segunda-feira, 28 de maio de 2012

Livros, Piazolla e transcendências.


         Como se não configurasse novidade, era manhã de sol em Ribeirão Preto. Após seis meses, eu estava de volta àquela cidade, e com uma acolhida maravilhosa, antecipada pelas mensagens amigas de pessoas que eu sequer conhecia quando pisei ali pela primeira vez, para o Congresso da União Brasileira de Escritores. Porém tecemos uma belíssima rede de amizade através de outra rede, a virtual.
         Desta feita, havia motivos mais que especiais: a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que já ocorre há doze anos, e o lançamento do livro de Carol Bernardes, uma amizade que começou em conversas no facebook. Também houvera o lançamento de outra amiga poetisa, Mara Sena, com história semelhante de estreitamento de laços entre nós, e eu queria ter seu novo livro em minhas mãos.
         Tantas vontades me moviam; quantos “amigos virtuais”, escritores, batalhadores, que eu queria agora poder conhecer em carne e osso, ou como disse minha amiga Eliane Ratier, “saindo do quadradinho do face”. A empatia com todos me pareceu imediata, pois o que já disse uma vez, repito: nós escritores, fazemos parte de uma linda Confraria, que antecipa o amanhã.
         Cheguei na madrugada do sábado, 26 de maio, e após largar as malas no hotel e dar uma largadinha do corpo na cama, tomei um café e fui para o primeiro evento do dia. Queria conhecer dois amigos virtuais já “adicionados”, Adhemir Martins e Regina Batista, e outra escritora que ainda não conhecia,  Sada Ali. Meu dia começou bem; após o Salão de Idéias, encontrei Eliane, Maris Ester, que me enviara delicada mensagem no dia anterior, dizendo que eu estaria em meio a amigos e livros, e conheci  mais dois poetas, Ferriani e Rosseti, além de Mara Sena, que também encontrei logo cedo.
         Fui praticamente carregada, bem acompanhada por Eliane e Mara, para um verdadeira aula sobre Graciliano Ramos, precedidas por Rosseti, e encontramos por lá um Menalton Braff, sempre doce e sorridente, que se mostrou encantado com a aula que tivemos todos.
         Na parte da tarde, mais Salão de Idéias, e foi a vez de me encantar com Suassuna, acompanhada de Carolina Bernardes e sua filha, Bianca. Ali reaprendi que há grande diferença entre ter êxito e ter sucesso, entre o que é duradouro e o que é efêmero, entre qualidade e quantidade. Tudo com o encanto de um jovem de 85 anos, que nos divertiu com frases maravilhosas, que preciso citar aqui (fará bem para a humanidade): “se você não sonhar, é melhor ficar em casa”; “tenho a língua afiada, e o Brasil é do meu povo”; “o doido é aquele que encara o mundo com originalidade, e o escritor também deve ver o mundo assim.” E uma historinha ótima, sobre uma moça que lhe comentou, um dia, que não entendia de forma nenhuma a arte abstrata, a qual ele respondeu: “me admiraria é se você entendesse, minha filha!”. Este é Ariano Suassuna: um apaixonado pelo Brasil, sua cultura, sua riqueza, que do alto de seus 85 anos, se posiciona com o vigor de um jovem, e não envergando um pijama, como estereotipamos um idoso. Quantas lições, passadas somente por seus atos...
         Voltei para o hotel, cansada, mas me reanimei com um banho e o telefonema para uma amiga querida, que mandou eu levantar o derriére da cama e me aprontar para assistir o show de Jair Rodrigues, que aconteceria na frente do Teatro D. Pedro. E eu, obediente, obedeci, e me deliciei com as músicas e a voz deste maravilhoso cantor (outro jovem com várias décadas na bagagem...)
         Na manhã seguinte, já combinada de encontrar com Eliane Ratier logo as nove da matina, fiz um roteiro maluco: assisti a premiação de alunos locais e autores da região, e depois fui prestigiar o coral da AORP, na frente do Teatro, debaixo de um sol que já prometia. E então eu vi algo que me maravilhou e marcou como a imagem de tudo o que passei neste final de semana: na frente do coral posicionou-se um senhor mulato, com um terno bem surrado, e, com pose de quem iria fazer um solo, nos mirava a todos, espectadores e ouvintes. Era um mendigo local, que na noite anterior eu vira cair dançando, ao som de Jair e acompanhado da bebida.
         A maestrina então anunciou que iriam cantar uma peça de Astor Piazolla. O coral começou aquela música maravilhosa, mas foi eclipsado pelo mendigo, que em pose solene, as costas retas, altivo, chorava a nossa frente, ora olhando para o céu, ora limpando as lágrimas com as palmas das mãos. Eu, e tantos outros, começamos a chorar junto com ele, pois em sua total entrega, disse mais do que a música sobre aonde a beleza, em todas as formas, pode nos levar...
         Poderia terminar por aqui, mas ainda houve um Salão de Idéias com meu professor forever, Deonisio da Silva, mediada por seu “primo sueco”, Menalton Braff, aonde em meio a histórias pitorescas, assuntos sérios, transcendências explicadas, aprendemos e rimos muito, ao mesmo tempo.
         Depois, cercada de bons escritores por todos os lados, fui conhecer o chopp do Pinguim, pois seria uma heresia ir a Ribeirão Preto e não entrar na mais famosa choperia da cidade. De lá ainda corri para prestigiar minha amiga Carol Bernardes no Salão de Idéias do qual participava, e logo após, tive em mãos seu livro autografado. Ela estava precisando de um chá de camomila, e eu precisava almoçar.
         Voltei ao Pinguim, agora com Mara Sena, seu esposo e Adhemir  Martins, para comer, rezando, um delicioso sanduíche. Conversamos até não mais poder, e de lá passei direto no hotel, peguei minha bagagem, e em vinte minutos embarcava para casa, novamente.
         Voltei, é fato, mas minha alma ficou lá... Vim chorando no ônibus de volta, lembrando da acolhida calorosa recebida, do encontro com amigos novos e antigos, da sensibilidade do morador de rua, tocado pela música...emoções várias, coração posto a prova, e a minha vontade de assumir que sou escritora, sim, agora e sempre, de uma vez por todas, pois a esta confraria pertenço, desde quando me entendo por gente, mas só agora me dei conta.







