quinta-feira, 1 de maio de 2014

O FANTASMA DA FOLHA EM BRANCO

Cá estou eu. Até cinco minutos atrás, milhões de ideias fervilhavam em minha mente. Agora, olho para esta tela de computador, tal qual as minhas folhas sulfite em branco, quando eu dedilhava minha Olivetti (máquina de escrever, muito prazer). Mudam os instrumentos, mas não a falta de argumentação...
Resolvi que seria escritora com meus nove anos de idade. Pedi uma máquina de escrever portátil de natal naquele ano. Tinha certeza que com a máquina na minha frente, me atiraria com fúria naquelas teclas, colocando todas as ideias malucas e histórias que me passavam pela cabeça no papel. Lembro-me vagamente de um parágrafo iniciado, folha arrancada, outra folha no lugar, e as palavras se dissolvendo em letras, e histórias inteiras se caracterizando como ideias ridículas, toscas, sem pé nem cabeça, e a máquina sendo usada, ao fim de tudo, para trabalhos escolares. Continuei fazendo poesia pelos anos afora, pois não havia necessidade de criar uma história, somente escrever, elaborar o sentir, e pronto.
Retomei meu projeto literário há uns quatro anos, mas já com ares de modernidade. Em lugar da Olivetti, um Notebook. Afinal, tinha que modernizar minha máquina de escrever.
A primeira novidade boa é que não precisava mais do “branquinho” — corretor ortográfico manual, da era pré digital — e as palavras que digitava erradas, na pressa de registrar a inspiração, ficavam gritando no texto, sublinhadas em vermelho.
A segunda boa novidade é que não precisava jogar papel fora, era só apagar no texto e começar de novo. Meu lado ‘Partido Verde’ já ficou mais feliz, colaborando com a natureza (até me questionar aonde iriam parar as baterias velhas do notebook...).
Daí para frente, iniciei meu ‘livro’, contando uma história. A história tinha uma personagem. O livro travou no meio. Fui tentar relê-lo, e eu mesma comecei a pegar no sono. Percebi que não havia uma história ali, mas uma série de fatos. Faltava a ligação entre um fato e outro, para se tornar uma história. Engavetei o livro. E cá estou eu. Diante da folha em branco, tentando escrever algo que preste. Se pudesse dar alguma dica para quem escreve, o que eu diria? Primeiro, diria que escrever um livro de primeira é ficção científica, igualzinho filme em que os amantes não se desgrudam a noite toda. Isto não existe na vida real. Talvez para o sexo, depois do viagra. Mas para escrever, ainda não descobri nenhum remédio.
Outra coisinha fofa que venho aprendendo, dando cabeçadas, é verdade, é que inspiração e criatividade são importantes, mas noção de técnica literária é fundamental. É mais ou menos como imaginar um vestido, comprar tecido e linha, e tentar fazê-lo sem saber sequer cortar o pano com um molde. Já imaginou? Afe, eu não vestiria se fosse você...
Quando escrevi o meu ‘primeiro livro’, achei que ele estava perfeito. Passado algum tempo, percebi que ‘viajar na maionese’ não significa escrever um livro. Meus leitores poderiam se imaginar náufragos á deriva, pois não conseguiam saber, a partir do começo da história, aonde ela os iria levar. Então, pronto, falei: história tem que ter princípio, meio e fim, e de preferência, com pé e cabeça combinando.
Ah, e deem-me licença, vou voltar agora para minha folha em branco. Fui!

* texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural - edição cafeína na veia/março 2014 que pode ser lida em www.pluralrevista.blogpsot.com 

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