quinta-feira, 28 de março de 2013
MINI MINI CONTO
Notícia em algum país ao norte do equador: homem é encontrado morto, congelado em frente ao computador. O aquecimento estava desligado. No rosto, um sorriso. Na tela do computador, "YOU WIN! GAME OVER."
sábado, 16 de março de 2013
HA QUE SE CUIDAR
Há que se cuidar, com zelo, de todos os nossos
antigos malfeitos. Sim, todos aqueles que bailam em nossa memória, repletos de
odores, tatos, arrepios e calores; todas as mordidas nas entranhas de prazer ou
de terror; cada olhar que nos chegou, cada cor, cada cena.
Há que se cuidar, com zelo, para que não cheguemos
á perfeição. Sim, a perfeição de pensamento, sabendo que não mais existem
ilusões, nem vida após morte, nem vida durante a vida. Tudo torna-se tão
insosso, sem um segredo que nos leve para o diabo que nos carregue! Portemos,
guardado em algum bolso, uma carta perdida, um pedaço de tecido velho, uma foto
escondida, para que o passado venha, assim, alegro ma non tropo, colorir o presente
insosso.
Há que se cuidar, com zelo, para não perdermos as
sensações que nos foram caras. Escrevamos em todos os textos, a cada mil dias,
para que, ainda que se passem mil anos, aqueles que lerem possam dizer: aquele
ali, olhe, foi marcado por tal fato, presente do primeiro ao último ato.
Há que se cuidar, com zelo, de toda e
qualquer reação que haja marcado o
corpo: o toque que trouxe o arrepio, o hálito que chegou tão próximo, mas não
tornou-se beijo, o olhar profundo que fez subir calor pela espinha, a carícia
pedinte a pedir carícia. Há que se cuidar para que não descuidemos dos pecados,
pois já há mais de trezentos e sessenta e cinco santos espalhados para devoção,
e outros tantos mártires esperando para serem dignos de oração.
Há que se cuidar, enfim, da nossa humanidade, dos
nossos antigos malfeitos, das nossas querências, dos nossos pecados mais
secretos, dos textos, hieróglifos, ainda a serem descobertos. Porque ainda
escuto sinos repicarem enquanto leio poemas, e me esbofeteiam a face com
palavras de amor que não cri.
quarta-feira, 13 de março de 2013
PRESENÇA
Ante
a tua presença, não discuto; não há tempo para falas, papéis, enrroscos tais que
nos percamos em palavras. Tua realidade me traz a vida, ação, momento. Sabes?
Viver sem ti é viver sem ar; é ser acometida de uma sensibilidade a todas as
naturezas, isolar-me do mundo, não poder tocá-lo.
Ante
a tua presença, meus sentidos aguçam; não há espera, não há repouso, não há
meio termo. Sentir e agir tornam-se uma só coisa, um só esforço, sem forças
para dizer não. Deixo lá fora a pudícia, os costumes bem guardados, e só peço
que o sentimento não se perca, perpetue-se em si mesmo, num moto-contínuo.
Há a antítese disso tudo; tua falta, tua ausência
impressionantemente dura, pesada. Pedaço que se foi de mim, sem que eu sequer
concordasse. Minhas ideologias e meus atos nem sempre caminham juntos de
fato... tão independente em tudo, me vejo amarrada ás nossas memórias tantas,
ao nosso comprometimento torto. Quando não te tenho ao alcance, és meu anjo
morto, e o peso de tuas asas me afunda...
De
encontros e desencontros, presenças e ausências, construímos nosso particular
mundo. No abraço, a volta do calor aos corpos. Do despregar-me de ti, o contar
das horas até a próxima respiração, onde teu perfume anunciará minha
ressurreição. E recolherei migalhas do teu afeto, provas de tua existência,
para que não duvide do que somos quando nos temos, na hora do nada, da tua não
presença; ausência seria se não estivesses comigo na lembrança, viste? Então é
não presença mesmo.
E
sigo adiante, qual o dia que vem depois da noite, apreciando o ciclo de ter e
não ter você comigo. Sim, apreciando, pois a ausência é o tempo de avaliar importâncias, querências, atinos e
desatinos. Avaliar lembranças, sonhos, e essa falta de ar que continua me
tomando. Sim, apreciando, pois na tua presença, o que veio antes não importa, o
que virá depois também não.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
PASSOS DADOS, PÉS DESCALÇOS...
