sexta-feira, 31 de maio de 2013

SONHANDO COM ANJOS

Tenho sonhado com anjos
Pendurados em meu telhado.
Tenho sonhado com anjos
Deitados ao meu lado.
Me olham, sedutores,
Como se fossem assim,
Naturalmente,
Meus pares.
Eu os encaro
E eles somem pelos ares.
Os procuro quando escurece,
Por meio do pensamento
Ou de prece,
Sonhando que me protejam
Ou simplesmente
Comigo estejam.
Tenho sonhado com anjos
Pendurados em meu telhado
Cantando para mim
Canções de Tom Jobim,
Ou me olhando assim,

Todos em cuidados...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

GENESIS

         Chuva boa, frio entrando na pele, enrolada no xale, café quente na mesa ao lado... Feliz, a pena convida ao calor da mão para romper as nuvens brancas do vazio do papel e criar um novo mundo. Ossos do meu ofício, mudar a natureza do dia e dos seres, com a mágica da palavra, do sonho, do devir.
         A poesia do cotidiano nos atravessa sutilmente, mudando nossos átomos de lugar. Não percebemos, não, pelo menos quando acordados, atarefados. Só nos damos conta quando semicerramos os olhos, instantes antes de dormir, quando o corpo jaz em semi-morte, ausência da consciência que nos limita e nos devora.
         E a chuva boa, lavando a alma da cidade. O cinza vai embora, dando lugar para a luz da lua... agora as luzes da rua começam a se acender, iluminando caminhos, veredas de sonhos e brumas, rios caudalosos de pessoas e carros que passam, com pressa de acharem onde desembocar.
         Algumas vezes, faço de um sonho meu inicio de escrita. Sim, pois acredito em sonhos, e que eles prenunciam a realidade. Acredito em mudar o mundo com uma pena na mão, canção na voz, mansuetude no coração. Acredito, acredito, acredito.
         Acredito que pessoas são presenças, são atos, são fatos, são ausências. Pessoas são e se transformam, no ato, na ação. E não adianta rótulo, fantasia, charme, pois não há mentira no mundo que um mau ato não desarme. E por isso cuido para que o ato não machuque, não prejudique, não maldiga. Difícil esta vigília, mas o que fazer com a besta fera que vive dentro de mim, a não ser trazê-la na coleira, sempre andando ao meu lado, nas minhas vistas? Não possuo a virtude da perfeição, somente a pretensão...

         E o frio me penetra nos ossos, sinto não ser nada além deste limite a que chamo corpo, pele, invólucro de minha alma. E se realmente posso criar mundos, desejo (ah, desejo!) que a vida seja leve, sempre. E que o peso seja, tão somente, uma forma de não se flutuar...

sábado, 11 de maio de 2013

APRENDIZADO


Há o fato que ocorre, passa e só. Há aquele, porém, que se faz presente, que se apropria de nós, de tal forma que nunca mais voltamos a nossa antiga natureza. Ela é modificada, re-novada, amplificada. Nova expressão de Ser. São palavras que já estavam adormecidas em nós, e que são acordadas por particular vibração. E foi o que ocorreu comigo, ontem.
    Fui a um Congresso de Autores, esperando encontrar teorias; encontrei pessoas apaixonadas, histórias de plebeus e plebéias que lutaram contra seus próprios “dragões internos”, como falam os chineses, e se tornaram os heróis de suas próprias histórias. Mais do que tudo, encontrei pessoas que fizeram seu caminho na literatura acompanhadas, contrariando a ideia tão difundida em nosso meio de que o escritor é um solitário ser sofredor, que sangra no papel.
    Encontrei pessoas agregadoras, que se comprazem em compartilhar conhecimento, em conhecer pessoas, tornarem-se amigos e apresentá-los a outros. Encontrei pessoas que não tem vergonha de agradecer a quem lhes estendeu a mão, mil vezes se preciso for.
    Encontrei mestres divertidos, que contam parábolas para ensinar, e nos ensinam a cortar o que não é necessário de um texto, de um script, e, porque não, da vida. Estes mesmos mestres também me ensinaram que acima de qualquer técnica, acima de vocábulos bem escolhidos, o que prevalece para cativar a quem lê é a emoção que toca as cordas do coração alheio.
    Reaprendi que navegar é preciso, pela necessidade e também pela precisão do ato de se jogar no desconhecido, somente com uma estrela a te guiar. Me dei conta que nunca fui um peixe fora da água, mas somente um peixe no aquário errado. Aprendi que sozinhos podemos ir longe, mas de mãos dadas com outras pessoas, podemos ir além.
    E a lição então, se resumida, seria essa: cortem tudo o que for desnecessário a uma boa ação, mas não cortem, por favor, o amor, a amizade, a solicitude e a gratidão.




