terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TERESA E A VULNERABILIDADE

O sol ameno daquela manhã de inverno entrava pela janela, aquecendo o quarto onde Teresa acabava de entrar. Faziam já três meses que ela visitava semanalmente a senhora à sua frente, a fim de lhe proporcionar alívio para suas dores, com sua massagem.
Aquela mulher, grande estudiosa de assuntos espirituais, conhecedora de tantas técnicas de meditação e cura encontrava-se praticamente impossibilitada de andar devido à complicações advindas de um antigo acidente automobilístico. Teresa gostava muito de atende-la, pois ela sempre compartilhava um pouco de seu vasto conhecimento.
Naquela manhã, porém, a senhora dirigiu-se à Teresa:
-Teresa, já te contei que desde meu acidente, há cinco anos atrás, recebo semanalmente a visita de uma senhora que vem me aplicar Reiki?
-não senhora, dona Sara.
- então, esta semana fiquei preocupada...
-por que?
- ela disse que a minha empregada recebe muitas cargas negativas e traz tudo aqui para minha casa, e que tudo isto fica comigo... estou tão desanimada! Por que será que isto acontece comigo, porque estou tão vulnerável?
Teresa não respondeu de pronto. Continuou massageando-lhe a perna esquerda, e depois de um minuto ou dois, respondeu-lhe:
- porque a senhora permite!
Dona Sara remexeu-se, e olhou para ela, boquiaberta.
- como assim, Teresa, eu permito? – o tom de voz indignado da mulher não intimidou Teresa.
- bem, dona Sara, vou lhe dizer o que penso, se me permite.
A mulher baixou a guarda e concordou. Teresa começou:
- a senhora estudou mais de vinte anos com grupos espiritualistas, certo?
- sim...
- aprendeu várias técnicas de cura também, não foi? Cura prânica, cura quântica... não é?
- sim, já te contei isto várias vezes.
- pois como é que a senhora, com todo este conhecimento, permite que algo de fora lhe atinja, dona Sara? – perguntou, com um sorriso, Teresa.
A mulher olhou-a com um ar desalentado, apontou a si mesma e disse:
- mas Teresa, olhe o estado em que me encontro!
Teresa olhou-a serenamente e disse:
- dona Sara, sei que quando estamos fragilizados, doentes, esquecemos de algumas coisas, mas vou lhe recordar algumas, está bem?  Primeiro, nós não somos somente este corpo. De acordo?
-sim, de acordo. – Sara sorriu – temos um espírito.
-isto mesmo. E sei que acredita que este espírito faz parte de uma centelha Divina.
Sara assentiu com a cabeça. Teresa continuou.
- e também sei que acredita que semelhante atrai semelhante, ou seja, que só chega até nós coisas, pessoas e fatos para os quais vibramos em igual sintonia, certo?
- claro,  isto mesmo!
- ótimo, até agora entendi tudo o que a senhora vem me contando. Por último, lembro que a senhora disse que se somos parte da Centelha Divina, não há nada que nos sustente ou nos fira que venha de fora, pois temos Deus dentro de nós, certo?
Sara olhou Teresa, e começou a rir:
- oh, Teresa, que vergonha! Eu esqueci de tudo o que falei, e me coloquei como vítima desta situação lamentável! Será que não aprendi nada?
- dona Sara, aprendeu sim, mas enquanto foi só na teoria, estava fácil. Agora seu teste está no nível prático: tem que aplicar em si toda a teoria que passou anos aprendendo. Enquanto estamos vivos, nosso aprendizado passa invariavelmente pelo corpo.
Sara abriu um grande sorriso, e seu rosto se iluminou. Falou então:
-Teresa, parece que acabei de acordar de um sono profundo! Que tola eu estava sendo! Estava me sentindo fragilizada como meu corpo, esquecendo de tudo o que aprendi.
-acontece, dona Sara. O que importa é que agora acordou, e pode ajudar a si mesma.
- hoje, quem foi o Mestre aqui, minha cara? – perguntou Sara, com os olhos marejados, olhando para Teresa.
Teresa sorriu, e respondeu:
- não existe Mestre nem discípulo, quando todos aprendem juntos.

E continuou a trabalhar, agora em silêncio, como se as duas absorvessem a intensa troca havida.

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