quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UM ALMOÇO COM TERESA


Hora do almoço. Teresa entrou no restaurante simples, comida por quilo, postou-se na fila com a bandeja e o prato na mão, esperando a sua vez de servir-se. Logo atrás dela uma moça miúda, morena, posicionou-se olhando impaciente para a fila. Teresa lhe dirigiu um sorriso e a moça comentou:
- como está cheio hoje, não acha?
- está, mas não me incomodo – respondeu Teresa, já se servindo das saladas – gosto de ver gente – sorriu.
A moça balançou a cabeça, colocou duas fatias de tomate no prato e disse:
- eu não me acostumo, vim do interior, sabe?
- ah, isto explica bastante – comentou Teresa –quer sentar comigo? Aqui não tem muitas mesas, e estou só. E me chamo Teresa.
- ah, então aceito. E me chamo Marta,  muito prazer.
Pesaram os pratos e foram se sentar. Marta contou que vinha de uma pequena cidade, o ritmo era outro, muito mais lento.
- parece que não consigo me adaptar a esta cidade. Deste jeito eu vou ter que voltar para minha terra... – arqueou os ombros para frente, enquanto olhava para o prato.
- tudo é questão de ser flexível, você sabia?
- como assim?
- por exemplo. Eu peguei um monte de salada e você só dois tomates, não foi?
- sim. E daí?
- há uns dois anos eu só pegava tomates, como você. Aí li que tínhamos que fazer pratos coloridos, para conter todas as vitaminas. Comecei a experimentar o agrião, depois outro dia a beterraba, um brócolis... o paladar acostumou, olhe a diferença! – e apontou para o prato, sorrindo.
- ah, mas a vida não é um prato...
- mas pode ser, se você quiser. – e deu uma piscadinha.
Marta remexeu-se na cadeira, olhou para Teresa intrigada:
- ok. Então me explique.
- por exemplo, hoje você está sentando comigo. Imagine que eu sou um brócolis... não ria. Você está experimentando algo novo no “seu prato”.
Marta riu junto com Teresa.
- ah, mas com você está sendo fácil, caro brócolis! Como fazer com o resto, que acho estranho?
- eu tenh
o uma teoria: todos temos limites a vencer. Primeiro temos que reconhecê-los, e depois atacá-los um a um.
- hum... e como se faz isto, me explica! – Marta inclinava-se, começando a interessar-se.
- bem – começou Teresa – vamos a outro exemplo gastronômico. Eu não conseguia comer nada com coentro. Sempre dizia que era forte, que o sabor tomava toda a comida, enfim. Tinha um preconceito gastronômico contra o pobre coentro...
- tá, e... – Marta grafava a comida, prestando atenção em Teresa.
- um dia fui comer com uma amiga num restaurante baiano. Escolhi um peixe com leite de coco, delicioso, de lamber os beiços. Quando o garçom veio recolher os pratos, eu elogiei o peixe, e falei que queria saber o que tinha dentro, para ficar tão bom. Ele educadamente me descreveu o prato, e disse que o segredo era o coentro!
- uai, então você gostava de coentro!
- sim! Eu só achava que não. E hoje não recuso nada com o tempero, e tenho experiências culinárias incríveis!
- hum... então você acha que eu deveria experimentar tudo o que acho estranho e diferente?
- não é bem isso. Há coisas que não precisa experimentar, pois não te farão diferença alguma na vida. Eu por exemplo, não como quiabo e não vou morrer por isto...
- então – concluiu Marta – devo perceber o que me incomoda mas é importante para eu me adaptar à esta cidade e experimentar, é isto?
- isto mesmo! A gente é que se limita, e a gente também é que tira estes limites de nossas vidas.  – Teresa olhou o relógio – e agora, uma limitação imposta. Horário de ir embora, tenho que trabalhar!
- ah, Teresa, obrigada pela conversa! Nunca mais vou esquecer da história do coentro...  – riu.
- Que bom. Sorte para você nesta cidade que vai desbravar a partir de agora!

Teresa saiu em direção ao caixa, deixando a moça a digerir suas palavras.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TERESA E A VULNERABILIDADE