Segundo Congresso de Luso-brasileiro de Autores de James Mc Sill
(fotos de Noscilene Santos e Ana Lucia Bertolani)


REQUISIÇÃO MATERNA


         Dia das mães, sim. Humm. Mesmo? Então, eu como mãe posso pedir tudo o que eu quiser? Sim? Então e vou pedir, aliás, vou requerer, que é um termo mais bonito, ouvi outro dia, parece assim que impõe  respeito.
         Como mãe gostaria de requerer, assim, requerendo mesmo, querendo duas vezes, e mais se pudesse, que fosse retirada de todos os livros aquela ideia do tal Fróide, que disse que a mãe é culpada de tudo. Sabe o Fróide? Não? Desculpe, se escreve Freud, e não se fala ‘Freude”? já se vê de onde começaram os problemas desse homem...
         Como eu ia dizendo, esse homem não devia gostar das mulheres, devia invejar muito a gente, sabe, porque temos a capacidade de gerar um filho, e ele, não. Pura inveja. Olha aí: mãe espera um filho nascer, nove meses, fica lá, barriguda, com dor nas costas, não pode rir senão faz xixi no pé, aguenta o nenê chutando o estômago, tem um parto que varia de muito rápido a muito sofrido, dependendo se a mulher é parideira ou carpideira, e esse tal Fróide vem com um monte de ideia absurda!
         Por exemplo, ele veio com o tal complexo de Édipo. Me contaram que o tal Édipo casou com a mãe. Olha o absurdo, gente! Quem disse que eu quero casar com meu filho? Vixi! Não que ele não seja bonito, imagina, é o menino mais bonito do mundo, mas que ideia! Mas veja só, vai ser difícil ele encontrar uma moça que esteja a altura dele... mas não tem problema, enquanto isso, a gente cuida, que dever de mãe é esse. Filho é filho até o dia da nossa morte.
         Outra coisa que eu ouvi, no metrô, quando vinha pra casa. Esse tal de Fróide disse que as mães são culpadas por todos os problemas dos filhos. Como assim, como assim? A gente perde o sono, deixa de comprar pra gente pra dar pro filho, só pensa neles, e a gente é culpada de tudo? Não concordo com isso. Mãe devia ser abençoada por tudo, não culpada por tudo! Todas as papinhas que eu fiz, as noites que velei aquele menino com febre. E quando ele corria pro meio da minha cama, querendo dormir junto comigo e com o pai? Hem? Que culpa tenho eu de cuidar do meu filho, ajudá-lo a estudar, ensiná-lo a andar de bicicleta, lhe dar educação?
         Por esse motivo é que como mãe, nesse dia importante, que é meu e de todas as outras mulheres que foram, são e virão a ser mães, eu faço essa requisição, formal até demais pra minha pessoa, mas importante: parem de acreditar nesse Fróide, ele deve ter nascido de um ovo!! Acreditem em nós, mães: nós amamos a todos os filhos. Se isso for errado, então errei. Mas errei com gosto, e vou continuar assim, errando, até o dia do não mais ser... porque ser mãe, é saber dar e tirar na medida exata, porque o que fortalece, já dizia minha mãe, é o que não mata!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

