quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PERTINÊNCIA


            Dou-me conta, num instante, do meu sentimento de pertinência ao mundo. Não me pergunte como foi que surgiu em mim a consciência; veio assim, entre memórias de diálogos e fatos, vivências perdidas do dia a dia, que, de repente, fizerem sentido.
            Sinto-me em casa em praticamente todo lugar; os outros sempre se incomodaram com isso, e eu não sabia por que  me estranhava todo este incômodo alheio. Lembranças afloraram, e minha vida passou ante meus olhos, mas eu não estava morrendo; a não ser que eu possa considerar o ganho de consciência como uma morte seguida de um renascimento.
            Quando a visão das lembranças começou, me peguei conversando com pessoas de todas as raças, e me sabendo parte delas; era judia entre judeus, negra entre negros, italiana entre os mesmos, espanhola com os hispânicos; alemã com os alemães, oriental com os japoneses, universal em minhas entranhas. Talvez tudo seja fruto de minhas raízes, minha arvore genealógica totalmente enxertada por cristãos novos, italianos, espanhóis, polacos, índios, negros, orientais... talvez em meu sangue grite a cordialidade entre os povos, pois não me sei definir mais como raça, como cor, como credo.
             Sei dos ritos de tantos povos, canto tantos cânticos! Sei engrandecer Israel cantando Yerushalaim; sei cantar Kiries em naves de igreja; cantos para os mais diversos santos, com seus nomes em yorubá; mantras repetidos em templos orientais; danças sufis, para entrar em êxtase; cantos bretões para louvar antigos deuses, músicas profanas para saudar a vida, que sempre se digna a comigo ficar.
            Não consigo enxergar diferenças, prefiro enxergar igualdades. Meu sangue misturado há tantas gerações não consegue distinguir nacionalidade ou cor de pele. O amor chega pelo espírito, pela essência de cada um, a beleza que persigo há muito deixou de ser da superfície. Não que não ame a beleza; ela me circunda, pois a encontro em peles lisas ou flácidas, em gente delgada ou rotunda; não existe padrão, mas unção da beleza, encontrada em quem se ama e se quer bem.
            Talvez meu sentimento de pertinência seja o contrário: sentimento de não pertencer a nenhum grupo definido, e ser livre para tecer laços de amizade que cruzam o globo terrestre; pois como eu dizia a uma amiga, ainda menina: a amizade é um fio fino, de flores muito azuis. E neste fio, estou envolta, emaranhada, laçada, com a Graça de ser eu mesma, onde quer que vá, com quem quer que esteja.

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