O sol ameno daquela manhã de inverno entrava pela janela, aquecendo o quarto onde Teresa acabava de entrar. Faziam já três meses que ela visitava semanalmente a senhora à sua frente, a fim de lhe proporcionar alívio para suas dores, com sua massagem.
Aquela mulher, grande estudiosa de assuntos espirituais, conhecedora de tantas técnicas de meditação e cura encontrava-se praticamente impossibilitada de andar devido à complicações advindas de um antigo acidente automobilístico. Teresa gostava muito de atende-la, pois ela sempre compartilhava um pouco de seu vasto conhecimento.
Naquela manhã, porém, a senhora dirigiu-se à Teresa:
-Teresa, já te contei que desde meu acidente, há cinco anos atrás, recebo semanalmente a visita de uma senhora que vem me aplicar Reiki?
-não senhora, dona Sara.
- então, esta semana fiquei preocupada...
-por que?
- ela disse que a minha empregada recebe muitas cargas negativas e traz tudo aqui para minha casa, e que tudo isto fica comigo... estou tão desanimada! Por que será que isto acontece comigo, porque estou tão vulnerável?
Teresa não respondeu de pronto. Continuou massageando-lhe a perna esquerda, e depois de um minuto ou dois, respondeu-lhe:
- porque a senhora permite!
Dona Sara remexeu-se, e olhou para ela, boquiaberta.
- como assim, Teresa, eu permito? – o tom de voz indignado da mulher não intimidou Teresa.
- bem, dona Sara, vou lhe dizer o que penso, se me permite.
A mulher baixou a guarda e concordou. Teresa começou:
- a senhora estudou mais de vinte anos com grupos espiritualistas, certo?
- sim...
- aprendeu várias técnicas de cura também, não foi? Cura prânica, cura quântica... não é?
- sim, já te contei isto várias vezes.
- pois como é que a senhora, com todo este conhecimento, permite que algo de fora lhe atinja, dona Sara? – perguntou, com um sorriso, Teresa.
A mulher olhou-a com um ar desalentado, apontou a si mesma e disse:
- mas Teresa, olhe o estado em que me encontro!
Teresa olhou-a serenamente e disse:
- dona Sara, sei que quando estamos fragilizados, doentes, esquecemos de algumas coisas, mas vou lhe recordar algumas, está bem?  Primeiro, nós não somos somente este corpo. De acordo?
-sim, de acordo. – Sara sorriu – temos um espírito.
-isto mesmo. E sei que acredita que este espírito faz parte de uma centelha Divina.
Sara assentiu com a cabeça. Teresa continuou.
- e também sei que acredita que semelhante atrai semelhante, ou seja, que só chega até nós coisas, pessoas e fatos para os quais vibramos em igual sintonia, certo?
- claro,  isto mesmo!
- ótimo, até agora entendi tudo o que a senhora vem me contando. Por último, lembro que a senhora disse que se somos parte da Centelha Divina, não há nada que nos sustente ou nos fira que venha de fora, pois temos Deus dentro de nós, certo?
Sara olhou Teresa, e começou a rir:
- oh, Teresa, que vergonha! Eu esqueci de tudo o que falei, e me coloquei como vítima desta situação lamentável! Será que não aprendi nada?
- dona Sara, aprendeu sim, mas enquanto foi só na teoria, estava fácil. Agora seu teste está no nível prático: tem que aplicar em si toda a teoria que passou anos aprendendo. Enquanto estamos vivos, nosso aprendizado passa invariavelmente pelo corpo.
Sara abriu um grande sorriso, e seu rosto se iluminou. Falou então:
-Teresa, parece que acabei de acordar de um sono profundo! Que tola eu estava sendo! Estava me sentindo fragilizada como meu corpo, esquecendo de tudo o que aprendi.
-acontece, dona Sara. O que importa é que agora acordou, e pode ajudar a si mesma.
- hoje, quem foi o Mestre aqui, minha cara? – perguntou Sara, com os olhos marejados, olhando para Teresa.
Teresa sorriu, e respondeu:
- não existe Mestre nem discípulo, quando todos aprendem juntos.

E continuou a trabalhar, agora em silêncio, como se as duas absorvessem a intensa troca havida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

TERESA NO MERCADO

O mercado estava lotado. Dia de promoção. Teresa escolhia com atenção cada fruta, legume ou verdura. Tempo de chuva, os produtos estavam um pouco mais judiados e ela escolhia com atenção. Não deixou, porém, de reparar num senhor que a vinha acompanhando a cada gôndola. Em cada uma que parava, reclamava da má qualidade do tomate, da feiúra daquela alface ali, ou que as maçãs não estavam tão grandes. Sempre conseguia alguém para engrossar o coro de reclamações, e Teresa percebia suas expressões quase sorridentes ao conseguir dar continuidade às suas lamúrias com outro ouvinte.
Agora não era diferente. Por que, naquele mercado tão grande, o senhorzinho teimava em fazer o mesmo roteiro que ela? acabara de se afastar de onde estava o homem, sentindo a atmosfera pesada que se instalava entre ele e a outra senhora que reclamavam. Foi buscar as bananas e para sua surpresa, quando virou-se para coloca-las no carrinho, lá estava ele. Começando a reclamar também das bananas. Só que agora não havia mais ninguém, e ele reclamava encarando-a, solicitando o diálogo deletério.
- e então, a senhora não acha que estas bananas estão feias? Só porque é dia de oferta, eles escolhem os cachos mais pintados, com alguma banana amassada para pendurar. Já percebeu? – ele a encarava exigindo resposta.
Teresa respirou fundo – aquele era um de seus dias de silêncio – e olhou para o homem. O rosto enrugado, com sulcos pronunciados ao redor da boca e um enorme entre as sombrancelhas; as faces extremamente rosadas, a mãozinha se agitando para cima e para baixo. Colérico, pensou.
- o que foi que disse, senhor? – Teresa ganhava tempo.
- estou falando da qualidade das bananas, ora. A senhora não reparou?
- hum... peguei um belo cacho aqui, quer que eu escolha um para o senhor? – sorriu, dirigindo-se para o expositor com todos os cachos pendurados, tentando mudar o rumo da conversa.
- não, não! Eu sei escolher, ora essa! Então a senhora acha que está tudo bom, não é? A banana feia, a maçã pequena logo ali, o pé de alface desmilinguido... é por causa de gente como a senhora que o país não vai para frente.
Teresa olhou o homem, espantada com o comentário dele. Seu período de silêncio acabava de ser violado. Aquele homenzinho precisava ser posto no lugar.
- não estou entendendo a sua agressividade, meu senhor. Eu só estava querendo ajudar. E não entendo onde é que eu estou prejudicando os outros e até meu país com minha atitude. Mas agora eu quero que o senhor me explique.  – Teresa o encarou firmemente, e cruzou os braços.
O homem pigarreou e empertigou-se.  Piscou os olhos rapidamente, e parecia não saber o que dizer.
- pois então – recomeçou Teresa – vejo que o senhor estava me observando, não é, enquanto eu fazia minhas compras. Devo tê-lo incomodado muito e quero saber porquê.
- bem, a senhora tem uma atitude muito... muito...conformada! parece que não está vivendo neste planeta. Escolhendo no meio daquelas porcarias com este seu sorrisinho alienado no rosto. Eu já vi a senhora várias vezes aqui no mercado...
- ah, então realmente o senhor me observa, não é? Pois então, eu também o observei hoje. Sabe quando foi que o senhor elogiou algo aqui? Nenhuma vez. O senhor foi me seguindo em todas as gôndolas, e reclamou de tudo em que pôs os olhos.
O velho se mexeu, desconfortável.
- eu não reclamo do que está exposto porque, ao contrário do que o senhor pensa de mim, eu tenho consciência que em tempos de chuva os vegetais nem sempre estarão bonitos. Eles não nasceram aqui no mercado. Eu sorrio porque estou numa terra com tanta fartura que ainda assim tenho o que escolher, e tenho o que levar para casa para comer.
- está vendo? Uma conformista.
- o senhor pode pensar e me rotular como quiser, o problema é seu. Mas eu também não pude deixar de notar que o senhor reclamou de tudo, com todos que te deram oportunidade. Isto é pior do que ser conformista, o senhor sabia? Cada vez que reclama, o senhor está reforçando a situação ruim. Eu agradeço ao que encontro bom, porque quero que esta situação se repita e aumente.
- não estou entendendo. O que tem demais eu comentar?
- tudo o que falamos vibra, senhor. Cada vez que puxa conversa para reclamar com outra pessoa, o ar fica pesado à sua volta. A vida só vai lhe dar coisas ruins, porque o senhor fica procurando por elas!
- não é assim, olhe aqui, estas bananas! – e apontou para um cacho um tanto batido.
- é assim, sim, olhe estas aqui... – e Teresa mostrou vários cachos perfeitos, logo ao lado.
- eu não tinha visto... eu...
- o senhor só viu aquilo que quis ver. A questão não é só as bananas, ou as maçãs, ou o alface. Quando foi a última vez que agradeceu por algo?
O homem desviou os olhos para cima, procurando alguma lembrança. Continuou em silêncio. Teresa voltou a falar:
- pois então, faça um favor a si mesmo, aos que o cercam e ao país. Pare de reclamar e comece a agradecer. Agradeça o que tem em cada gôndola, que não foi destruído pela chuva, e que brotou porque não houve seca; agradeça a água na torneira. Agradeça porque ainda está numa democracia, e não numa ditadura. E da próxima vez que eu vir o senhor por aqui, quero ouvir um elogio, entendido?
- sim, a senhora me desculpe, eu nunca havia pensado nisto assim... – ele estava constrangido.