DESEJO

Desidereo
Desejo
Algo que vem
com a estrela?
Sim, que pedimos aos céus.
Mas de onde,
Se tão terreno?
Seria o pedido
Para que a ventura
dos céus
Se faça na terra?
Desidereo
Seria aquilo
Que se pede ao alto,
mas que só obtemos
quando totalmente
ligados á carne?
Quem poderá explicar?
Desejo
é a ausência de algo
que nos faz levitar...


quinta-feira, 2 de maio de 2013

CAÍDO


E tudo, tudo fica dançando na minha frente. Tenho vontade de dançar, mas com quem, porque, para que? Tenho vontade de dançar, para espantar a vontade de chorar que me amarra a garganta. Escondo a vontade, e fico vagueando pela casa, como perdido, desencontrado que estou de mim e de meu mundo.
Minhas costas doem. Há um nó, que veio da garganta e desceu pelo meu ombro, e depois, desceu, mais um pouquinho, no lugar onde cortaram minhas asas. Sabe? Como o anjo da asa quebrada, da asa cortada. Acho que a minha cicatriz dói, dói. Principalmente  quando o frio chega, e nos faz ficar quietos, pensando na vida, tentando lembrar do que já esquecemos, e tentando esquecer o que não paramos de lembrar. Como ser gente é complicado. Preferia ser anjo, e ficar cantando nas alturas, glória in excelsis. Agora, glória só quando ganha o time de futebol da rua ao lado, quando os meninos, molhados de suor, se abraçam, sonhando glórias internacionais e chuteiras de dez mil dólares.
Minhas asas murcharam quando foram cortadas, sabe? Na verdade não sei se eu é que murchei, e elas ficaram ali, intactas, ou ao contrário. Perdi minhas macias penas, só me sobraram os duros ossos, a carne que agora perdeu o viço da eternidade. E eu que desprezava o eterno... achava tudo tão igual, tão perfeito e enfadonho. Hoje tenho saudades de minha casa, mas as dores me mostram que vim para onde eu queria. Aqui não há iguais, tudo é diferente. Todos querem ser mais e mais, e isso dói, eu sinto a dor do mundo na minha carne.
Sim, caí, me quebrei, me dei mal. Os nós que cruzam meu corpo parecem contas de colar, de tão tensos. Não sentia nada disso quando cantava glórias, quando tinha asas, quando namorava o eterno. Quebraram minhas asas... depois cortaram minhas asas...olhaí a cicatriz, atrás do ombro. Não viu? Mais perto, pode mexer, é a ponta do osso, que ainda machuca minha carne. Não sou mais anjo, mas ainda durmo de bruços, para não machucar a lembrança das minhas asas perdidas.
No céu todos estavam juntos, em harmonia. Eu achava tão monótono (será que já falei isso?), e hoje me canso com a solidão. Por isso sempre estou no meio de multidões em festa. Preciso me sentir vivo, pulsante, no ritmo de todos os que passam por mim e não me veem; aqui ninguém vê a ninguém, só se houver  um bom motivo, um grande interesse. Minhas costas doem, já falei isso? Um nó, aqui, onde cortaram minhas asas...


ENTREVISTA A SELMO VASCONCELLOS

Confiram a entrevista que dei a Selmo Vasconcellos. Reproduzo aqui a entrevista. Se quiser, também é só clicar no link. Aproveitem para conhecer outros escritores entrevistados!

http://www.selmovasconcellos.com.br/colunas/entrevistas/ana-claudia-marques-entrevista-no-494/

No ano de 1970 nascia, em Sampa, uma menina, que recebeu o nome de Ana Claudia. Começou a ler com cinco anos, desenhar com sete, tocar piano com oito, e a escrever poesia com nove anos. Só aprendeu a cantar com doze, quando já tocava violão. Seus cadernos de poesia foram se acumulando ao longo dos anos.

Formou-se em Terapia Ocupacional, tentando juntar as artes que amava, com a psicologia da mente humana, que a atraia. Durante o curso, cantava nos palcos da cidade de S. Carlos, e coordenava um show musical feito pelos alunos, visto que sua alma tinha sede de musica e poesia, o que havia de sobra nestes eventos. Também foi aí que escutou, pela primeira vez, que era uma escritora. Uma semente de um livro fora plantada.