Passos dados, pés
descalços, poeira no espaço... me arriscar porta afora, pisar nas madeiras
soltas da varanda, tocar na branca tinta descascada, na madeira mais uma vez crua,
exposta ao tempo e á chuva, como eu...
Vejo as velhas
janelas, um tanto emperradas com tanta água que caiu do céu; pelo lado de
dentro, cortinas simples, uma chita xadrez, lembrando velhos filmes. Olho ainda
a escada, que sempre range, anunciando vida na casa. Corrimão gasto, lustroso
de tantas mãos que passaram; e o ‘lá em cima’, sempre o medo do escuro que pode
me tragar, me levar, transformar. Lá em cima, dissolução, nos antigos quartos,
de velhas camas, lençóis bordados por antigas noivas, perfurados pelo tempo e
traças, flores simples na jarra de louça
que antes servia para verter a água na alva bacia, e acordar o rosto com a
pátina do sono.
O lá em cima me traz
a visão dos arredores, o pomar descuidado atrás da casa, os pássaros que teimam
em fazer seus ninhos no beiral velho; os montes baixos que recortam minha
paisagem, me dizendo “trás os montes, trás os montes...”, com sotaque lusitano.
E eu lá sei o que pode haver atrás de cada monte, além de pasto, vacas e
cupinzeiros? Não sei, não sei.
Aqui, neste alpendre
antigo, me preparo para pisar na terra, irremediavelmente suja, pois que assim
nasceu, dentro da minha concepção recebida, à força, de meus antepassados.
Quisera poder pensá-la, senti-la, tocá-la, como coisa limpa, sagrada, bendita, como algo em mim, fala – mas cala.
Pisarei esta terra com pés curiosos, atentos ás sensações, arranhões e
pedregulhos que possam me marcar, me causar novas experiências. Pisarei a terra
como semente que nela cai, esperando germinar e criar frutos em seus futuros
galhos.
Me preparo, pés
descalços, compasso de espera, passo, compasso, passo. Levanto o velho saião,
toco a mureta toda escalavrada por formões, rococós e antiguidade, e piso
então, nesse solo que me viu nascer, que me viu crescer, e que receberá meu
corpo quando este esquecer de ser. Pó, poeira, levantada com o passo, compasso,
passo. Danço, cirandeiro solitário, músicas de minha infância, completude que
me abraça.
Uma chuva fina me
cola a roupa ao corpo, a lama aos pés, o sorriso à face, e me volto, então,
para a janela (aquela, á direita, sempre com a veneziana aberta, aonde, sempre
a espreitar, mora minha alma). Gotas de chuva escorrem no vidro sujo, caem no
beiral, fazem caminho no chão, respingam
nas minhas pernas, pintura abstrata de argila molhada, e me sobe pelas
narinas o cheiro doce e ocre de terra, e notas das folhas verdes do pomar...
Minha alma,
antiquíssima, me olha da janela, e inveja a minha matéria, concreta, real,
sensação em êxtase. Eu sorrio para ela, e a chamo: habita- me! e ela some da
janela. Como num transe, vejo uma menina sair para a varanda, pés descalços,
cabelos desgrenhados, dentes pequenos, de leite, alvos, um sorriso. Ela corre
para mim, se joga em meus braços, e, assim, recebo minha alma, que se
incorpora, definitivamente, em mim... passo, compasso, passo, pés descalços,
vida enfim.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
REFLEXÃO DA MANHÃ
A memória passa pelos sentidos;
e os sentidos, não passam pela razão.
Então não há razão nas memórias que guardamos,
só o sentido que para elas damos...
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
A MENINA
Acho
que fotografei a menina que andava escondida pelos cantos da casa. Arteira,
rindo de todos os acontecimentos infelizes (travessas caindo, o ovo quebrado no
chão, a resposta impagável de uns e
outros), e em outros momentos
permanecendo absorta, silente, com um sorriso fugidio no rosto. Menina, menina,
o que você quer de mim? Por que não para de me seguir?