- é eu percebi. E agora, quer que eu escolha o seu cacho de banana? – Teresa sorriu para o homem, e deu-lhe uma piscadinha de olhos. Agora podia voltar para seu silêncio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TERESA E A MORTE

Teresa chamava sua velha amiga, que permanecia de olhos fechados, recostada no travesseiro imaculadamente branco. Sua saúde agora frágil contrastava com a mulher dinâmica que sempre fora.
- Déia, por favor, me responda, vá...
Déia meneou a cabeça, e resmungou um não. A filha entrou no quarto, deixou um copo de água para Teresa e disse:
- ela está assim há três dias; não consegue dormir de noite, me chama todo o tempo, com medo de dormir, e de dia fica sonolenta, como você vê.
- pode deixar, Bia, vou conversar com ela agora...
Teresa encosta a porta do quarto quando Bia sai, senta-se novamente ao lado de Deia e segura-lhe a mão branca e cheia de manchas senis. Deia abre um pouco os olhos, vira a cabeça para Teresa e fala:
- Teresa, não consigo dormir... me deixa dormir agora...
- agora eu vim cuidar de você, Deia, mas quero entender porque você está com medo de dormir... pode me contar?
- não sei, Teresa. Quando estou quase dormindo, começo a me agitar... vou te confessar: tenho medo de passar mal dormindo...
- sim, e se passar mal dormindo o que pode acontecer?
- não sei, Teresa... e se não conseguir chamar a Bia, o que faço?
- você está desconversando, Deia. – Teresa olhou-a e perguntou de novo: - se passar mal domindo o que pode acontecer?
- eu não sei...
-não sabe ou não quer dizer?
- não quero dizer, Teresa... você sabe, não sabe?
Teresa olhou-a e deu um suspiro. Lembrou daquela mulher guerreira, que desde a mocidade trabalhava num centro espírita, ajudara tanta gente, criara uma filha exemplar e afável dentro de sua crença, e agora estava com medo do confronto final.
- Deia, você está com medo de não acordar, se passar mal de noite?
- é acho que é isto...
- e como isto se chama, Deia? – Teresa deu-lhe um sorriso irônico, que Deia já conhecia bem.
- afe, como você é chata, Teresa! – Deia falou baixinho - Isto se chama morrer...
Teresa apertou a mão da amiga e disse:
- exato, isto se chama morrer.
- que vergonha, Teresa! Eu estou com medo de morrer!
- tenho que concordar com você, Deia! – Teresa deu-lhe novamente o sorriso irônico – você vai mesmo ‘amarelar’ no final do jogo? E tudo o que você viveu, seus anos trabalhando no centro espírita...  pensei que você acreditasse em vida após a morte, e não que fosse viver eternamente!
Deia começou a rir. Teresa a acompanhou, e se abraçaram.
-ah, garota, você tem um modo de fazer a gente enxergar as coisas... e morrer de vergonha! Que horror!
Ainda rindo, Teresa respondeu:
- Minha amiga, não posso deixar de ser sincera com você. Tenho muito orgulho de ser sua amiga, e mais ainda por saber que você é humana, e tem medos, como todos nós. E que é corajosa, e sabe admití-los. Diga para mim, o que você acredita, de todo o coração, que é a morte.
- para mim, por tudo o que vivenciei e estudei, a morte não é mais do que uma transição deste corpo físico para meu corpo espiritual.
-e você acha que isto será ruim, Deia?
-absolutamente! Este corpo está velho, cansado, doente. Meu espírito não tem estas limitações, eu poderei esta onde e com quem eu quiser com a velocidade de meu pensamento... – Deia respondeu entusiasmada, olhando para o alto.
- então, minha amiga, do que você estava com medo mesmo?
Deia pegou as mãos de Teresa, apertou-as e disse:
- minha jovem amiga, eu estava sendo ridícula. Obrigada por vir me ajudar!
- Deia, a verdade já estava com você. Eu só tive que te lembrar. Te admiro, viu?
As duas se abraçaram.

