terça-feira, 3 de setembro de 2013

DIA GRIS

         Começo este dia como nenhum outro. Nunca vivi este dia, ouvi esta melodia, reparei naquele pássaro... a falta de juventude no corpo, aquilo a que chamam idade  que passa, nos traz, se quisermos, juventude na alma. Pois quando jovens, somos tão velhos! Cheios de preocupações, despedidas que a nada nos levam! Perdemos o que está a nossa frente, buscando o que ainda não nos pertence.
         O tempo passa, e vemos a pouca importância disso tudo. Percebo hoje o quanto perdi tentando ganhar, e quantas vezes ganhei, certa de que perdia. Tive segunda chance na vida, e a ela me agarrei. Meu espírito é velho, antigo, mas não acabrunhado. Não apagado. Hoje ele brilha mais do que nos meus vinte anos, quando namorava com a melancolia. Quando achava que ser triste era a arma do poeta.
         Hoje bebo mais vinho, canto mais sozinha, danço sem vergonha de ser pesada e grande, pois sei que o pior é não dançar, não beber, não cantar. O pior e não ter vontade de viver. O pior, e é clichê, é não estar vivo quando se está respirando.
         E por isso, somente por isso, meu dia começa leve, gris, como quis o poeta. Mas é somente pano de fundo para minha alma passarinha, que sempre procura a liberdade nas manhãs, quando outros pássaros cantam na copa das árvores, chamando para que se veja que há vida fora das gaiolas que tecemos em nosso entorno. Minha alma passarinha deseja a todas as outras almas bom dia...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

PARTICIPAÇÃO NA ANTOLOGIA GLOBAL/UBE DE TEXTOS BREVES

Felicidade! estarei na antologia da União Brasileira de Escritores com a Global editora, participando com uma poesia. Muito me orgulha, pois estarei cohabitando este espaço com autores nacionais de peso. para saberem mais, acessem o link.

http://www.ube.org.br/noticias-detalhe.asp?ID=816

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DONA BRANQUINHA

Perdida em meio aos meus ais, encontro motivos toscos para todos eles. Afinal, de que serve uma melancolia sem motivos? Nem que seja a leveza que me traz o copo de vinho, nem que seja a estranha certeza do teu amor antigo, que ainda permanece comigo.
Perdida em meio aos meus ais, me sento no alpendre da casa antiga com sempre renovada disposição de sofrer por ti. Sim, pois que envelheci, assim, seca de amor, esses caminhos em minha face, esses meus cabelos rajados de branco, nunca mais cortados desde o dia que te vi partir prometendo que voltarias. Minha trança conta os anos de lonjura em cada nó, e eu fico aqui, só. Poderia ter sido avó, antes poderia ter sido mãe, se tivesses me possuído.
Mas cá estou eu, perdida em meio aos meus ais, colo vazio, ventre improdutivo, perdido para o destino das mulheres. Que prazer tive eu, que pouco ou nada tive de você? O prazer imaginado das moças antigas dos interiores, onde recato era moeda de troca no mercado vigente... o prazer de poder andar de mãos dadas contigo, em tardes perfumadas pelos jasmineiros em começo de primavera, o prazer de poucos beijos roubados, assim, na curva antes de chegar ao muro da casa, quando um olhar rápido nos assegurava a ausência de um vigia.
Lembro-me de teu sorriso franco, de tuas declarações, hoje tão infantis, nas cartas amareladas que guardo no fundo de minha gaveta. Lembro do frio que corria minha espinha quando me enlaçavas para dançarmos, em nosso bailes interioranos. E minha caderneta de dança era só tua... hoje danço sozinha, e pouco me importa se me vejam. Já estou na idade da senilidade, que pensem o que quiserem.
E aqui, perdida em meio aos meus ais, me vejo na plataforma do trem, me despedindo de ti. E vejo teu olhar brilhando, teu sorriso triste, e escuto tua promessa. Será que realmente aconteceu? Não posso precisar, pode ser o vinho, pode ser minha vontade de que realmente tivesse acontecido... as lembranças já nada são, que importa se criadas ou vividas? Me contento com elas, revivo, sinto novamente, remoço por dentro.
Mas não voltaste. Lembro de pessoas chegando aqui nesta casa, neste alpendre, me chamando. Lembro... de não lembrar de mais nada. Não sei quem te levou, não consigo lembrar como partiste. Não houve corpo para velar, nem missa de sétimo dia. Pus teu nome nas intenções da missa, e enlutei. Do teu amor fiquei viúva. Mas vesti branco, a cidade estranhou, minha família estranhou. E eu disse: de negro já vai a noiva Morte, com ele. Eu sou a amante, e de branco eu vou.

E hoje dona Branquinha eu sou. Perdida em meio aos meus ais, cartas antigas e nós no trançado, como os das árvores, dando a data, a precisão do amor que ficou em mim. Neste velho alpendre, uma certeza eu tenho: do teu amor antigo, constante e amigo.