E, num
repente, me viro, e a pego, assim, rindo-se de mim... rindo das minhas ilusões,
de minhas crenças, de minha história. Ela me ensina a não levar o mundo a
sério, a não ser que o assunto seja mesmo
sério. Me ensina a acreditar nos pedidos que fiz para as estrelas, no pensamento
positivo, mesmo que o resto da humanidade pense que isto é uma bobagem. Ela me
ensina que fé é um assunto pessoal e intransferível, e do qual eu não devo ter
vergonha.
Ela está
rindo para mim, e agora me oferece sua mão. Me mostra suas velhas bonecas, seus
desenhos, seus versinhos. Mostra o
coração flechado que desenhou, o papel que rasgou com raiva, o vidro com lágrimas
que chorou, e o sol que desenhou para evaporá-las. Esta menina!
Corre rapidamente por minha casa, e, quando a alcanço, eu a
reconheço. Estes olhos, este sorriso... o espelho embaça com meu hálito, meus
cabelos brancos me trazem de volta à este tempo. Mas a menina, ah, a menina não
sai mais de dentro de mim.
sábado, 12 de janeiro de 2013
TESTAMENTO
Hoje me voltou a gana
De verter poesia.
Abri minhas veias
E suaves areias
Formaram praias
Onde escrevo com gravetos
E as ondas não chegam
Para levar as palavras...
Registro de passos,
Pensamentos e sentimentos.
Registros de pequenos pedaços
De alegrias, sorrisos,
Bons momentos.
E vejo que minhas palavras
Vão no vento.
Chegam em terras estrangeiras,
Com castelos, neve, outras praias,
Lugares de czares, de reis e de caubóis.
Queria saber se nestas terras
Chega o sol que aqui me banha
Ou se outro sol arde,
Outros arrebóis...
A visão fica mais leve
Quando penso que o que escrevo
Não sumirá no espaço
Quando eu morrer,
Findar,
Parar de gerar
Meu próprio compasso.
Mas quando morrer,
Veja bem,
Quero ir-me embora
Envolta em redes
Plenas de palavras
Que me falem
Do teu abraço...
E deixando cá
Meu testamento
Já me desfaço.
sábado, 29 de dezembro de 2012
ACABADA DE FAZER, PÃO FRESCO, SAÍDO DO FORNO DA POESIA
São modos
diferentes
E iguais
De se chegar a
Deus:
Oração e poesia.
É o pão nosso
De cada dia
Da alma.
Então
Que em cada novo
ano
Venha o Ano Bom;
E de cada ano bom,
tenhamos os dias
abençoados
com o pão da alma,
brilhando em nossas
mentes,
em nosso íntimo.
Nos elevando
E enlevando,
Seja pela poesia
-a mais antiga
forma de orar-
Seja pela Palavra
propagada
E guardada no
coração,
Por isso mesmo
Decorada,
Oração,
Que aprendemos em
criança,
Com o pai ou a mãe
Na cabeceira,
Segurando nossa
mão.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
BOM NATAL, TODO DIA
O dia é 25, solstício de inverno no hemisfério norte, de verão aqui no hemisfério sul. A Igreja instituiu este mesmo dia como o do nascimento do Cristo, que assim como o sol, nos traz a Luz necessária para a vida, mas a espiritual, não a material. Na verdade, não se dissocia a matéria do espírito quando esta luz nos banha. Cada ação é ato de fé; cada palavra é responsabilidade. Fazer o bem, ser bom, ver a todos como irmãos, não é exercício de um dia, mas de uma vida. Pensa que é fácil? É não!, rs. Mas viver com esta Luz como teu norte torna a vida repleta de pequenos milagres diários, e os olhos às vezes se enchem de lágrimas, pelo sentimento que nos vem, de exultação, e não de tristeza. Festa por festa, não vale. Festa com significado, signos identificados e aceitos, decodificados, sim. Bom Natal, todo dia...
domingo, 16 de dezembro de 2012
REPORT SOBRE O CONGRESSO BRASILEIRO DE ESCRITORES, NOVEMBRO DE 2011
LIVRO: Difusor de Cultura ou Material de Consumo?
