sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DONA BRANQUINHA

Perdida em meio aos meus ais, encontro motivos toscos para todos eles. Afinal, de que serve uma melancolia sem motivos? Nem que seja a leveza que me traz o copo de vinho, nem que seja a estranha certeza do teu amor antigo, que ainda permanece comigo.
Perdida em meio aos meus ais, me sento no alpendre da casa antiga com sempre renovada disposição de sofrer por ti. Sim, pois que envelheci, assim, seca de amor, esses caminhos em minha face, esses meus cabelos rajados de branco, nunca mais cortados desde o dia que te vi partir prometendo que voltarias. Minha trança conta os anos de lonjura em cada nó, e eu fico aqui, só. Poderia ter sido avó, antes poderia ter sido mãe, se tivesses me possuído.
Mas cá estou eu, perdida em meio aos meus ais, colo vazio, ventre improdutivo, perdido para o destino das mulheres. Que prazer tive eu, que pouco ou nada tive de você? O prazer imaginado das moças antigas dos interiores, onde recato era moeda de troca no mercado vigente... o prazer de poder andar de mãos dadas contigo, em tardes perfumadas pelos jasmineiros em começo de primavera, o prazer de poucos beijos roubados, assim, na curva antes de chegar ao muro da casa, quando um olhar rápido nos assegurava a ausência de um vigia.
Lembro-me de teu sorriso franco, de tuas declarações, hoje tão infantis, nas cartas amareladas que guardo no fundo de minha gaveta. Lembro do frio que corria minha espinha quando me enlaçavas para dançarmos, em nosso bailes interioranos. E minha caderneta de dança era só tua... hoje danço sozinha, e pouco me importa se me vejam. Já estou na idade da senilidade, que pensem o que quiserem.
E aqui, perdida em meio aos meus ais, me vejo na plataforma do trem, me despedindo de ti. E vejo teu olhar brilhando, teu sorriso triste, e escuto tua promessa. Será que realmente aconteceu? Não posso precisar, pode ser o vinho, pode ser minha vontade de que realmente tivesse acontecido... as lembranças já nada são, que importa se criadas ou vividas? Me contento com elas, revivo, sinto novamente, remoço por dentro.
Mas não voltaste. Lembro de pessoas chegando aqui nesta casa, neste alpendre, me chamando. Lembro... de não lembrar de mais nada. Não sei quem te levou, não consigo lembrar como partiste. Não houve corpo para velar, nem missa de sétimo dia. Pus teu nome nas intenções da missa, e enlutei. Do teu amor fiquei viúva. Mas vesti branco, a cidade estranhou, minha família estranhou. E eu disse: de negro já vai a noiva Morte, com ele. Eu sou a amante, e de branco eu vou.

E hoje dona Branquinha eu sou. Perdida em meio aos meus ais, cartas antigas e nós no trançado, como os das árvores, dando a data, a precisão do amor que ficou em mim. Neste velho alpendre, uma certeza eu tenho: do teu amor antigo, constante e amigo.

2 comentários:

  1. lindo texto..
    triste sim, mas belo..
    beijo e bom final de semana..

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    Respostas
    1. obrigada, Ingrid! tão bom saber que o texto tocou o leitor! bom final de semana para ti também!

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