quarta-feira, 23 de maio de 2012

SOMBRA


Achados e perdidos, este pequeno conto eu fiz com vinte anos. Estava em meio a poesias, num caderno da época.



I-

         Ela ia andando a sua frente. No rosto, uma expressão séria. Nos passos, decisão e controle. As mãos ainda tremiam um pouco, mas o homem não percebia, não as via.

         Num acordo mútuo, os dois pararam. Ela olhou para trás, e seus olhos se fixaram nele. Mudos os dois, continuaram a andar. Entraram na casa pequena, organizada e séria, como ela. Dele, nenhum vestígio, como sempre.

         Ela arrumava uma maleta, metodicamente. Ele só a observava, nulo. Tentou falar algo, mas fantasmas não emitem som. Ela fechou a mala, deu um suspiro e o olhou. Disse: “vou embora”. Ele queria dizer: “tudo é teu, faça o que quiser.” Mas não disse. Não necessitava, pois ela sabia. Por isto ia embora.



II-

         O dia amanheceu. Os vizinhos estranharam a porta da casa aberta. A vizinha chamou a dona. Sem resposta, entrou. A casa pequena, organizada e nula, nada dizia. A vizinha entrou no quarto. Na cama, a surpresa. Branco, duro, um homem sentado. Olhava para o nada. Um grito. Nunca vira aquele homem. A mulher, sumira. E tirada sua presença, surgiu o homem. Morto.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A BONECA


         A pequena brincava sozinha. Punha as bonecas para se conversarem. Ás vezes era uma briga, pois só havia um boneco para ser o namorado, mas ela sempre resolvia a questão, apartava a briga entre elas. Naquele momento, porém, ela se ocupava em vestir todas as três bonecas para o baile.

