domingo, 18 de novembro de 2012

MEMÓRIA, PALAVRA E CÂNTICOS


            Há aqueles que nunca olham para trás. Eu, ás vezes olho, para certificar-me que não há nenhum esqueleto me seguindo. Quando, por desventura, pressinto algo além de minha sombra em meu costado, trato de cantarolar Glórias ao presente e exéquias ao passado, para que este se aperceba que foi morto e enterrado.
            Já olhei muito para trás, deste mal não há homem ou mulher que não padeça, não é mesmo, seu doutor? Olhei muito para trás, sofri e ressenti cada dor que eu achava perdida, reabri cada mal sangrada ferida, chorei como se num fosse cabra de aguentar ferro e fogo. Claro, não na frente de muitos, mas no duro de minha cama. E eu pedia ao senhor Deus que me levasse essas mágoas, águas ruins que empesteavam meu sono, mas acho que semente que eu plantei, eu tinha que desenraizar, doutor.
            Sim, amores de muitas primaveras, que plantei sementes e não se deram o trabalho de desabrochar; palavras ruins que ouvi e meus ouvidos não se dignavam a esquecer; e os olhos, doutor, que teimavam em ter outras imagens na retina além daquelas que comum e diariamente viam? Quase enlouqueci, por excesso de memórias dentro de mim. Também a pele, doutor, a pele, o nariz, teimavam em me trazer de volta toques e cheiros de peles que toquei e senti, como se fossem coisas vivas e independentes... parecia uma revolução de meu corpo contra meu coração. Eu queria verter fora as lembranças, e o corpo dizia não.
            Me acostumei então com aquela sensação de não pertencer a tempo nenhum. Pé no passado, corpo no presente, e desse jeito, sem esperança de futuro... meus fantasmas, meus esqueletos de memória me seguravam os pés, alisavam o corpo, embalavam meu sono, nem apelando a todos os santos conseguia me livrar deles... e então, descobri o cantar. Aprendi a cantar, e a sensação foi se indo embora. A música pôs meu sentimento no presente, e lavou meus olhos da terra velha, das imagens antigas que teimavam em permanecer. Minha pele arrepiou-se com os sons que vibravam nela, meus ouvidos se encheram de outras palavras, mais doces, e mais amigas. E a palavra, doutor, a Palavra me libertou. Porque através da harmonia da música, e da palavra que acompanhava os sons, me libertei de fantasmas, de esqueletos, do que não mais me pertencia e me habitava. Por isso, doutor, réquiem e glória andam juntos em meu repertório... para livrar-me do mal, amém.

7 comentários:

  1. Passando para dar-lhe os parabéns pelo blog e pelos belos posts. Saudações literárias. Haroldo Barbosa Filho

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  2. Haroldo, que honra poder receber um elogio desses! Saudações literárias para ti também!

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  3. Beleza, Ana. Seu texto é agradável, profundo, provocativo. Gamei. Menalton

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Menalton,meu mestre mais recente, ver teu comentário aqui é outra honra para mim, assim, iniciante. Obrigada!

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  4. O passado faz amarras aos nossos pés e nos prende em obediências antiquadas, e assim cria-se em nós uma força que nos faz Olhar para “trás” e ter medo de atravessar o presente ou ainda pior, aniquila o sucesso de uma possível realização que mora no futuro… "Doutor", "a Palavra me libertou"

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  5. Meu amigo José Vitor, quando escrevo, a consciência que ganho me liberta. Aprendo com a palavra que teço, no instante mesmo que faço. Um grande abraço!!

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