Fui para a terra vermelha de Ribeirão Preto/SP sem lenço e sem documento, praticamente no sol de quase dezembro, atrás de um sonho: conhecer o “fazer um livro” por trás dos bastidores, entender como funcionam as editoras e conhecer este bicho-homem-escritor, em que caverna ele vive e como ele se alimenta. Encontrei bem mais que isto nas oficinas literárias, mesas redondas (que são retangulares) e nos debates dos quais participei. Encontrei uma rica discussão em torno de assuntos que nos interessam, penso eu, pois não envolve só o livro e sua confecção, mas o que fazer com ele e o que será dele no futuro.
Além das oficinas das quais participei, com Menalton Braff e Deonísio da Silva, escritores brasileiros premiadíssimos e desconhecidos do grande público aqui no Brasil (já que são mais lidos no exterior do que na terra deles), participei de debates com outros grandes escritores: Betty Milan, colunista da Veja, Jorge da Cunha Lima, hoje à frente da Fundação
Padre Anchieta, Quartim de Moraes, jornalista e editor, Waldeck de Almeida de Jesus(www.galinhapulando.com) poeta baiano premiadíssimo e com belíssimas ações sócio-culturais em Jequié, junto com seu amigo e escritor regionalista Domingos Ailton (www.domingosailton.com);Laura Bacelar, escritora e editora, e encerrei com chave de ouro com uma palestra de Affonso Romano de Sant’Ana, grande poeta de nossa língua.
O que eu vou dividir com vocês são os temas que continuam saltando na minha memória.
Primeiro, a reclamação dos escritores brasileiros sobre haver mais livros estrangeiros no mercado do que os nossos, principalmente no quesito infanto juvenil, com bruxos, vampiros e mundos fantásticos. Teve quem dissesse que jovem não gosta de ler, ou só lê “porcaria”. Dei um “alto lá”, e disse que não é bem assim. Tenho filhos em casa, e sei que se você proporcionar o convívio com os livros, eles pegam o gosto pela leitura. E mais: se eles lêem Harry Potter, é porque não há aqui escritores que tratem de temas fantásticos com a nossa mitologia brasileira, tupiniquim, com o mesmo interesse que o autor estrangeiro fala da dele, isto é duendes, fadas, bruxos. Nós mesmos não aceitamos a nossa herança cultural diversificada, a ponto de não escrevermos sobre ela. O nosso grande escritor infantil foi Monteiro Lobato, que para quem não sabe, e eu não sabia, fundou a primeira editora brasileira, pois antes eram francesas… e fez um acordo com os Correios do Brasil, espalhando livros do Oiapoque ao Chuí, literalmente. Com isso acabei conhecendo Camila Prietto (www.camilaprietto.com.br), estreando com um livro para os jovens, Em Busca do Guardião da Luz que já devorei pela metade, com muita ação, mistério e magia, eJordemo Zaneli (http://www.facebook.com/jordemozanelijunior) com um romance eletrizante, A Garota Rockstar.
Outro assunto bem debatido foi a formação de leitores, as políticas de governo, e as iniciativas particulares, projetos de bibliotecas volantes, livros em hospitais, contadores de histórias. Percebi nesta troca, que seja lá aonde for, na favela, no hospital, no interior do Brasil, nas nossas periferias, se dermos acesso aos livros a estas pessoas, elas os devoram, literalmente. Achei linda uma história que Affonso Romano(www.affonsoromano.com.br) compartilhou conosco, verídica.
