segunda-feira, 26 de maio de 2014

INEXORÁVEL

No volante do carro, percebo as mãos ressecadas, as manchas senis se delineando. Os joelhos reclamam quando aperto os pedais neste trânsito infernal, andando a doze por hora numa das artérias principais da cidade. Provavelmente, enfartando, a antiga metrópole! E eu aqui, constatando que não estou muito melhor do que ela: desgastada, entupida – com certeza – por dentro, mas proclamando minha vida a cada respiração.
            Ao meu lado esquerdo, vislumbro árvores centenárias, Parque do Ibirapuera. A diferença das espécies: árvores tornam-se esplendorosas a cada punhado de anos que acumulam, e seus troncos ganham nódulos, vincos, que as enfeitam. Humanos decaem, perdem centímetros, acuidade visual, paladar para a boa comida; a musculatura diminui, e a pele sobra, rugas, vincos, marcas do tempo, nem sempre – quase sempre – desagradáveis.
            Meu compromisso exige pressa, mas minha idade grita calma. Ganhei, pela impossibilidade da eterna juventude, a virtude da paciência. Confesso, ainda sou impaciente, afinal o sangue quente grita em minhas veias, mas melhorei um bocado. Constatação dos outros, palavras alheias. Meu espírito continua com vinte anos, e não havia se dado conta dos silêncios que me tomaram nos últimos tempos, frente a tempestades dos outros. Antes trovoava junto, hoje aprecio o espetáculo nem sempre agradável.
            Novamente olho as minhas mãos. Um enfado toma meu peito. Por que, penso eu, o corpo não acompanha o espírito e estaciona na nossa melhor idade? Não precisaria ser aos vinte anos, talvez mais para frente, no auge do corpo, da libido, da beleza consciente... mas as mudanças se infiltram a cada dia – ou talvez a cada noite, quando nossa alma deixa o corpo á sua própria mercê.
            Recordo de momentos engraçados, quando perguntava a minha mãe por que meu vestido havia encolhido, aos sete anos; ou quando tentava omitir para mim mesma os pequenos seios apontando, como se pudesse continuar minha infância deste modo. Inconteste, o corpo tomou formas, e não sabia o que fazer com elas; as escondia em largas roupas, ombros curvados, cabelos caídos no rosto. Perdia-me em outros mundos, mais seguros do que este, entre palavras e traços, melodias e sonhos. Lembro de uma foto antiga, de maiô, que escondi por anos, me achando horrível. Ao resgatá-la, dia destes, olhei aquela bonita moça e pensei no desperdício com que nos brinda a ignorância da tenra idade.


            A realidade, o corpo, a madurez brindou-me com experiências, cicatrizes, cabelos pintados aqui e ali com o branco, e rugas de riso – ainda bem – ao redor dos olhos, e nos cantos da boca. Comparar não é a melhor atitude, mas as prefiro àquelas rugas que marcam cenhos franzidos pela eternidade, ou cantos de boca caídos, como um ríctus. Me pego rindo sozinha, e a moça do carro ao lado sorri para mim. Talvez pense que estou surtando. Talvez esteja. A idade nos tira certos filtros de ilusão, e a normalidade não nos acompanha mais. Chego ao meu destino, e isto não é muito. É só parte da jornada. Meu destino final, comum a todos que vivem, não chegou. Mas minhas mãos me lembram que a mão do tempo já vem me guiando para ele, dia a dia.


- este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

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segunda-feira, 19 de maio de 2014

AS CIDADES, O PASSADO

Pisava em falso.
Falso -
O riso, o gozo, até o brilho nos olhos.
Ficou ali,
Adormecida em seu canto,
Não cadáver,
Nem alma.
Apenas seu espanto
Em saber-se ali,
Como parte dos muros,
Dos velhos paralelepípedos,
Da antiga hera a pintar
As paredes das casas.
Algumas quadras a frente,
Numa antiga janela,
Olhos antigos
 - Cegos de lembranças –
Fazem arrepiar
Os pelos de quem passa.
E na viela estreita
Ainda se sente
O cheiro seco
De pobreza
E de cachaça.
Na praça nobre,
Fantasmas de senhoras
Com seus filhos e babás
Passeiam no paraíso,
Assim na terra
Como no céu.
E o pão nosso
De cada dia,
Vai sendo arduamente
Tratado,
Enquanto a velha padaria
Assa sonhos olvidados.

