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segunda-feira, 5 de maio de 2014

BOLERO

Penumbra. Na mão enrugada, um copo com conhaque. A camisa para fora da calça, amarfanhada, os cabelos ralos em confusão, os olhos baços de bebida. Ao seu lado, no sofá de couro velho, um porta retrato. Foto antiga. Nada de máquinas digitais ou Polaroid. Filme, 24 poses, asa 400, para dia e noite com a perfeição das cores da natureza. Ele olha a foto, esmaecida pelo tempo, e sorri com o canto do lado direito do lábio. Acaricia o vidro do porta retrato, como se outras sensações menos frias pudessem ser reavivadas.
Levanta do sofá. Vai em direção a eletrola, e coloca novamente o LP para tocar. Velhos boleros, imortais. Sim, eles, pelo menos. Trini Lopes começa a cantar, afinadíssimos, outros tempos, pensa, eram outros tempos e éramos outros, também. Mas Trini Lopes não era imortal, acho que todos, todos morreram. Ao pó retornarás, prometeram as escrituras. Realmente. E por que eu, ainda aqui?
Volta para o sofá, e acende uma luz, antes de inclinar-se para pegar o porta retratos. Olha o rosto ali eternizado. Sofia. Sofi. Sua Sofi. Passa as mãos nos olhos, como se quisesse acordar. O conhaque ainda está no sangue, e lhe entorpece os sentidos. Decide ir para o quarto.
Cama vazia, desta vez. Ele deita. Sofi, Sofi. Por que? Tira o sapato de couro envernizado, desce a calça do terno usado há pouco, e se cobre, encolhido. Pega o travesseiro ao lado. Ainda tem o cheiro dela. Recorda de seu sorriso, moça, dentes alvos, meio tortos, mais parecia uma menina. E quando lhe anunciou que estava grávida, feliz. Ele também, claro. No casamento do filho, único rebento, suas feições já desgastadas pelo tempo ainda eram belas. Segurou sua mão com força, lembrava, enquanto caminhavam pela nave da igreja.

E quando dançavam, ah, Sofi! Sabia acompanhá-lo como ninguém, e amava ouvir e dançar boleros. “Pasarán mas de mil anos muchos más...” ... e ainda vou levar o teu sabor. Pena que o sabor amargo de suas confissões, nos último dias, sobrepujassem o da dor pela sua perda, pensa ele. Pena ela ter morrido para ele no instante em que declarou que amara outro por toda uma vida, com medo de morrer sem perdão por suas mentiras. Ele não achou que fosse matá-la duas vezes, quando a sufocou, dormindo, com o travesseiro. “…Que yo guardo tu sabor, pero tú llevas también sabor a mí…” A música para, na sala. Ele cerra os olhos, e chora.



- este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

HÁ DE SE TOCAR SOMENTE COM OS OLHOS...

álbum de família



O passado revira no presente, mas não podemos revisitá-lo, nem pisá-lo com os mesmos passos, calçando os mesmos sapatos gastos. Há de se pisar nele vestido de memórias, e, tão somente, tocá-lo com os olhos. Se mergulharmos em nós mesmos atrás das antigas emoções, depararemos com emoções caudalosas, que nos tragarão. Não! Há de se tocar no passado somente com os olhos...
Evocações breves, nomes soltos no espaço, cenas antigas, sempre me fizeram voltar a espiar pelas janelas do tempo. Tentei, e tentei em vão, usar os mesmos sapatos para pisar aqueles ladrilhos vermelhos, usar minhas mãos para tocarem outras mãos novamente, sentir o plissado do vestido de seda amarela que me caia tão bem... mas faltava a carne, o vívido, o concreto. Percebia que flutuava, e cada esforço para me colocar no chão era permeado de uma grande angústia, e me dei conta, então, que quando estamos no passado somos fantasmas de nossa história, seres desencarnados querendo voltar para um corpo que não nos pertence, para uma emoção que não nos anima mais.
Nas evocações que me fazem voltar para o passado, redescobri a menina que um dia eu fui, fazendo buracos no morro de argila branca, amaciando-a com água e modelando-a em pequenos pássaros. Esta menina que não mais habito sorria sem abrir os lábios, para não mostrar a falta do dente que caíra, e limpava as mãos de barro em sua roupa de sítio, chinelo nos dedos. O  sol suave de outono lhe caía em cheio naquele cenário, junto com a brisa fresca que mexia em seus cabelos cacheados e seus olhos sorriam. Plena ela era, plena. Sabia-se a si mesma naquele instante, não duvidava porque desconhecia, e a inocência a protegia da angústia de não ser aquilo que os outros gostariam que ela fosse.
Nas evocações que me chamam para o passado, aquela menina se preparava com um vestido amarelo para dançar. Não sabia dar nome para a alegria que sentia, então vestia--se de delicadezas para o garotinho que a fazia sorrir, e o fazia sorrir também. Os véus da palavra ainda não haviam sido levantados para eles. Não nomeado, o amor era livre para estar onde queria, sem vergonhas, medos e pecados. O amor era e não era em si mesmo, porque assim não fora chamado.