Ele contava que, trabalhando na Biblioteca Nacional, encontrava mais parceiros no esforço de formar leitores fora do governo do que dentro dele. Um deles foi um antigo colega de escola que se formou médico, e resolveu colocar uma estante com livros no hospital onde trabalhava. Ficou muito feliz vendo os pacientes com os livros na mão, o projeto dando certo. Até que um dia, foi dar alta a um paciente que pediu para ficar, pois não havia terminado de ler um livro… contou o caso, satisfeito, para um residente, que disse que a história estava mal contada, pois aquele paciente era analfabeto. O médico, então, foi com jeito conversar com o homem, tirar a história a limpo. Quando questionou o paciente, ele disse: “eu não sei ler, não senhor, mais o doente do leito 14 lê prá mim, e eu leio na leitura dele.” Desculpem, tive que tirar o Kleenex do bolso…
Dentro do assunto de democratizar a leitura e divulgar os livros, um assunto que levava os escritores à loucura era: escrever para si mesmo ou escrever para o leitor consumidor? Eis a questão. O que os editores nos explicaram à exaustão, é que não devemos forçar a nossa natureza escrevendo do que não gostamos, mas escrevermos bem dentro da nossa especialidade, e, se não quisermos ser lidos só pelos nossos familiares, aliarmos ao nosso dom assuntos que interessem ao público. Livro de ação sem ação não vende; poesia com rima pobre também não. Portanto o escritor deve ter excelência no que faz para poder chegar ao seu público. E o público manda. Atire a primeira pedra quem já não leu um livro de auto-ajuda, ou não folheou um livro do Padre Marcelo. Isto também é nicho de mercado, gente! E também contribui para a formação de novos leitores, bem como os nossos queridos e amados gibis, companheiros desde a infância até a vida adulta.
Por fim, Affonso Romano nos pôs para refletir sobre o papel da leitura e do leitor na sociedade. Não existe sociedade desenvolvida sem cidadãos leitores, minha gente. Ele terminou sua palestra perguntando algo que nos diz respeito: conseguiremos fazer a disseminação da cultura através dos ipods, ipads, notebooks? Saberemos usar estas ferramentas para sairmos do atraso em que nos encontramos?
Foi então que eu propus divulgarmos através dos nossos sites, blogs, sites e e-mails dos novos escritores que desejam ser conhecidos, e não encontram espaço na mídia e na vitrine das livrarias. Ao final deste artigo espero que vocês, que estão lendo isto, entrem nos links e dêem uma olhadinha nos trabalhos de meus colegas, peçam o livro para eles caso se interessem, pois muitos aqui estão bancando suas obras. Eu também sugeri a eles que deixem um “menu degustação” da produção literária deles, para que vocês possam ver se gostam ou não. E divulguem! Os escritores brasileiros são competentes, esforçados, e precisam de leitores! Vocês!
Para terminar, fomos todos muitíssimo bem recebidos pelos escritores de Ribeirão Preto, simpaticíssimos, como Eliane Ratier (http://elianeratier.blogspot.com), que comandou o sarau com um belíssimo sorriso no rosto, e Maris Ester Souza, presidente da Casa do Poeta de Ribeirão Preto, com sua fala doce. Também não posso deixar de citar aqui mais alguns de meus novos amigos, como a romancista Sueli de Conti Jorge(www.suelideconti.com.br), a poetisa Mara Senna (http://marasenna.blogspot.com), o mato-grossenseSebastião Waldir da Silva, retratando o seu pantanal (swswaldir@gmail.com), entre tantos outros, com quem participei do Congresso.
Espero que os leitores do Central 42 tornem-se também leitores desta nova leva de escritores. E não se esqueçam de mim!
ENTREVISTANDO ADHEMIR MARTHINS
Um papo com Adhemir Marthins, escritor de “Apoteose dos Gatos”
Adhemir Marthins nasceu em Joaquim Távora, no Paraná em 1966, e mora atualmente em Ribeirão Preto, São Paulo. É professor graduado em História e Filosofia com Pós Graduação em História Contemporânea. Publicou em 2010 o Romance “UM EXÍLIO E UM REINO” com apresentação de Menalton Braff e em 2011 o livro de Contos “APOTEOSE DOS GATOS”. É Cronista do Jornal O Atlântico Diário de Santa Catarina. Em 2010 foi Finalista do Prêmio Paulo Leminski de Contos.
Conheci Adhemir Marthins, primeiramente, pelo facebook, através de escritores de Ribeirão Preto. Fui conhecê-lo pessoalmente na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, quando tivemos uma conversa muito agradável sobre literatura e vida.
Convidei-o para esta entrevista, para que conheçam um pouco mais deste escritor brasileiro, graduado em Filosofia e História, que vive em Ribeirão Preto, mas veio “importado” do Paraná.
Adhemir, quando a leitura começou a fazer parte de tua vida?
