quinta-feira, 2 de maio de 2013

CAÍDO


E tudo, tudo fica dançando na minha frente. Tenho vontade de dançar, mas com quem, porque, para que? Tenho vontade de dançar, para espantar a vontade de chorar que me amarra a garganta. Escondo a vontade, e fico vagueando pela casa, como perdido, desencontrado que estou de mim e de meu mundo.
Minhas costas doem. Há um nó, que veio da garganta e desceu pelo meu ombro, e depois, desceu, mais um pouquinho, no lugar onde cortaram minhas asas. Sabe? Como o anjo da asa quebrada, da asa cortada. Acho que a minha cicatriz dói, dói. Principalmente  quando o frio chega, e nos faz ficar quietos, pensando na vida, tentando lembrar do que já esquecemos, e tentando esquecer o que não paramos de lembrar. Como ser gente é complicado. Preferia ser anjo, e ficar cantando nas alturas, glória in excelsis. Agora, glória só quando ganha o time de futebol da rua ao lado, quando os meninos, molhados de suor, se abraçam, sonhando glórias internacionais e chuteiras de dez mil dólares.
Minhas asas murcharam quando foram cortadas, sabe? Na verdade não sei se eu é que murchei, e elas ficaram ali, intactas, ou ao contrário. Perdi minhas macias penas, só me sobraram os duros ossos, a carne que agora perdeu o viço da eternidade. E eu que desprezava o eterno... achava tudo tão igual, tão perfeito e enfadonho. Hoje tenho saudades de minha casa, mas as dores me mostram que vim para onde eu queria. Aqui não há iguais, tudo é diferente. Todos querem ser mais e mais, e isso dói, eu sinto a dor do mundo na minha carne.
Sim, caí, me quebrei, me dei mal. Os nós que cruzam meu corpo parecem contas de colar, de tão tensos. Não sentia nada disso quando cantava glórias, quando tinha asas, quando namorava o eterno. Quebraram minhas asas... depois cortaram minhas asas...olhaí a cicatriz, atrás do ombro. Não viu? Mais perto, pode mexer, é a ponta do osso, que ainda machuca minha carne. Não sou mais anjo, mas ainda durmo de bruços, para não machucar a lembrança das minhas asas perdidas.
No céu todos estavam juntos, em harmonia. Eu achava tão monótono (será que já falei isso?), e hoje me canso com a solidão. Por isso sempre estou no meio de multidões em festa. Preciso me sentir vivo, pulsante, no ritmo de todos os que passam por mim e não me veem; aqui ninguém vê a ninguém, só se houver  um bom motivo, um grande interesse. Minhas costas doem, já falei isso? Um nó, aqui, onde cortaram minhas asas...


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