Bia ligou para Teresa dois dias depois. Era uma linda manhã de sexta feira. Deia havia morrido, dormindo. E sorrindo. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

TERESA NO MUSEU

 A tela antiga absorvia a atenção de Teresa, quando percebeu a moça elegante ao seu lado. O Museu era aonde todos se encontravam, pensou. Sorriu levemente para a moça, que lhe sorriu de volta e falou:
- nada como apreciar algo belo para melhorar o dia, não é?
- com certeza! – respondeu Teresa, percebendo que um diálogo se iniciava.
- hoje eu precisava disto. Fugi da minha empresa para ‘desestressar’ e... – a moça foi interrompida pelo celular. Atendeu soltando o ar preso nos pulmões, olhando para cima, como que em desepero, e depois de uma breve orientação a quem quer que fosse, desligou.
-viu? – dirigiu-se novamente a Teresa – é assim o tempo todo. Nem em casa, nem no final de semana tenho sossego...
Teresa meneou a cabeça sem saber o que dizer. Encaminhou-se para a outra tela acompanhada lado a lado pela moça elegante. A estas alturas ganhara uma companhia  no museu. A moça continuou a falar:
- sabe, gerencio um negócio de família, tudo reportam a mim. Como é cansativo! – falava com o olhar na tela, virando em seguida para Teresa – Ah, desculpe, eu é que devo estar sendo cansativa...
- não, sem problemas! – respondeu Teresa, lhe sorrindo – às vezes precisamos mesmo conversar com alguém. Aliás, meu nome é Teresa, e o seu?
- meu nome é Cristina; obrigada mesmo  por escutar. Nem sei porque estava te contando isto...
-vejamos... talvez porque te incomode? – respondeu Teresa, ao mesmo tempo em que apontava um detalhe no quadro que agora contemplavam – felizes eram estes aqui, que não tinham celular, não acha?
- ah, e como! – riu-se Cristina – era mais difícil por um lado, mas por outro... a simplicidade da vida que levavam...
- sim. Os dias de descanso eram sagrados. Trabalhava-se muito mas era dado a eles o direito de descansar.
-é... mas parece que não tenho mais este direito...
- como não tem? – retrucou Teresa – você sabe quem lhe dá este direito?
-não... a constituição? A religião? Não, não sei.
- oras, você mesma!
Cirstina abriu os olhos e encarou Teresa.
-Eu? Como assim?
Teresa a guiou par um banco, onde sentaram-se para apreciar os quadros. Mexeu em sua bolsa, pegou o celular e o mostrou à Cristina.
-está vendo isto aqui?
-sim...
- pois está desligado no momento.
- entendo. Mas eu estou em plena sexta-feira. Apesar de ser a dona, não posso me dar a este luxo...
- bem, se você diz... – Teresa arqueou as sombrancelhas, meneando a cabeça, euqnato voltava seu celular para a bolsa.
Sua companheira de banco voltou a falar:
-meu descanso é quando viajo, duas vezes ao ano. Escolho um destino na Europa e não há celular, e-mail nem nada para me perturbar...
Teresa concordou com a cabeça. Suas viagens eram diferentes, par dentro dos quadros, por exemplo. cada um viajava para onde queria, pensou. Cristina, olhando par cima, retomou a palavra, pensativamente:
- sabe do que tenho saudades?
- pois me conte.
- da minha adolescência. Eu ia com meus pais para nossa fzenda, e lá cavalgava o todos os dias. Adorava correr com Lorde, meu cavalo, e depois voltar e cuidar dele... naquela época não sabia o que era stress! – riu discretamente.
Teresa a olhou, um pensamento se formando, e com um sorriso maroto falou:
- que pena que esta fazenda não existe mais, não é?
- mas ela existe sim!  - respondeu Cristina.
- ora, então deve ser bem longe daqui, ou não tem mais cavalos por lá, Viramundo morreu?
- nem uma coisa nem outra. Não leva mais do que uma hora e meia até lá, e Viramundo continua firme.
- interessante. Porque você falou de uma forma que pensei... bem , deixe pra lá. Ao menos é bem mais perto que a Europa. – e deu um sorriso irônico.
A moça franziu a testa, inclinou-se para a frente como que para ver melhor o quadro e virou-se em seguida para Teresa.
- você... acha que eu deveria ir para lá? Lembro sempre da fazenda, mas vão me encontrar, eu não conseguiria relaxar...
-bem – Teresa levantou-se do banco, dirigindo-se para a outra ala do Museu – eu acredito que se telefone tenha a função ‘desligar’...
A moça, ainda não convencida:
-mas eles me acham pelo computador...
- imagino que possa desligá-lo por um tempo, desativar conversas... ou não leva-lo?
-nossa, nunca pensei nisto!
- pois então. Você é que vai estipular seu dia de descanso. Se trbalha tanto, tem todo o direito! Claro que viajar para outro país é sem dúvida delicioso, mas não pode se tornar sua única opção, não acha? Seu momento de descanso pode estar aqui e sem culpa, não acha? – Teresa apontou as telas da nova ala.
O olhar fixo no amplo salão, ombros de repente relaxados, Cristina sorriu para Teresa:
- nunca havia pensado desta forma! Como pude não enxergar algo tão simples? Estou me sentindo uns cem quilos mais leve! Obrigada pela conversa! -O telefone toca e ela o faz silenciar – agora não! – pisca para Teresa – depois desta ala, faço questão de que tomemos um café lá embaixo, sim?