GAIJIN



Somos estrangeiros.
Imagem desfocada
Na paisagem do país
Em que vivemos.
Diferentes,
Face, corpo,
Pensamentos.
Um estrangeiro em seu país:
Jardim de rosas de sua casa.
Um estrangeiro no estrangeiro:
Pedra, cinza, pinheiros, templos.
O escuro dos templos
Combina com branca pele,
Cabelos de ébano
E olhos rasgados,
Discretamente cinzelados
Com riqueza deslumbrante.
O estrangeiro combina
Com cores, vida, liberdade,
A não-domada consciência.
De tudo, a essência
É a mesma,
Mas alteram-se as formas,
Elaboradas

A partir do vivente espaço.

MATINAL


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

UM VELÓRIO EM FAMÍLIA ou COMO TEU RISO FARÁ FALTA

                Hoje voltei do velório de meu tio, irmão mais novo de meu pai. São Paulo é grande, e a família está espalhada, então as ocasiões de encontro acabam sendo casamentos, nascimentos e falecimentos. Não somos do tipo de família que se vê sempre, mas sempre que todos se juntavam, este tio, o terceiro dentre quatro filhos que minha avó teve, se destacava por estar sempre fazendo a todos rirem.
         Acho que isso vem desde o nascimento. Minha avó já tinha dois garotos, e sonhava em ter uma menina. Quando engravidou pela terceira vez, tinha certeza que vinha a sua garotinha, e fez um enxoval todo cor de rosa. E aí, meu tio Clélio nasceu...
         Sei, pelas histórias que minha avó contava, que ele foi o único dos filhos que aprendeu um instrumento musical. Também foi o primeiro a sair de casa, arvorar-se a ser feliz sozinho. Do mais, sei que se casou com a mulher que continuou amando por toda vida, por ser tão divertida quanto ele, e com quem teve quatro filhos.
         O que interessa são os momentos de encontro. As lembranças que eu tenho, desde menina, eram de um tio que adorava fazer um churrasco para todo mundo, contar piadas – e fazer piadas- de tudo e de todos. Contava piadas em casamentos e em velórios, não nos deixava chorar, nem ficarmos sérios. quase perdíamos a compostura, tentando não explodir em gargalhadas. Falava com aquele sotaque inconfundível de filho de italiano, e cantava paródias até de ponto de terreiro...(quem não lembra, na família, do ‘xuxu da meia noite’?).
         Hoje, no velório, fiquei pensando nas palavras que usamos quando alguém morre. Uns dizem que faleceu; outros dizem que desencarnou; outros dizem que foi para o seio do Pai; e eu gosto de dizer como na religião japonesa do meu marido: que a pessoa ‘retornou’. Ela foi de viagem, mas numa perspectiva que aqui era a passagem.
         Ele foi rapidamente, e fazendo o que gostava: assistindo um jogo de futebol do Timão, fidelidade herdada do meu avô ao Corinthians. Tinha se preparado para sair, e eu acho que ele se preparou bem para o seu ‘retorno’. Ele acreditava, tanto como eu, que a vida muda de estado, e estamos às vezes na  carne, às vezes no espírito, mas sempre num eterno ir para algum lugar.

         E, finalmente, eu senti falta de algo que sempre presenciei em todos os velórios de nossa família, e que nesse, eu não vi: ninguém soube fazer-nos rir hoje, não ouvi ninguém contando piadas... é, realmente o tio vai fazer falta aqui. Mas, com certeza, deve estar fazendo rir a quem já está do lado de lá.
meu tio, de 'pai da noiva', fazendo o que sabia de melhor: sorrir.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

TEMPO CRISTALIZADO

Campos de lavanda ainda irão me envolver.
Tempo cristalizado e imortalizado
Numa foto,
Onde estarei sorrindo
Satisfeita.
Talvez faça uma montagem
Com minha juventude
Num campo de lavanda,
Resgatando a moça
Romântica
Que morava em mim.
Será que me sentirei
Completa enfim?
O galã estará ao lado
Recitando poemas
Para que nossas almas
Não se tornem pequenas.
Nossas mãos estarão unidas,
Para que a foto esteja perfeita
E a ilusão, convincente.
Depois, publicarei
Minhas ditosas aventuras
No velho continente
Que nunca pisei,
Tomarei a última dose de morfina,
Estriquinina,
Ou baterei com força minha cabeça numa quina,
E ilusionada e satisfeita

Partirei.