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

VIAGEM E PAISAGEM

Sairia daqui em estado de graça, se pudesse discorrer sobre paisagens que minha retina não provou. Se pudesse sentir o vento quente dos desertos - dizem que é quente, que a areia entra até nos pensamentos, e que o calor penetra pela respiração – e se você pudesse senti-lo, ah! seria minha realização.
Mas do que posso falar eu? Das ondas que espiei desde menino, quando meu pai saia para pescar, naquele barco de um branco enfeitado de ostras e algas... das gaivotas que disputavam com os barcos os cardumes fartos, em rasantes fantásticos, me levando em suas asas prateadas... e da areia morna e úmida, em que meus pés afundavam.
O meu mundo é o limite de meu horizonte. O meu horizonte não é mais do que era aos navegadores de antigamente, um plano, até onde minha vista alcança, e depois disso? Brumas.
Escrevo para você com a esperança que paisagens lunares se levantem a minha frente, e possa transmiti-las com a força das palavras neste exato momento. Porém a melhor imagem que tenho delas é com um homenzinho vestido de macacão e capacete, fincando uma bandeira em seu dorso. E nem lhe sei a cor, textura, cheiro... como dizê-la para você? Como possuí-la, e assim poder dá-la, se não lhe sei em mim?
Tudo tão impreciso... minha mãe sonhava ver campos de lavanda. Guardava uma foto, recortada de revista, em seu livro de orações. Lhe demos um perfume de lavanda, coisa chique, comprada do turco da venda, e víamos o sorriso lhe brotar nos lábios cansados, quando colocava pequenas gotas do perfume nos pulsos e os cheirava... para ela, os campos de lavanda já lhe pertenciam, pois tinha o aroma e a imagem...
Das paisagens que me cabem, ainda sinto a maresia entranhada na pele e cabelos, nas portas e janelas das casas caiadas do vilarejo à beira da praia. Sinto o cheiro da terra seca levantando, quando um ou outro carro passavam por aquelas paragens, e escuto os latidos de meu velho cão, correndo atrás das rodas e das galinhas, criadas soltas por ali. Sinto o sol crispando minha pele, e o vento frio que vinha do mar no inverno.
Isto eu posso lhe dar, porque possuo em mim. E por isso lhe escrevo, porque é o que conheço. Se é o suficiente para ti, não sei, mas é desta matéria que sou feito, e se me queres saber, cá estou eu. Entregue. Dá-me o destino que desejares em ti, mas não te esqueças: somos um no outro, viagem. Eu em mim, e tu em ti mesma, somos nossa própria paisagem.

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segunda-feira, 5 de maio de 2014

BOLERO

Penumbra. Na mão enrugada, um copo com conhaque. A camisa para fora da calça, amarfanhada, os cabelos ralos em confusão, os olhos baços de bebida. Ao seu lado, no sofá de couro velho, um porta retrato. Foto antiga. Nada de máquinas digitais ou Polaroid. Filme, 24 poses, asa 400, para dia e noite com a perfeição das cores da natureza. Ele olha a foto, esmaecida pelo tempo, e sorri com o canto do lado direito do lábio. Acaricia o vidro do porta retrato, como se outras sensações menos frias pudessem ser reavivadas.
Levanta do sofá. Vai em direção a eletrola, e coloca novamente o LP para tocar. Velhos boleros, imortais. Sim, eles, pelo menos. Trini Lopes começa a cantar, afinadíssimos, outros tempos, pensa, eram outros tempos e éramos outros, também. Mas Trini Lopes não era imortal, acho que todos, todos morreram. Ao pó retornarás, prometeram as escrituras. Realmente. E por que eu, ainda aqui?
Volta para o sofá, e acende uma luz, antes de inclinar-se para pegar o porta retratos. Olha o rosto ali eternizado. Sofia. Sofi. Sua Sofi. Passa as mãos nos olhos, como se quisesse acordar. O conhaque ainda está no sangue, e lhe entorpece os sentidos. Decide ir para o quarto.
Cama vazia, desta vez. Ele deita. Sofi, Sofi. Por que? Tira o sapato de couro envernizado, desce a calça do terno usado há pouco, e se cobre, encolhido. Pega o travesseiro ao lado. Ainda tem o cheiro dela. Recorda de seu sorriso, moça, dentes alvos, meio tortos, mais parecia uma menina. E quando lhe anunciou que estava grávida, feliz. Ele também, claro. No casamento do filho, único rebento, suas feições já desgastadas pelo tempo ainda eram belas. Segurou sua mão com força, lembrava, enquanto caminhavam pela nave da igreja.