- convite aceito! – Teresa assentiu, sorrindo, enquanto continuaram a apreciar os quadros com a alma mais leve.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

CURSO: AUMENTE SUA AUTOCONFIANÇA

Pessoas queridas, como alguns aqui sabem, eu também sou terapeuta. Alguns textos meus do blog, inclusive, são de cunho motivacional. Estou com um curso em São Paulo, na região de Santo Amaro, para iniciar em 04 de novembro, Serão sete encontros, durante sete semanas, para que os participantes trabalhem comigo e com a coach Denise de Sá para alcançarem a autoconfiança que precisam para terem a vida plena que merecem. 
A dinâmica do trabalho em grupo será dirigida por nós de forma agradável mas consistente. Contatos estão no folder, para informações e inscrições. O preço está super bacana, e há desconto para pagamento antecipado. 
Por que estou divulgando aqui? porque foi por meio deste tipo de trabalho que consegui ser o que sou: terapeuta, escritora, compositora, artista plástica. Venham , divulguem , compartilhem! Gratidão!

sábado, 17 de outubro de 2015

CONFISSÕES DE UMA SUMIDA

Acredite, relacionar-se é divino!
Sumi. Quem me lê por aqui bem que percebeu, não é? Mas fui sumiço dos bons. Fui cuidar de mim, colocar a vida, as ideias e as ações nos eixos. Fui lutar o bom combate, com os bloqueios que me atrapalhavam o caminho.
Nestes tempos em que todos acreditam em crise, eu fui acreditar em mim e em meu potencial. Cansei de creditar aos outros a razão das minhas quedas, falhas, faltas. Levei, sim, muito tempo para aprender isto, sou humana, mas aprendi que a energia que gasto tentando culpar pessoas e situações é mais bem gasta detectanto minhas falhas e pontos fracos, e trabalhando tudo isto para que eu me torne alguém melhor.
Quando comecei a parar de escrever, há alguns meses, me questionava se valia a pena acreditar nas pessoas, nas trocas saudáveis que sempre fiz questão de manter. Naquele momento eu estava me sentindo uma trouxa, enganada por pessoas de má fé, que de uma forma ou outra haviam explorado minhas capacidades e abusado de minha boa vontade, pessoas que não me pagaram serviços e sequer responderam a e-mails meus, quebrando mais do que laços comerciais ou de trabalho, mas a amizade que eu acreditava existir. Eu me sentia traída em minha essência, e pensei que devia parar e começar a agir diferente. Dei de não acreditar mais no potencial do ser humano, e achar que no fim eram todos uns bons filhos da puta, com o perdão da palavra.
A raiva finalmente havia minado o meu lado bom. E estava assim, achando que dar-se, doar-se, era algo ruim. Não saía nem mais palavras. Não iria dar mais nada para ninguém mesmo...
Foi quando me deparei com gestos de generosidade da parte de uma profissional. Voltei a reparar que as pessoas felizes consigo mesmas estabelecem trocas positivas com outras pessoas. Percebi que pessoas assim são bem resolvidas, e não tem problemas em dar-se, doar-se. Não tem medo de dividir seu conhecimento com os outros, para multiplicar este gesto entre aqueles que as cercam. Relembrei que há muito tempo eu já tinha este tipo de ação. E me perguntei: por que não tenho o mesmo resultado? Por que tomei tantas invertidas?
E neste meu período de silêncio e busca de respostas, obtive várias, e gostaria de partilhar. A primeira resposta foi que eu partilhava, ajudava, mas não acreditava no meu potencial interno. Segundo, eu não escutava a minha intuição quando achava que algo estava errado e me envolvia com pessoas cujas energias não ornavam com as minhas. Terceiro, eu fazia trocas porque achava que o que eu estava dando não tinha um valor intrínseco que pudesse ser cobrado. Sempre achava que o que eu recebia era melhor do que eu dava, e por isto as pessoas nunca se acharam na obrigação de retribuir a troca ou mesmo pagar pelos meus serviços. Por último, eu também não achava que podia pedir ajuda, e ficava sofrendo sozinha, ou lutando sozinha.
Depois de ter identificado estas respostas, aos poucos mudei a minha forma de pensar. Mudei também minha forma de agir. Primeiramente, voltei a estabelecer trocas com outras pessoas, ou mesmo ajudar, sem trocas, mas sempre escutando minha intuição, sentindo se eu devia ou não. Depois percebi que meu posicionamento em relação ao que faço mudou; valorizo todas as minhas facetas – escritora, terapeuta, artista plástica, micro empresária, cantora, compositora...- e isto mudou minha relação com as outras pessoas, que também me valorizam. E por último, parei de querer fazer tudo sozinha: comecei a pedir ajuda, uma mãozinha, uma forcinha... e finalmente percebi que eu estava certa quando acreditava que se podem estabelecer boas trocas entre as pessoas. E me encantei novamente com o mundo.

Por isto recomendo a todos: amem-se. Valorizem o que são e o que fazem. Invistam no potencial relacional, que é a rede de amigos e conhecidos que temos. Encantem-se com o lado bom do ser humano, não falem em crise, em maldades e atrocidades. Foquem no que há de bom. E a vida, com certeza, retribuirá com mais leveza. Namastê.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