O passado revira no presente, e vejo a menina de mãos dadas com seu pai, se equilibrando na guia da calçada, descendo a ladeira rumo ao mar. A imensidão de areia branca, convidativa, as gaivotas que voavam em profusão, arremetendo no mar logo á frente, buscando seu pescado. E a menina, esta que eu fui, respirava fundo, falando sem parar, confiante, escorada pela figura ao lado. Não posso mais pisar os mesmos passos, então flutuo. Não posso ser mais esta menina, então a contemplo. Não posso mais entrar dentro dela, mas a levo, intacta, aqui dentro, vestida de memórias, e tão somente a toco com os olhos...

- este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

VELAS - in PROJETO "CADERNO DE NOTAS'

E para esta terceira semana o tema é 'Em algum lugar em mim'. Acompanhem as escritoras participantes em suas expressões singulares!



        As velas estão acesas. Não há nenhum motivo especial, somente a falta de luz que acompanha esta chuva de primavera. Gosto do ambiente assim, em tom de sépia, como foto antiga.  Voltar no tempo, meses, anos, guardados nos sótãos da memória. Singulares momentos em que a plenitude em mim foi tanta que  o ‘eu’ tornou-se superlativo. Extrema lucidez, consciência do segundo transformador, da palavra ou gesto que redimiram, livraram e marcaram minha alma antiga.
        Na luz das velas, antigos amores se delineiam. Amores que não deram certo, amores que deram errado, amores que não saíram do papel, ou que somente foram inventados. Sim, sei que o licor adocicado me deixa assim, sentimental. Desculpa? Licor é uma desculpa deliciosa, convenhamos.
        E lá está, na luz da vela da esquerda o meu ‘encosto’. Sempre que o via a pele arrepiava. Os pelos eriçavam, o estômago contraia, a respiração ficava... diferente. Mas a fleuma era minha companheira, não havia nada que me delatasse. Nossos modos, evasivos, os olhares que se desviavam, a corrente que se propagava de um corpo a outro... na vela da esquerda está o ‘encosto’ que deu valia ao meu caminho, quando se desfez em palavras de amor. Descobri que ser amada, ainda que em pretérito imperfeito, faz a alma se sentir completa, tornar-se maior por acréscimo. Lhe entreguei meu amor antigo, de outras eras, ainda que fosse só para recordação, em linhas e mais linhas, lágrimas e mais lágrimas, mas temo que ele não tenha percebido. Pouco importa. A vela da esquerda agora é somente chama, acima da cor rubra.
        Na vela da direita bruxuleia outro rosto. Macio, alvo, olhos claros perdidos em outro tempo. Fez o papel de ser luz dentro de mim e buscar nos meus recôndidos minha potência. Quando eu me desacreditava, dizia: creio em ti, vá em frente. Esta da direita era o anjo que aparecia noturnamente, me olhava com olhos antigos, e me declarava o seu amor de essência para essência. Ele me via, e isto é tudo. E no dia em que o tempo parou, a consciência clara de um segundo me avisou que não mais o veria. A vela agora é chama alta, apontando para o teto.
        No fundo da sala, outra vela dança. Sedutora, fez-me recordar de corpos colados dançando, do perfume antigo de homem que impregnou incessante minhas lembranças, e da primeira consciência que eu habitava um corpo. Da camisa que ele usava quando chorou pedindo para que eu me afastasse, sem, porém, me soltar de seu abraço.  Aqui a falta do ópio de sua pele foi a consciência que ganhei, e a plenitude era de dor, pois ainda só me sabia inteira através do outro. Paixão de moça, a vela dança, apaga a chama.
        O licor continua delicioso. As velas espalhadas, o frescor do vento que veio com a chuva completam esta noite. Dentro de mim, em algum lugar, há um altar para todas estas velas. Para os momentos em que sair do corpo não era só uma expressão, falar com a alma não era uma metáfora, e estar inteira não era algo subjetivo. São momentos que me faltam, pois o êxtase não é continuidade; é relâmpago na escuridão, que ilumina e tudo mostra, mas se vai, trazendo o som, a consciência ampliada, no segundo seguinte. Retomo o instante da consciência, me revigoro, e apago as velas. Sussurro: a luz agora está em mim.