E quando dançavam, ah, Sofi! Sabia acompanhá-lo como ninguém, e amava ouvir e dançar boleros. “Pasarán mas de mil anos muchos más...” ... e ainda vou levar o teu sabor. Pena que o sabor amargo de suas confissões, nos último dias, sobrepujassem o da dor pela sua perda, pensa ele. Pena ela ter morrido para ele no instante em que declarou que amara outro por toda uma vida, com medo de morrer sem perdão por suas mentiras. Ele não achou que fosse matá-la duas vezes, quando a sufocou, dormindo, com o travesseiro. “…Que yo guardo tu sabor, pero tú llevas también sabor a mí…” A música para, na sala. Ele cerra os olhos, e chora.



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quinta-feira, 1 de maio de 2014

O FANTASMA DA FOLHA EM BRANCO

Cá estou eu. Até cinco minutos atrás, milhões de ideias fervilhavam em minha mente. Agora, olho para esta tela de computador, tal qual as minhas folhas sulfite em branco, quando eu dedilhava minha Olivetti (máquina de escrever, muito prazer). Mudam os instrumentos, mas não a falta de argumentação...
Resolvi que seria escritora com meus nove anos de idade. Pedi uma máquina de escrever portátil de natal naquele ano. Tinha certeza que com a máquina na minha frente, me atiraria com fúria naquelas teclas, colocando todas as ideias malucas e histórias que me passavam pela cabeça no papel. Lembro-me vagamente de um parágrafo iniciado, folha arrancada, outra folha no lugar, e as palavras se dissolvendo em letras, e histórias inteiras se caracterizando como ideias ridículas, toscas, sem pé nem cabeça, e a máquina sendo usada, ao fim de tudo, para trabalhos escolares. Continuei fazendo poesia pelos anos afora, pois não havia necessidade de criar uma história, somente escrever, elaborar o sentir, e pronto.
Retomei meu projeto literário há uns quatro anos, mas já com ares de modernidade. Em lugar da Olivetti, um Notebook. Afinal, tinha que modernizar minha máquina de escrever.
A primeira novidade boa é que não precisava mais do “branquinho” — corretor ortográfico manual, da era pré digital — e as palavras que digitava erradas, na pressa de registrar a inspiração, ficavam gritando no texto, sublinhadas em vermelho.
A segunda boa novidade é que não precisava jogar papel fora, era só apagar no texto e começar de novo. Meu lado ‘Partido Verde’ já ficou mais feliz, colaborando com a natureza (até me questionar aonde iriam parar as baterias velhas do notebook...).
Daí para frente, iniciei meu ‘livro’, contando uma história. A história tinha uma personagem. O livro travou no meio. Fui tentar relê-lo, e eu mesma comecei a pegar no sono. Percebi que não havia uma história ali, mas uma série de fatos. Faltava a ligação entre um fato e outro, para se tornar uma história. Engavetei o livro. E cá estou eu. Diante da folha em branco, tentando escrever algo que preste. Se pudesse dar alguma dica para quem escreve, o que eu diria? Primeiro, diria que escrever um livro de primeira é ficção científica, igualzinho filme em que os amantes não se desgrudam a noite toda. Isto não existe na vida real. Talvez para o sexo, depois do viagra. Mas para escrever, ainda não descobri nenhum remédio.
Outra coisinha fofa que venho aprendendo, dando cabeçadas, é verdade, é que inspiração e criatividade são importantes, mas noção de técnica literária é fundamental. É mais ou menos como imaginar um vestido, comprar tecido e linha, e tentar fazê-lo sem saber sequer cortar o pano com um molde. Já imaginou? Afe, eu não vestiria se fosse você...
Quando escrevi o meu ‘primeiro livro’, achei que ele estava perfeito. Passado algum tempo, percebi que ‘viajar na maionese’ não significa escrever um livro. Meus leitores poderiam se imaginar náufragos á deriva, pois não conseguiam saber, a partir do começo da história, aonde ela os iria levar. Então, pronto, falei: história tem que ter princípio, meio e fim, e de preferência, com pé e cabeça combinando.
Ah, e deem-me licença, vou voltar agora para minha folha em branco. Fui!

* texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural - edição cafeína na veia/março 2014 que pode ser lida em www.pluralrevista.blogpsot.com 

UM JESUS DIFERENTE


A vida, de histórias feita,
Pode ser escrita e reescrita.
Mesmo na história de Jesus,
Fiquei eu aqui pensando,
Será que passados tantos anos,
A escrita é verdadeira?
Monsenhor falou de um tanto
Que ele era homem como nós,
Experimentando a humanidade,
Seria então verdade
Depois ter ressuscitado?
Do período que não foi contado
De sua breve vida,
Teria ele viajado, estudado,
Conhecido mulher ou rapariga?
Como seria este Jesus humanizado?
Terá amado, terá pecado,
Antes de dar-se conta
Da própria iridescência?
Terá sido na Índia educado,
Tornando-se um iogue bem treinado,
Sob a supervisão de seu pai,
José, não carpinteiro,
Mas guardião de grandes mistérios?
Terá sido este o seu segredo?
Terá incitado a turba, com seu modo
Que parecia arrogante, de tudo saber,
Levando a que fosse crucificado
Para mais uma vez desaparecer?
Seria seu pai José, já então dado como morto,
Aquele de Arimatéia,
Agora, na realidade,
abastado guardião,
a lhe proteger a identidade,
após a remoção do corpo
do jovem
dado como morto?
Teria Jesus o controle
Do iogue
Para nada sentir, deixar seu espirito
Ir, e simular a falência de seu corpo,
Dando a José a deixa
Para levá-lo
Como corpo morto,
A fim de reanimá-lo somente?
Teria este homem, sábio e amoroso,
Lhe cuidado das feridas,
Criado a história
Pelas Marias espargida,
A fim de confundir o povo
E continuar o missionamento
Daquele a quem chamavam Jesus?
Quem era Maria, então,
De linhagem tão importante,
Para dela sair o Salvador?
Quantos mistérios este homem trouxe,
Com os seus ensinamentos...
Terá se ido em outro jumento,
Após sanadas as feridas,
(As chagas com que seguiu,
Pelo resto de sua vida)
Pregando conforme os costumes,
Dos lugares onde viveu,
Com nomes tão diferentes,
Ou parecidos com o seu...
Terá sido acompanhado,
Por Arimatéia, seu José mentor,
Que lhe preparou a consciência
Para suportar a dor,
E ser dos povos o Salvador,
Também em terras diferentes?
Quem me pode responder?
Certamente não o Monsenhor,
Pois sua imaginação,
Apesar das cãs embranquecidas,
Não é tão grande quanto sua idade...
E não cometeria a insanidade
De profanar a história
De seu Senhor!
Mas eu, que do mundo,
De histórias e religiões,
Já conheci umas centenas,
Posso ligar fatos e pessoas,
Só com o correr da minha pena!
Não cometo erro nem pecado,
Pois quem sabe mesmo
Do que ocorreu no passado?
Nem mesmo os que escreveram,
Pois muitos anos já haviam se passado,
Quando evangelhos regulares
Contavam com tal veracidade
Das fraldas de Jesus,
Dos anjos que não viram,
E de fatos que não presenciaram.
Pois se eles contaram,
Eu também posso contar,
Pois na arte do invento
Vive o escritor a mourejar...

 * texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural - edição digital abril de 2014 que pode ser lida em www.pluralrevista.blogpsot.com 


Vai uma maçã aí?

E nós, as Evas do mundo, como seríamos definidas se a primeira Eva não tivesse oferecido a maçã para Adão? Me recordo também que existem ...