domingo, 11 de dezembro de 2011

DE CONVENTOS, SONHOS E POESIA

De todas as imagens que me saltam a mente, não sei por que motivo, sempre me tocam as de antigas igrejas e de conventos. Quando leio um poema, um conto ou qualquer texto que me remeta a estas imagens, sinto como se estivesse falando para mim.

Dizem que é coisa de vidas passadas, lembranças de outras existências. Não sei se realmente isto existe, mas o meu imaginário é repleto destas imagens. Muitas vezes, em meus sonhos, passeio por ruínas de conventos, não mais do que pedras amontoadas. De repente, os espíritos das noviças estão no páteo, mocinhas de longas camisolas alvas, todas olhando para mim, se perguntando o que fui fazer ali. Quando me dou conta, o edifício está inteiro, com seu grande portal de entrada, com mais de três metros de altura, uma porta enorme de madeira entalhada, e escadaria enorme para chegar até lá. Como se, ao subir as escadarias e adentrar aquela porta, tivéssemos direito a entrar nos céus de imediato...

Quando olho novamente, há somente ruínas, e os olhos inquisidores das noviças, todas de pé em cima das ruínas, me pedindo auxílio para que o convento se reerga novamente. Faço um esforço, e novamente vejo o edifício de pé. Uma fileira de camisolas alvas então se dirige ao amplo portal, e se esfumaçam lá dentro. Minha missão está cumprida. Por que fui até tal lugar?

Volto a este lugar mesmo quando acordada. Quando vejo antigos edifícios religiosos, relembro de meu sonho. Por que conventos me chamam tanto? Lembro da emoção que sentia quando estudava no colégio as freiras. As orações me tocavam, as músicas enchiam meu peito de alegria. Ninguém de minha casa me ensinara a ser assim. Eu era assim, como que por dizer, de nascença. Ou de renascença?

Nunca sonhei em colocar um hábito, levar uma vida entre quatro paredes, mas sempre admirei quem a tudo renega para servir uma vocação. E havia sempre o mistério do último andar da escola, das freiras na clausura. Seriam brancas como ratos albinos, sem nunca tomar sol? Saberiam ainda falar, ou apenas balbuciariam palavras ininteligíveis, se, algum dia, encontrassem outro ser humano? Estariam habitando algo parecido com o espaço sideral, e voltariam de lá com os ossos fracos, precisando ser carregadas?

Questionamentos de uma menina com muitas idéias na cabeça... as noviças continuam me olhando de pé sobre as ruínas, muito, muito alvas e quietas. Anjos que nunca descansaram. Noivas de alguém que elas esqueceram. Até o momento em que um sino repica, repetidamente, dando a hora exata. Serão as matinas?

Não! Elas começam a formar um círculo e a se dar as mãos. E de repente, começam a bailar graciosamente, como sacerdotisas pagãs, louvando a primavera que chega, entregando seus corpos a natureza, as camisolas etéreas, os pés a mostra, sem tocar o chão... percebo que agora suas faces estão coradas, os olhos brilham, estão vivas. Elas me chamam para dançar.

Eu sorrio e corro para a roda. Em frente ao convento, pisando num gramado orvalhado, danço, junto com meus fantasmas. Me perco nas voltas de nossa ciranda, num ritmo de uma “danza de España”. A paisagem roda, vertiginosamente. A imagem de minhas companheiras vai se esvaindo, o grande portal do convento esmaecendo, e quando eu me jogo, exausta, na relva, percebo que ao meu lado só tenho ruínas, cobertas de mato.

Tantos anos se passaram desde meu sonho. Lembranças de claustros, de sinos ao longe, permeiam minh’alma. E então leio estes versos, compartilhados por um amigo:

"Eu te veria num convento espanhol

Onde se dance: castanholas em homenagem ao Senhor;

Através do parlatório

Apunhalando os aficionados

Com esses olhos retraídos e lascivos."



A delicadeza dos versos me fere as órbitas. Não consigo enxergar, pois as lágrimas tomaram conta dos meus olhos. Como em sinal de reconhecimento de algo há muito esquecido, o coração descompassa. Ao olhar para os lados, noviças mui alvas me sorriem, e me chamam para a dança. Sem hesitação, eu subo as escadarias dançando, junto com elas, me esvaindo, em êxtase. O encontro do sonho com a poesia, num resgate magistral de imagens fugidias...

Um comentário:

  1. que lindo Ana, é o poder feminino ancestral que te chama e te apóia, e te dá forças na roda que é guia e sustento da vida, que segue sempre em frente, num círculo fechado sem saída, apenas renovação. Sou uma das tuas irmãs na dança, vestes brancas, viva, de sangue espanhol.Entregue-se. Beijos

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