         Havia a Suzi antiga de sua mãe, já sem dois dedos na mão, de um plástico branco, com seus cabelos também brancos e compridos;uma Suzi que ganhara de natal, e outra boneca, imitando uma Barbie bem tosca. Ela se pôs a vesti-las, mas só havia dois vestidos de festa. Ela então pegou a sua boneca preferida, a velha Suzi, e ficou olhando para ela, pensando como resolveria o problema. De repente, recordou-se de um pedaço de tecido vermelho, que viera de uma barra de saia da mãe, que fora cortada. Abriu sua caixa de bonecas, e lá estava o retalho. Devia ter uns sete centímetros de largura, mas era bem comprido. Que maravilha!

         Quando na casa de sua avó, costureira das madames finas, ela pedia agulha e linha, e fazia vestidos a sua moda. Agora, porém, não queria sair de seu quarto para pedir nada para a mãe. Ninguém a perturbaria, em seu mundo de fantasia, e assim, resolveu improvisar.

         Ela então pegou aquele retalho e começou a enrolar na boneca, dizendo para ela como ela ficaria bonita, a mais linda do baile. Diante de seus olhos, um belo vestido vermelho, muito justo em cima, ia se abrindo como uma flor invertida, de rodada saia, e uma cauda que se arrastava pelo salão. As outras duas bonecas vestidas com suas roupinhas, ficaram esquecidas num canto, enquanto a outra entrava pelo salão do baile, encontrava o príncipe, e era admirada por todos.

         A manhã se passou em solenidades, valsas e rapapés. Quando a brincadeira acabou, a boneca envolta no retalho vermelho foi posta no lugar mais importante da estante. Para quem olhasse de fora, um disparate: a boneca andrajosa assim exposta, enquanto as vestidas corretamente jaziam num canto do quarto. A menina já então enxergava a vida com olhos de ver além e não cansava de olhar a beleza daquela princesa com amor criada, enquanto sonhara acordada.   

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O ESPELHO


                Há alguns anos, quando era mais moça, conheci uma mulher muito atraente, na casa de seus cinquenta e poucos anos, e ela disse-me algo que me marcou e me fez pensar por muito tempo. Confessou-me que quando olhava no espelho nunca enxergava a imagem atual; guardava em sua retina uma imagem sua com quarenta anos, num dia em que se arrumara para sair, e estava particularmente linda, radiante. Disse-me que se dera conta, no exato momento em que olhara a imagem sua refletida no espelho, que aquela era a imagem que mostrava sua alma em estado de plenitude.

                Hoje, em que eu estou na casa dos quarenta, consigo entendê-la.  Por estes dias eu também me peguei olhando para o espelho, e me achando plena, feliz, em estado de graça. Entendi o que esta mulher havia enxergado. Quando temos quinze anos somos belezas sem consciência; seduzimos pela força telúrica que possuímos, a terra que fala mais alto dentro do corpo jovem. Quando temos vinte anos, seduzimos pelo porte de mulher que nasce, mas muitas vezes não nos damos conta da sexualidade que emana de nossos gestos, falas, no nosso caminhar. Temos uma potência infinita, mas não sabemos que o temos, e a maioria que se dá vagamente conta do fato ou a desperdiça, ou foge dela, com medo . Quando chegamos a casa dos trinta, algumas luzes já se acenderam para nós, mas a consciência plena vem com os quarenta anos.