Claudia, não saberia precisar isso, mas lembro-me que os livros não faziam parte do cotidiano de minha família. Em minha casa não havia livros, a não ser uma Bíblia antiga que pertencera a meu avô. No entanto, muito cedo comecei a me apegar a gibis, que com extrema dificuldade conseguia para ler. Eram raros. Diferentemente de muitos autores que começaram lendo Monteiro Lobato, eu comecei pelo gibi. Eram minhas fontes primárias para as primeiras histórias que viria a escrever, mas também em formato de gibi, já que não conhecia a linguagem dos livros. Engraçado, a presença deste tipo de literatura foi tão forte em minha adolescência, que até hoje conservo exemplares raros daquela época. Os gibis foram importantes para a minha formação como escritor hoje. Um maravilhoso começo.
Quais são as tuas referências literárias?
Comecei a ler literatura tardiamente quando já estava no antigo ginásio. Dois livros me marcaram muito na época: “O Menino de Asas” e “O Cabra das Rocas” de Homero Homem. Fiquei impactado com as histórias destes livros, tanto que tenho em minha biblioteca os exemplares que adquiri posteriormente. Queria saber mais, ler mais, mas mesmo naquela época os exemplares eram poucos na biblioteca da escola, pois estudava em uma escola pública de uma pequena cidade no interior do Paraná.
O meu acesso aos livros de fato aconteceram quando fui parar em um Seminário. Então lá comecei a tomar conhecimento deste vasto mundo das palavras. Não sabia que havia tantos escritores, e olha que eu estava entrando no segundo grau. Depois, no curso de Filosofia, fui me deparando com alguns autores que acabaram norteando minhas idéias, mapeando a minha existência naquele momento. Jean Paul Sartre, Albert Camus, Franz Kafka, Sigmund Freud eram os autores que mais lia, entre tantos outros.
Nessa época fui apresentado a dois autores, para mim muito importantes também: Milan Kundera, por quem tenho uma admiração profunda e Humberto Eco. Poderia dizer que estas são as minhas referências estrangeiras, mas alguns brasileiros também estavam na cabeceira: Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Nélida Piñon e claro, Machado de Assis e outros ilustres clássicos brasileiros. Somos uma mistura. Dessa mistura criamos nossa maneira de ver o mundo, de interpretá-lo e acabamos formatando um estilo próprio. Basicamente são estes autores que estão sempre à minha volta.
Você hoje tem dois livros publicados, “Apoteose dos Gatos e Um Exílio e Um Reino”. Quando foi que nasceu o escritor Adhemir Marthins?
Penso que o escritor não surge assim de um dia para outro. É uma construção permanente. Tenho escritos guardados a mais de vinte anos. Romances escritos na década de 1980. Tornamos-nos conhecidos a partir de um livro publicado, mas antes disso o escritor está latente, produzindo, querendo romper a própria casca. Um escritor não decide que quer ser escritor sem antes haver a priori essa potencialidade. Tudo converge para um ponto, mas até lá há um processo que não para.
Um escritor surge neste contato com a palavra e se descobre lendo, este é o primeiro passo. O escritor em mim e em todos os que conhecemos nascem assim… Embalados pelo livro. Este é o canto da sereia. A magia, o feitiço aconteceu quando curiosamente abri os livros, e esta curiosidade felizmente não acaba nunca. Escrever é isso, salvar o mundo do excesso da curiosidade, as minhas e as dos outros.
Sei que você, além de escritor, tem agora uma editora, a Redemoinho. Como você vê o mercado editorial no Brasil? E dentro deste mercado, onde se encaixa o e-book para você?
Não sou pessimista, se o fosse não teria encarado este novo desafio. Sou e estou otimista com o mercado editorial brasileiro, claro não tenho por hora pretensões gigantes e nem ambições triunfalistas acerca do livro, mas quando decidi desenvolver este projeto a intenção primeira, e talvez a única, foi pensando nos escritores novos.
Quantos bons escritores novos temos por aí? Digo, autores que estão escrevendo, produzindo bons textos. Há muita porcaria, muito lixo, sendo publicado até mesmo por editoras grandes, apesar de isso ser relativo. Há quem goste e quem detesta. O que quero dizer é que tem muita gente boa sem espaço, sem visibilidade. A descoberta destes “novos” escritores não vai acontecer da noite para dia, mas de uns tempos para cá, com as facilidades para se publicar, isso favorece para que apareçam bons autores que estão distantes da grande mídia. A internet que abriu o caminho para as publicações no formato digital é uma prova disso. Muitos autores estão sendo reconhecidos por seus trabalhos. Mas é preciso ainda suar a camisa. Minha intenção como editor é ser mais uma vitrine a estes novos autores. Criar possibilidades… Caminhar junto.