GENTE DESBRAVADORA

Sempre gostei de pessoas desbravadoras. Provavelmente por ter passado a início de minha vida movida a covardia e comodismo, admirava àqueles que trilhavam seu próprio caminho. Sem perceber, e por falta de escolha melhor ou mais cômoda, fui colocada numa situação em que tive que desbravar uma nova cidade, fazer amigos, contas, saber controlar minha própria vida. Eu tinha 18 anos.
Ao sair daquela experiência, fui jogada em outra. Com 22 anos, eu acompanhava, apaixonada, o homem da minha vida para outro país, sem nem mesmo falar a língua. Novamente precisei me ajustar a situações, desbravar um mundo totalmente desconhecido para mim. E aprendi muito com estas experiências.
Hoje, tantos anos depois, tenho uma filha que seguiu o destino de desbravar. Deve ser algo contido no sangue. Hemácias efervescentes, talvez. Ela porém, não teve nunca a covardia e o comodismo para se escorar. Desde pequena sabia o que queria. Convicta, fez escolhas com idade em que outros só recebem ordens.
Com seu gênio forte, passou por cima de convenções, esbravejou muitas vezes, mas nunca perdeu seu foco. Não se conformava com “não pode”, ou “isto é impossível”. Para ela não havia impossibilidades, porque mais do que sonhar, ela corria para enfrentar os leões que apareciam, e partia para a ação.
Escuto muito falar sobre crenças limitantes. Eu mesma fui fiel depositária de várias delas. Mas fiz questão de não encher a cabeça dela com estas crenças. Acho que o serviço foi bem executado. Ela nunca acreditou que um orçamento apertado a impedisse de viajar para fora do país, e eis que sua determinação a levou à Irlanda.
Eu e o pai ajudamos, sim. Talvez impulsionados por sua convicção, não duvidamos um só momento sobre o fato de que teríamos todas as condições de enviá-la para outro país. Mas a ajudamos também porque aquela baixinha, pimenta e esquentada guardou cada centavo que recebeu em seu primeiro emprego, e depois no segundo, para poder ajudar nas despesas necessárias com a viagem.
Mais importante: ela sabia que teria que trabalhar no outro país, e não foi iludida, nem esperando o dinheiro acabar para buscar um trabalho. Ao chegar na Irlanda, carregava consigo um pequeno currículo, com suas experiências até então, vertido para o inglês por sua tia. Com uma semana no país, já havia distribuído um monte de currículos, em tudo quanto é biboca irlandesa, buscando um trabalho.
Ao findar um mês na nova terra, saía da casa de seus “pais irlandeses” (com quem mantém amoroso contato até hoje) e ia morar no seu primeiro cantinho, por conta própria. A esta altura, já havia arranjado seu primeiro emprego, e podia se sustentar sozinha.
Passados menos de seis meses, esta desbravadora, munida de listas, conselhos sobre métodos GTD, PNL, e muito pensamento e comportamento positivo, estuda, trabalha para se sustentar, viaja aos poucos pela Irlanda quando pode, e começou agora a conhecer outros países.
Não tem medo de nada. Vai sozinha mochilar, se hospeda com couchsurfing, e vive. Todos os dias. Se bate a saudade? Ela diz que sim. Eu digo para que descanse até a saudade passar, e continue vivendo este momento único.
Porque sei que estamos longe, mas tudo o que somos está gravado nela. Como sei? Hoje ela postou em seu facebook uma foto com flores enfeitando sua casa, dentro de garrafas, dizendo que foi influenciada por minha convivência... algo tão banal, mas que deixou marcas até em como enfeita sua casa!

Sempre gostei, como disse, de gente desbravadora. Minha filha tornou-se uma. Posso ter influenciado, mas se ela não quisesse, nada teria acontecido. Espero que este espírito a acompanhe até o último dia de sua vida. Bem vivida.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

MEU LIVRO FAZ ANIVERSÁRIO E QUEM GANHA É O LEITOR!

Tenho que comemorar. Agosto, 2012, foi quando O POENTE, O POÉTICO E O PERDIDO debutou na Bienal Internacional de São Paulo. São três anos de crescimento como escritora, poeta, artista. 
Por este motivo, quem quiser comprar meu livro até o final e agosto compra com desconto. É só falar comigo pelos comentários
. Aproveitem!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DEVER CUMPRIDO

Vou dormir,
sensação de dever cumprido.
Entre sonhos e prática,
metida,eu,
envolvi-me com os dois.
eu sou de viver
agora.
Não sei se haverá depois.

terça-feira, 28 de julho de 2015

POETAS...

Poetas são seres
Que se apaixonam
A vida inteira
Sem medo
De se apaixonar.
Poetas sentem
-mais do que
Sabem teorias-
De que o brilho
Das pessoas
Enfeitiça,
Enlaça,
E traz o caos
Criador
-e necessário –
Para a vida
Pulsar.
Poetas leem
As mensagens truncadas
Daqueles sábios
Dogmáticos
Com um irônico
Sorriso.
Poetas
Ouvem os dogmas
-sociais, regionais,
Mundiais-
E balançam
As cabeças,
Desaprovadores.
Então erguem
Suas canetas
E promovem silenciosas
Revoltas,
Incitando
Aos poetas que
Ainda não acordaram
A respeitarem
A própria
Essência.
Poetas são seres
Que não tem
A mínima vergonha
De se apaixonar
Pelo brilho
Que se estampa
Em cada

Vivo olhar.

terça-feira, 21 de julho de 2015

ERA UMA VEZ UMA CASA AMARELA



Era um domingo de julho. Um convite, há muito feito, havia sido aceito por mim, e eu desembarquei na Casa Amarela, em S. Miguel Paulista, lá pelo meio da tarde, acompanhada de marido e filho. Fui recepcionada por Akira Yamasaki e por Escobar Franelas, poetas de mão cheia e articuladores do Sarau da Casa Amarela.
Nos conhecemos – os três – através de Marciano Vasques, um ser humano de coração do tamanho do mundo, que uniu vários escritores numa antologia poética, em 2013. Desde então Akira vem me convidando para ir ao Sarau. Do outro lado da cidade  - eis a medida inexata da nossa distância. Foram necessários dois anos e um convite oficial para que eu chegasse àquela Casa.
Não havia percebido, até Akira começar a me apresentar, que eu era sua convidada especial. Especial, para mim, havia sido o convite! Relancei meu livro, O Poente, o Poético e o Perdido, em meio a muita gente atenta e afetuosa. Contei um pouco de minha trajetória e do nascimento deste livro, declamei alguns dos poemas, e cantei algumas músicas.
Conheci muitos outros bons artistas, das letras e dos sons; comi muito bolo de fubá delicioso, tomei o quentão da Rosinha, recebi o grande sorriso da Sueli, mulher do Akira, e zilhões de abraços e palavras maravilhosas de todos os que participaram do Sarau.
Tive a honra de fechar o evento com um grupo de chorinho fantástico, cantando Carinhoso. Emoção pura! Tudo ali transbordava: arte, amor, cuidados, amizade. Me senti acolhida, valorizada pela amizade de tão ilustres compadres de letras e música.
A vida é feita de momentos. Mas há momentos, como este, que fazem valer toda uma vida...

