que não paramos de lembrar. Como ser gente é complicado. Preferia ser anjo, e ficar cantando nas alturas, glória in excelsis. Agora, glória só quando ganha o time de futebol da rua ao lado, quando os meninos, molhados de suor, se abraçam, sonhando glórias internacionais e chuteiras de dez mil dólares.
Minhas asas murcharam quando foram cortadas, sabe? Na verdade não sei se eu é que murchei, e elas ficaram ali, intactas, ou ao contrário. Perdi minhas macias penas, só me sobraram os duros ossos, a carne que agora perdeu o viço da eternidade. E eu que desprezava o eterno... achava tudo tão igual, tão perfeito e enfadonho. Hoje tenho saudades de minha casa, mas as dores me mostram que vim para onde eu queria. Aqui não há iguais, tudo é diferente. Todos querem ser mais e mais, e isso dói, eu sinto a dor do mundo na minha carne.
Sim, caí, me quebrei, me dei mal. Os nós que cruzam meu corpo parecem contas de colar, de tão tensos. Não sentia nada disso quando cantava glórias, quando tinha asas, quando namorava o eterno. Quebraram minhas asas... depois cortaram minhas asas...olhaí a cicatriz, atrás do ombro. Não viu? Mais perto, pode mexer, é a ponta do osso, que ainda machuca minha carne. Não sou mais anjo, mas ainda durmo de bruços, para não machucar a lembrança das minhas asas perdidas.
No céu todos estavam juntos, em harmonia. Eu achava tão monótono (será que já falei isso?), e hoje me canso com a solidão. Por isso sempre estou no meio de multidões em festa. Preciso me sentir vivo, pulsante, no ritmo de todos os que passam por mim e não me veem; aqui ninguém vê a ninguém, só se houver  um bom motivo, um grande interesse. Minhas costas doem, já falei isso? Um nó, aqui, onde cortaram minhas asas...


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MEU TEMPO


          Hoje meu tempo é de silêncio. Guardo a energia para boas batalhas, há muito deixei de lutas vãs. Não se engane achando que perdi a alegria; ela é taça de vinho com a qual comemoro a diário o presente que é a vida. Mas hoje, a vida vem em silêncio.


          Hoje meu tempo é de silêncio. Rebusco memórias, embrulho segredos em papéis de seda, bem guardados, a prova de quedas. Enveredo por alamedas de perguntas a respeito dos que se vão de nossas vidas, e recebo em resposta outra pergunta: será que algum dia eles estiveram nela? Pergunto da importância que damos as memórias que guardamos no corpo, da veracidade dos sentidos para mim e para o outro. Somos seres que transformamos química em memória, e nos ancoramos nelas.E minhas memórias balançam em silêncio no cais de meu corpo.


          Hoje é tempo de silêncio. Busco meus punhais enferrujados, meus escudos já rachados, e os ponho numa grande fogueira. Já não me servem de nada, estou em tempos de paz com o mundo. A guerra que travo é comigo mesma, e para esta guerra, preciso de um grande espelho que me desnude, que me traduza. O pequeno espelho que tinha não me dizia toda a verdade. Quebrei-o, e hoje busco no tato saber-me em meus contornos, minhas rugas, minha tessitura. Não sei e não me importo se sou alva ou negra. Neste meu silêncio, introjeto o Ser.


E hoje é tempo de silêncio. Tempo de ler mensagens entre as linhas e entre as letras, tal qual estranha pauta musical, que pode me remeter a adagios ou allegros que repercutem no meu instrumento corpo. É tempo de soletrar ausências e sentí-las "Dor" agora, para que passem a ser algo com que eu me reconheça depois; tempo de decidir se sofro a dor imposta ou a devolvo ao impositor. Dor, vinagre, ferida sempiterna, não a quero mais, penso. Mas quem me garante que não a queira ainda sentida? Eis a questão.


Hoje é tempo de levantar a taça do bom vinho à vida que passa silente, enquanto meu corpo busca sinfonias no caderno da memória.

         

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...