                Não me perguntem por que quarenta,  não saberei responder. Só sei que é um marco de mudanças, internas e externas, e é quando olhamos aquelas antigas fotos e repreendemos aquela moça que tinha vitalidade, tempo e liberdade, e não aproveitou o que a natureza lhe proporcionava. Recriminamos porque neste momento, no auge da nossa beleza como mulheres, sendo conscientes de cada parte de nós mesmas, não temos mais a vitalidade de outrora, juntamente com todo o resto.  Mas temos consciência. Aos quarenta, já sabemos o que queremos, e temos foco suficiente para corremos atrás de nossos sonhos que ficaram pendurados em algum cabide, empoeirados, por muitos anos. É a idade em que resgatamos o que de melhor temos, ou então envelheceremos amargas e secas por dentro.

                Também aos quarenta queremos mudanças, e sofremos por não conseguirmos nos desvencilhar de crenças que nos tolhem a alma. Sofremos, choramos, mas buscamos a mudança. Ficamos irascíveis, queremos fazer as malas e irmos para a Conchinchina, como falava minha avó, mas temos a realidade que nos cutuca, puxa a barra do vestido e diz: estou aqui, hello!!!

                O que posso dizer: um dia me olhei no espelho, vi minha alma me acenar, radiante. Naquele dia, muitas pessoas viram a mesma radiância. Não foi eterna  a sensação, mas a busco agora, constantemente. Quando não a tenho, explodindo meu peito, fico muito decepcionada comigo mesma, pois  acho que deveria viver em estado de plenitude diariamente... por isso procuro, ardentemente, na imagem do espelho, esta mulher  plena, que sei que habita em mim, para me dar coragem e força, diariamente, para não perder meu rumo nunca mais. Porque, afinal, não é o manequim correto que nos faz belas aos quarenta, mas esta sensação de plenitude que exala pelos poros, e nos faz poderosas.  Como aquela mulher que conheci, que mantinha a sua imagem mais feliz na retina, e a irradiava, mesmo após anos passados, com a mesma força. Alguém quer um espelho?

Na proximidade do lançamento de meu primeiro livro, fui buscar no fundo do baú alguns poemas que foram selecionados por Deonísio da Silva para aquele que seria o meu primeiro livro, há mais de vinte anos. Este é um deles.


QUADRO RÁPIDO



O céu. Parece um furacão azul

Sobre mim. Apesar de estar longe

E atrás da janela.

Cinza chumbo, azul céu,

Nuvens cinzas, laranja esmaecido...

Esmaecidíssimo.

Parece uma pintura

( em branco, preto e com luzes, a cidade,

Acima as nuvens, muito chumbo,

Passou-se o pincel e borrou o azul claro, manchou e cobriu

O alaranjado. Acima do rasgo azul,

O céu escuro, chumbo de novo)

O prédio em construção

Deixa ver pelos seus desvãos

A noite que se anuncia.

(a pouco tempo ‘inda era dia!)

Mais perto de mim a janela larga

Semi-aberta, emoldurada

Por uma parede branca.

Não chão, tacos velhos, dois vasos

Com verdes folhagens

( e pássaros de pau pintados)

O tapete verde limitando meu espaço;

O braço da poltrona,

E, aproximando-se drasticamente,

A almofada florida,

As linhas do caderno,

O casaco azul e amarelo,

As minhas mãos,

E o mais surpreendente:

Sentada no sofá

Está uma moça!

Sou eu.

(maio/ 1990)

terça-feira, 8 de maio de 2012

HÁ BRAÇOS





Cabe no abraço a saudade,

Cabe também a amizade;

Cabe o conforto na dor,

Cabe o momento do amor.

Abraço não é de ouro,

Nem de linho,

Não é de seda ou tafetá.

Abraço é o algodão purinho,

Que serve sem se mostrar.

Há braços que se envolvem,

Há braços que carregam,

Há braços que afagam,

Há braços que se entregam.

O abraço não quebra,

Também não sei que amasse,

O mundo seria da paz

Se todo mundo abraçasse.




Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...