A Casa Amarela tomou de vez o meu coração!

aconteceu no 36º sarau da casa amarela (3)

Ana Claudia 

então finalmente a minha comadre ana
claudia marques veio à casa amarela.
após dezenas de convites, inúmeros
pedidos e até algumas súplicas, enfim
ela veio à casa amarela. e veio com seu
imenso sorriso pleno de claridades e
clarezas. e trouxe sua poesia essencial
plena de generosidades e cantos de
pássaros. e trouxe seu canto pleno de
de suavidades de riachos cristalinos e
encantamentos. bentivinda seja, ana
claudia, obrigado por ter vindo e volte
sempre que quiser porque agora você
conhece o caminho.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

PROIBIDO

Diminuta, sou só  meu ventre, apertado, contraído, na expectativa de ser mais. A paixão sem dono ainda assim me faz sonhar, como se meu corpo fosse jovem, e meus sonhos, possíveis.
Instauro o reinado de minha alma, a buscar a tua, perdida, escondida, amuada embaixo da antiga goiabeira. Ficaste ali, irritadiço, ante a inevitável separação  de nossos lábios ao soarem passos de meu pai no antigo quintal.
Pois agora, escuta! Sorri... dar-te-ei o beijo que ansiavas. Meu pai é morto, as traças já corroeram as cambraias do vestido de menina, o relógio antigo nem bate mais.
Escuta, menino, negro como o carvão, sorriso alvo de aurora. Estiveste comigo durante tantos anos, tua proibida beleza me amolecendo as pernas, a espera de teu calor me aquecendo nas noites frias e sem amor.
São mortos todos os que nos diziam proibições. Suas memórias também estão assim, mortas. As ruins, querentes de sobreviver, queimei junto com papéis que amarelavam no sótão.
Vivos estão nossos momentos. Os banhos de rio, onde minha branquidão de fantasma-menina feriam tuas retinas, e tua pele negra me chamava para a vida.
Ainda sinto: relva, chão, corpos, tu e eu, proibidos para aquela gente que desconhecia amor. Ainda sofro: tú com tuas malas, eu para o sanatório, frio, castigo para quem queria ser o que queria ser.
Os gritos de que eu havia manchado minha honra já vão longe. Antes tivesse me manchado de tua cor, me confundido em tua pele, e partido contigo. Mas minha vida não me pertencia. Eu era, como tu, propriedade, pau mandado. Eu, branca lua, tu, sorriso de sol.

Expandida ante estas memórias, sinto que ainda te tenho... menino da goiabeira, moço do rio, corpo de calor, sorriso alvo, meu beijo perdido, meu eterno amigo, garoto crescido, fruto proibido, meu amor...
Foto: Dani Hiro

domingo, 28 de junho de 2015

A REALIDADE FICCIONAL QUE NOS FASCINA


O que é realidade? Eis a pergunta que vem me cercando desde que comecei a delinear este artigo. Nós, escritores, temos o péssimo hábito de inventar realidades outras que não esta – já bem complexa- na qual vivemos. De onde vem esta vontade de inventar outras realidades? Penso eu e hão de concordar, este é um hábito ancestral. Deve ser uma inveja do poder criador que atribuímos aos deuses. “Se eles podem, eu também posso” -pensou o primeiro inventor de histórias – “e vou fazer melhor do que o original!”
Antes de Guttemberg ou mesmo antes dos papiros, já haviam histórias sendo passadas adiante oralmente, de geração em geração. O ser humano não entendia a sua própria realidade, e para explicá-la, tentar decifrá-la e aplacar seus próprios medos, inventou outras. Assim nasceram lendas sobre a criação deste mundo; sobre moradas de deuses no Olimpo,  em Asgard, ou os Vedas, com todo seu panteão de deuses, e suas histórias; ou o Xintoísmo, para os japoneses. Obviamente todas as outras religiões – do antigo Egito, a Judaica, e depois a Cristã, a Islâmica- falavam e falam de outras realidades ficcionais. Gerações e mais gerações se pautaram – e se pautam- por estas ditas realidades, tentando alcançá-las, e serem dignos de pertencerem a elas! Sinceramente, é invejável não só a capacidade destes primeiros contadores de histórias, que tem um público fiel até hoje. Tanto quanto o é a capacidade do ser humano de transportar-se e acreditar em algo que não vê, não toca e não cheira!
Nós, humanos do século XXI, não somo tão diferentes assim dos nossos ancestrais. Me arrisco a dizer que nosso cérebro continua no mesmo estado de evolução, precisando sempre de uma realidade paralela para poder suportar a vida nua e crua. Ainda há aqueles que matam em nome de suas realidades – vide todas as brigas religiosas, ideológicas ou partidárias que presenciamos diariamente, com espanto e horror. Quer um caso de amor mais longo com a ficção do que a destas pessoas?
Podemos nos achar mais evoluídos, talvez, que estes nossos irmãos, mas temos fãs clube para Harry Potters, Sociedades do Anel, Nárnias, Heróis Marvel, príncipes e princesas, vampiros etc,e nos rendemos a estas realidades convincentes, sonhamos com elas, vivemos por elas.
O bom ficcionista nos encanta com uma realidade absurdamente verossímil, pois cria leis que a regem, convencendo nosso cérebro. Mas não basta para isto uma descrição detalhada dos locais e suas leis. Seja lá o mundo para o qual viajemos nas páginas de um livro, dentro de um filme ou nas palavras de um bom contador de histórias, só seremos convencidos da existência do que escutamos, vemos ou lemos se houver emoção! Se esta realidade puder despertar os nossos sentimentos, emprestaremos a ela nossos sentidos; veremos com os olhos da imaginação, sentiremos o vento, o frio o calor, experimentaremos sabores e texturas.