p.s: e para o amor que vingou, não há palavras nem velas. Só as mãos dadas que permanecem como testemunho...

sábado, 27 de julho de 2013

DE REPENTE




De repente, algo evoca tua lembrança. Maré mansa, depois tempestade. E meu barco, perdido, sem porto, sem cais. Teus olhos fundos, abissais, me chamando como sereias chamam seus homens para se perderem. E os devoram, afinal, nunca as decifraram...
De repente, algo te traz para perto de mim. Tuas cálidas mãos, há muito perdidas nos escombros das memórias em desuso, tateiam novamente meu rosto, me chamam de bela na linguagem dos cegos. E tu me redesenhas como se eu fosse a Vênus que saiu de novo de uma concha.
De repente, teu hálito vem terminar em meu pescoço. Teus braços me envolvem, enquanto vemos o céu de agosto, negro e cheio de estrelas, e aquela antiga lua, testemunhando nosso desencontro, sempre. E cá me encontro, novamente, sozinha, enquanto tu és semente de memória.
De repente, e isto parece um pesadelo que não finda, escuto tua voz me inquirindo, sinto teus braços me soltando, e meu desenho se apagando. Teus olhos não me afogam mais, não me chamam mais. Eu acordo, e tento dormir novamente, para voltar a sentir olhos, mãos, respiração e abraço, mas sinto que desintegro, me desfaço neste desencontro.

De repente percebo: o teu silêncio é o que ainda me alcança. E nele, abraçada nele, durmo, como se fosse a última peça de roupa com teu cheiro, o teu pedaço que me cabe, a tua indiferença fazendo o sentido que não tem. E nesse dessentido me agarro, pensando que de tanto me amar, silencias, somes, sendo meu nunca e meu eterno não.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MEU TEMPO


          Hoje meu tempo é de silêncio. Guardo a energia para boas batalhas, há muito deixei de lutas vãs. Não se engane achando que perdi a alegria; ela é taça de vinho com a qual comemoro a diário o presente que é a vida. Mas hoje, a vida vem em silêncio.


          Hoje meu tempo é de silêncio. Rebusco memórias, embrulho segredos em papéis de seda, bem guardados, a prova de quedas. Enveredo por alamedas de perguntas a respeito dos que se vão de nossas vidas, e recebo em resposta outra pergunta: será que algum dia eles estiveram nela? Pergunto da importância que damos as memórias que guardamos no corpo, da veracidade dos sentidos para mim e para o outro. Somos seres que transformamos química em memória, e nos ancoramos nelas.E minhas memórias balançam em silêncio no cais de meu corpo.


          Hoje é tempo de silêncio. Busco meus punhais enferrujados, meus escudos já rachados, e os ponho numa grande fogueira. Já não me servem de nada, estou em tempos de paz com o mundo. A guerra que travo é comigo mesma, e para esta guerra, preciso de um grande espelho que me desnude, que me traduza. O pequeno espelho que tinha não me dizia toda a verdade. Quebrei-o, e hoje busco no tato saber-me em meus contornos, minhas rugas, minha tessitura. Não sei e não me importo se sou alva ou negra. Neste meu silêncio, introjeto o Ser.


E hoje é tempo de silêncio. Tempo de ler mensagens entre as linhas e entre as letras, tal qual estranha pauta musical, que pode me remeter a adagios ou allegros que repercutem no meu instrumento corpo. É tempo de soletrar ausências e sentí-las "Dor" agora, para que passem a ser algo com que eu me reconheça depois; tempo de decidir se sofro a dor imposta ou a devolvo ao impositor. Dor, vinagre, ferida sempiterna, não a quero mais, penso. Mas quem me garante que não a queira ainda sentida? Eis a questão.


Hoje é tempo de levantar a taça do bom vinho à vida que passa silente, enquanto meu corpo busca sinfonias no caderno da memória.

         

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...