Formou-se e casou-se no mesmo ano, 1992, e seguiu com o esposo, nissei, para o Japão, só retornando em 1996. Aprendeu o japonês, aperfeiçoou o seu inglês e espanhol, aproveitou para aprender a vestir kimono, a dança da colheita e fazer ikebana…

Depois que voltou, tudo mudou: teve uma filha,  voltou-se para as terapias holísticas, depois teve um filho, resolveu fazer acupuntura. E os cadernos de poesia se acumulando… Compunha músicas aqui e acolá, cuidava da v ida, trabalho, casa e filhos, mas algo ainda não se aquietava dentro dela. É que a semente do livro já estava germinando. Ela escolheu poemas e decidiu que iria lançar um livro. Nove meses depois, o livro estreava na Bienal de SP, em 2012.

Hoje continua escrevendo, compondo, sendo terapeuta, mãe, companheira… um outro livro, infantil, está a caminho, e a porta está aberta para novas gestações. Não se sabe se será feliz para sempre, mas com certeza, aproveitará cada momento com a certeza que é único, e vivendo plenamente.

ENTREVISTA
 
 FOTO: Ana e Melchior
SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

ANA CLAUDIA MARQUES – Além de escritora, sou terapeuta holística (trabalho com acupuntura, vários tipos de massagem, reiki e florais de Bach), esposa e mãe de dois filhos. Também tenho um viés musical,  toco piano e violão, canto, além de compor nas horas vagas. Gosto também de desenhar, sou autodidata. Tenho um blog, http://pontocontos.blogspot.com.br, onde, desde 2010, publico contos, crônicas e poemas.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

ANA CLAUDIA MARQUES  – Desde que li meu primeiro livro, com cinco anos, não parei mais. Comecei a escrever poemas com nove anos, e este escrever evoluiu para contos, crônicas, prosa poética, livros engavetados… fui “descoberta” por Deonísio da Silva, há muitos anos. Foi o primeiro a me dar consciência que o que eu escrevia era bom, e que eu já era uma escritora. Ainda assim, demorei mais vinte anos para ter coragem de assumir este meu lado, e publicar meu primeiro livro.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados?

ANA CLAUDIA MARQUES  – Tenho um livro publicado, de poesia, chamado O POENTE, O POÉTICO E O PERDIDO, lançado em agosto de 2012, na Bienal Internacional do Livro, pela Editora Biblioteca24horas. Demorei muito, mas o meu primeiro livro já veio com “modernidades”, pois tem sua versão em e-book, além da impressa. Também acabo de ter um livro infantil escolhido para publicação, pela editora Mais que Palavras, o que muito me honra.

SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias?

ANA CLAUDIA MARQUES – Para mim, tudo, tudo mesmo, pode me fazer escrever: uma frase, uma palavra, uma cena… na verdade, ao longo dos anos tive que me policiar, pois a vida nos pede que sejamos práticos – principalmente se você tiver casa, filhos etc -, e eu não era nem um pouco prática… Talvez por isso fui mudando o meu rumo, e comecei a escrever contos, crônicas, em meus momentos de silêncio. A poesia precisa de espaço para se acomodar na gente.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?

ANA CLAUDIA MARQUES  – Todos aqueles que nos fazem querer ler mais, que me deixam com raiva quando acabo de ler o livro. Não vou citar aqui nomes, porque cada escritor é uma viagem particular, com mensagens particulares, para momentos específicos. Livros que li ardorosamente quando adolescente, hoje sequer abriria, pois não é mais do meu interesse. Do mesmo modo, há livros que hoje me encantam, que estou preparada para ler com a bagagem atual, e que não me diriam nada há alguns anos.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

ANA CLAUDIA MARQUES  – Abracem a poesia, dancem com ela, durmam com ela. A poesia foi a primeira forma de orar, e nós, poetas, somos ainda aqueles que conseguem falar com o Divino, porém sem divinizá-lo. Por isso somos necessários nesse mundo…

OBRIGADA PELA OPORTUNIDADE DA ENTREVISTA!

Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...