DEUS ME LIVRE

         Deus me livre desta tristeza que me toma, desta vontade de chorar fora de hora, desta vontade de não mais lutar, ou sonhar, ou ser forte. Deus me livre. Deus me livre deste olhar triste, deste canto de boca caído, desta sensação de incompetência em viver, inabilidade em sentir felicidade, Deus me livre.
         Me livre também desta consciência que me pesa, não por ter feito muita coisa errada, mas, ao contrário, por ter tentado sempre ser tão certa. Deus me livre deste remorso que me consome, por não ter fugido com o circo, tido um filho com o trapezista, me apresentado em qualquer pequena cidade perdida neste mundo, pintada de vagabunda e pensando ser artista. Deus me livre.
         Deus me livre dessa ignorância que me consome, e que tento sanar engolindo palavras, livros, compêndios. Deus me livre dessa gana de ser mais do que minha própria pessoa, e que me tira o sono, noite sim e outra também.
         Deus me livre desta falta de humor que me tem perseguido, consumido, engolido. Era mais feliz quando era sarcástica e ácida com minha própria história. Agora que vejo quem sou, ai, Deus me livre, me descontento todo dia...
         Que eu possa contentar-me com coisas simples, como um prato cheio na minha frente, o lençol limpo na minha cama, e a novela das seis, sete e oito a me esperar, avidamente, para aumentar o número do ibope. Que eu possa contentar-me em ouvir as vozes no rádio, e não cantar; ouvir instrumentos, e não tocar; ver belos desenhos, e não encostar o carvão no papel em branco, amarelado de tanto esperar.
         Que eu possa contentar-me em ser somente mais uma dentre a multidão, que faz churrasco aos domingos e entorna muita cerveja, para rir e falar bobagem sem ter culpa no cartório. Que eu possa esquecer sonhos mirabolantes, porque quem nasce pra tostão, não chega a vintém, e seguir com todos os navegantes.
         Deus me livre da existência sofredora que tenho, cheia de consciência; quero a ignorância dos inocentes, dos desajuizados, dos iletrados, que não sabem e por isso também não são cobrados.
         E por fim, e pensando bem, se Deus não puder me livrar de mim mesma, então que me dê sabedoria e clara vidência, para que possa cumprir minha sina com dignidade e um sorriso bobo no rosto, como todos os iluminados o fizeram, segundo constam nos compêndios possuídos pelas traças, e que herdei da bisavó do retrato.

sábado, 27 de julho de 2013

DE REPENTE




De repente, algo evoca tua lembrança. Maré mansa, depois tempestade. E meu barco, perdido, sem porto, sem cais. Teus olhos fundos, abissais, me chamando como sereias chamam seus homens para se perderem. E os devoram, afinal, nunca as decifraram...
De repente, algo te traz para perto de mim. Tuas cálidas mãos, há muito perdidas nos escombros das memórias em desuso, tateiam novamente meu rosto, me chamam de bela na linguagem dos cegos. E tu me redesenhas como se eu fosse a Vênus que saiu de novo de uma concha.
De repente, teu hálito vem terminar em meu pescoço. Teus braços me envolvem, enquanto vemos o céu de agosto, negro e cheio de estrelas, e aquela antiga lua, testemunhando nosso desencontro, sempre. E cá me encontro, novamente, sozinha, enquanto tu és semente de memória.
De repente, e isto parece um pesadelo que não finda, escuto tua voz me inquirindo, sinto teus braços me soltando, e meu desenho se apagando. Teus olhos não me afogam mais, não me chamam mais. Eu acordo, e tento dormir novamente, para voltar a sentir olhos, mãos, respiração e abraço, mas sinto que desintegro, me desfaço neste desencontro.

De repente percebo: o teu silêncio é o que ainda me alcança. E nele, abraçada nele, durmo, como se fosse a última peça de roupa com teu cheiro, o teu pedaço que me cabe, a tua indiferença fazendo o sentido que não tem. E nesse dessentido me agarro, pensando que de tanto me amar, silencias, somes, sendo meu nunca e meu eterno não.

domingo, 21 de julho de 2013

VIELA DAS LAVADEIRAS

Viela das lavadeiras.
Onde, as lavadeiras?
Nos umbrais das portas?
Nos tanques, com as trouxas de roupa na cabeça?
Onde o passado,
A não ser nas paredes das casas,
Nas antigas pedras,
Nos gradis trabalhados?
Onde as lavadeiras,
A não ser no nome
Que desprende dom metal,
Falando de um tempo imemorial?
Viela das lavadeiras
Pedaço perdido no tempo

Quase sobrenatural.

terça-feira, 16 de julho de 2013

POESIA COM ASAS


Pássaro.
Poderia voar.
Mas fica.
Poderia pousar em altos lugares.
Mas se aninha em meu ombro.
Espera o calor
Espera a pele
Contra as penas,
Contrassenso:
Sem gaiolas que a prendam,
Presa em seu afeto.

Assim também somos nós.
Livres que somos
Escolhemos gaiolas que nos prendam
De fato e em pensamento.
Nos contentamos com o calor,
O contato,  o afeto
E cortamos nossas asas.
Feliz pássaro,
Que ama e é amado.
Se contenta comigo
E eu com ele
Sem se perceber

Aprisionado...

Blog Palavra Prima, é para lá que eu vou

Quem chega aqui deve perceber que as postagens estão cada vez mais escassas. O motivo real é a criação, há mais de dois anos, de outro blog,...