A arte de ficcionar a realidade, portanto, passará sempre pelos cinco sentidos. Nossa própria realidade só existe baseada neles. Portanto, ao escrevermos, contarmos uma história, não podemos esquecer de temperá-la com sentidos e com sentimentos. Não há Terra Média que sobreviva à falta de romance entre elfos e reis, ou ideais a serem alcançados por heróis, improváveis ou previamente designados. E não há realidade, ficcional ou não, que sobreviva sem sentimentos e sentidos.

(este artigo foi publicado a revista Plural "Solombra")
Foto: Dani Hiro, Irlanda.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

NOVOS VOOS

Comunico a todos que a partir de ontem, dia 16 de junho, pedi desligamento do selo Scenarium Plural.  Não publicarei mais na revista Plural, nem meus textos e livros serão mais publicados por este selo editorial.
Foram dois anos de trocas e aprendizado. Sempre honrei a participação na Scenarium Plural com meu profissionalismo, pontualidade, presteza no que diz respeito a produção e edição de material literário, e sou grata por tudo o que aprendi nesta troca contínua de experiência.

Aos amigos e leitores que angariei nesta convivência, meu muito obrigada. E que me acompanhem em meus novos voos.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

FAINA

Hoje minha poesia
foi a faina
diária: tirar
pó das
reminiscências,
vasculhar entranhas e
lavar o chão
coberto de
sonhos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Lá de Dentro

Minha alma em ebulição já produziu diversas formas de arte. Música é uma delas. Lá de Dentro é o título do CD onde reuni algumas de minhas composições.
Não tenho intenção de me tornar diva a esta altura da vida. Então compartilho com vocês as músicas, no Sound Cloud.
Escutem, sintam, divirtam-se.
https://soundcloud.com/ana-claudia-marques-4

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

GAIA

Desde que o mundo começou a ser mundo, eu existo. Sou Terra,  magma, força primordial que a tudo percorre. Matéria, átomo, energia condensada, cá estou. Não sou a Alma, sou o que é vivificado por ela. Sou o espelho dela.
Tenho necessidade de vida, de prenhez, de semente. Tenho o ímpeto do calor, do sol, do movimento. Ainda assim, não sou o Sol, não sou o Vento. Eles são outros. Eu sou Uma.
Quando me desfaço, ainda assim, sou eu. Para uns, o pútrido, para outros, alimento. Para alguns, o lixo, para outro, novo elemento. Sou a Terra e minha essência é de vida, transformação, transmutação. Eu Sou.
Meu sangue é o magma. Minhas vísceras,  entranhas geradoras de sementes, tubérculos, nascentes. Quando louca,  sou vulcão; se desespero, terremoto. Quando choro, inundação. E se desolo, terra crestada. Cansei de ser violada.
Minha pele é esta crosta em que pisam, dançam, correm, estes animais de almas pouco desenvolvidas. Eles pensam que são tudo, mas eu sou Mais. Vieram de mim, são constituídos por meus elementos, e quando retornarem a seu sono de almas sem voz, deporão seus corpos em meu ventre. E eu, Anciã sem idade, sem começo nem fim, os devorarei para novamente serem partículas promissoras de vida.

Eu Sou o Portal para o começo e o fim de tudo. Não preciso ter voz, sou ação. Não há quem me domine, comigo tenham cuidado. Minha natureza é dupla: ira e afago.

sábado, 10 de janeiro de 2015

REVISITANDO EMOÇÕES

O ano passado foi pródigo em emoções. Também foi um tanto corrido, mas o balanço geral eu posto aqui. Participei, como colunista, das quatro edições da Revista Plural, pelo selo Scenarium Plural. Publiquei, pelo mesmo selo, meu segundo livro de poesia, "Pele, Osso e um Pouco Mais". E 10 contos meus foram publicados na coletânea Retratos. Também pela Scenarium Plural, participei do projeto Caderno de Notas, nas 3 primeiras edições, e fui uma das escolhidas para participar da coletânea A Sul de Nenhum Norte.

Também foi um ano de aprendizado. Estive presente no Write in Canela, com James Mc Sill, em maio de 2014, como participante e parte da organização; também no Congresso de Autores com o qual James nos brinda todos os anos, dois meses depois, também como participante e organizadora.

Participei da Bienal do Livro de São Paulo, no estande da União Brasileira de Escritores, e também no estande da editora Biblioteca 24 horas.






Fui entrevistada por Noscilene Santos do programa A Hora do coaching, em abril. Já no final do ano, fui convidada a dar uma entrevista para a escritora Arriete Vilela, na Gazeta de Alagoas, entrevista esta que saiu logo no primeiro sábado de 2015.

Consegui terminar a gravação de meu CD, Lá de Dentro, também no ano passado.

São pequenas conquistas, ou grandes conquistas? Só sabe o coração de quem as tem.

Foi um ano em que estive muito em casa, guardada em meus silêncios e cuidando dos meus. A parte social foi deixada um pouco de lado, para repor minhas energias. Mas meus amigos continuam guardados do lado esquerdo do peito, e sabem disto. Participei de alguns lançamentos de amigos, quando meus compromissos familiares deixavam. Fizemos saraus em casa, trouxemos os amigos para perto.

2015 chegou, com novas oportunidades, novidades e sonhos a serem concretizados. Vamos embarcar nele!









Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...