sexta-feira, 11 de setembro de 2015

GENTE DESBRAVADORA

Sempre gostei de pessoas desbravadoras. Provavelmente por ter passado a início de minha vida movida a covardia e comodismo, admirava àqueles que trilhavam seu próprio caminho. Sem perceber, e por falta de escolha melhor ou mais cômoda, fui colocada numa situação em que tive que desbravar uma nova cidade, fazer amigos, contas, saber controlar minha própria vida. Eu tinha 18 anos.
Ao sair daquela experiência, fui jogada em outra. Com 22 anos, eu acompanhava, apaixonada, o homem da minha vida para outro país, sem nem mesmo falar a língua. Novamente precisei me ajustar a situações, desbravar um mundo totalmente desconhecido para mim. E aprendi muito com estas experiências.
Hoje, tantos anos depois, tenho uma filha que seguiu o destino de desbravar. Deve ser algo contido no sangue. Hemácias efervescentes, talvez. Ela porém, não teve nunca a covardia e o comodismo para se escorar. Desde pequena sabia o que queria. Convicta, fez escolhas com idade em que outros só recebem ordens.
Com seu gênio forte, passou por cima de convenções, esbravejou muitas vezes, mas nunca perdeu seu foco. Não se conformava com “não pode”, ou “isto é impossível”. Para ela não havia impossibilidades, porque mais do que sonhar, ela corria para enfrentar os leões que apareciam, e partia para a ação.
Escuto muito falar sobre crenças limitantes. Eu mesma fui fiel depositária de várias delas. Mas fiz questão de não encher a cabeça dela com estas crenças. Acho que o serviço foi bem executado. Ela nunca acreditou que um orçamento apertado a impedisse de viajar para fora do país, e eis que sua determinação a levou à Irlanda.
Eu e o pai ajudamos, sim. Talvez impulsionados por sua convicção, não duvidamos um só momento sobre o fato de que teríamos todas as condições de enviá-la para outro país. Mas a ajudamos também porque aquela baixinha, pimenta e esquentada guardou cada centavo que recebeu em seu primeiro emprego, e depois no segundo, para poder ajudar nas despesas necessárias com a viagem.
Mais importante: ela sabia que teria que trabalhar no outro país, e não foi iludida, nem esperando o dinheiro acabar para buscar um trabalho. Ao chegar na Irlanda, carregava consigo um pequeno currículo, com suas experiências até então, vertido para o inglês por sua tia. Com uma semana no país, já havia distribuído um monte de currículos, em tudo quanto é biboca irlandesa, buscando um trabalho.
Ao findar um mês na nova terra, saía da casa de seus “pais irlandeses” (com quem mantém amoroso contato até hoje) e ia morar no seu primeiro cantinho, por conta própria. A esta altura, já havia arranjado seu primeiro emprego, e podia se sustentar sozinha.
Passados menos de seis meses, esta desbravadora, munida de listas, conselhos sobre métodos GTD, PNL, e muito pensamento e comportamento positivo, estuda, trabalha para se sustentar, viaja aos poucos pela Irlanda quando pode, e começou agora a conhecer outros países.
Não tem medo de nada. Vai sozinha mochilar, se hospeda com couchsurfing, e vive. Todos os dias. Se bate a saudade? Ela diz que sim. Eu digo para que descanse até a saudade passar, e continue vivendo este momento único.
Porque sei que estamos longe, mas tudo o que somos está gravado nela. Como sei? Hoje ela postou em seu facebook uma foto com flores enfeitando sua casa, dentro de garrafas, dizendo que foi influenciada por minha convivência... algo tão banal, mas que deixou marcas até em como enfeita sua casa!

Sempre gostei, como disse, de gente desbravadora. Minha filha tornou-se uma. Posso ter influenciado, mas se ela não quisesse, nada teria acontecido. Espero que este espírito a acompanhe até o último dia de sua vida. Bem vivida.

2 comentários:

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