Como disse a internet é um campo vasto de possibilidades. O livro em formato digital está acontecendo, não substituirá o livro em papel, mas é uma ferramenta a mais não só para os novos autores como também para editores.
Te conheci numa Feira do Livro em Ribeirão Preto. Tenho visto a ocorrência deste tipo de evento em várias cidades do interior paulista. Estas Feiras do Livro conseguem efetivamente, aproximar escritor e seu público?
A princípio parece que não, pois a frequência de pessoas participando dos salões de ideias, cafés filosóficos, ainda é pouco, e por vezes quase sempre os mesmos. O que existe é muita gente circulando pelos estandes, na maioria crianças e jovens procurando gastar o cheque livro que ganham nas escolas oferecidos pelas Prefeituras como incentivo. O que temos é quantidade de pessoas nas Feiras e pouca qualidade, no que se referem ao interesse pelos escritores e suas obras.
Há muito interesse por outras atividades que são incorporadas às Feiras, principalmente as atrações musicais. Penso que o modelo de Feiras grandes não funciona como se espera. Tenho visto e participado de Feiras menores com melhores resultados. Tanto a Bienal de São Paulo, como a de Ribeirão Preto e tantas outras precisam ser repensadas. Nestas Feiras a grande referência é o livro, no entanto, não é o que se percebe. Outras atrações são importantes, mas não devem ocupar o mesmo espaço do livro e dos autores. Parece um samba do “crioulo doido”.
Outro dado importante, é que os escritores precisam ser mais valorizados nestas Feiras. Em Ribeirão Preto é possível perceber uma melhora neste sentido, já que os autores locais estão participando efetivamente da Feira, mas há ainda muito por fazer. Pessoas competentes e verbas para isso há, faltam apenas vontade e senso de organização.
Curiosidade: tem algum projeto literário novo em andamento?
Alguns… Estou trabalhando em um romance novo a pouco mais de um ano e meio, que deverá ser lançado em 2013. Também revisando outro para o próximo ano. Mas isso tudo depende de outros fatores, inclusive dos textos que me chegam de outros autores para avaliação e o acompanhamento que faço aos que já estão sendo publicados pela Editora Redemoinho. Além claro, de dar continuidade à divulgação dos que já foram lançados. Filhos só os deixamos depois que crescem, ainda assim ficamos o tempo todo por perto.
E por último, você tem algo que gostaria de dizer a quem está nos lendo?
Leiam-nos… Compartilhem… Quem guarda para si as riquezas não é só capitalista, mas também mercenário. Na literatura como nas demais áreas de nossa vida devemos ser socialistas. A partilha e a comunhão de idéias são importantes. Isso nos fortalece com leitores, escritores e editores. Uma dica é que leiam, leiam muito. Não existe um bom escritor que não seja um grande leitor. Precisamos nos alimentar da matéria da qual nós escritores somos feitos: a palavra.
“Ninguém dá o que não tem.”
Obrigada, Adhemir, pela entrevista!
Obrigado eu, e sigamos em frente.
Apoteose dos Gatos
Autor: Adhemir Marthins
Gênero: Contos
Editora: Coruja
No segundo livro de Adhemir Marthins, Apoteose dos Gatos, uma série de contos se entrelaça com um tema comum a todos eles: o cotidiano. Misturadas à nossa realidade, as narrativas são contextualizadas e sedimentadas nas pequenas ações humanas, muitas vezes dura, opaca, conflitante, e também, muito divertida. Um conto ou outro às vezes parece uma crônica concreta de pessoas que se cruzam diariamente. Os textos curtos não diminuem o conteúdo da vida impressa como matéria prima aos nossos olhos. Ler os contos do autor é como reviver as próprias histórias, mas sob um prisma peculiar e engrandecedor, que sugere olhar o entorno para melhor compreendê-las.
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