quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ESTADO SUBLIME

                O vento forte lhe soprava os cabelos violentamente para trás. Ela olhava o horizonte, o mar a sua frente. Sentia o peito aberto, como ferida doída. Mas era dor boa, dor de poder ser quem ela era, dor de poder sentir sem travas. Sua velha túnica branca voava, e ela se abraçou, como que para perdurar aquela sensação.

                Inteira, completa, assim ela estava. Sorria para si própria, enquanto recordava-se de passagens boas. Do respeito acima de qualquer desejo, do desejo acima de qualquer suspeita, do amor em gotas, em mãos enlaçadas, olhares trocados, o calor invadindo seu corpo, mesmo sem que quisesse.

                Eram amigos de férias. Ela ainda em meio a sua adolescência tardia, ele com sua sedução de homem recém feito, aliada a uma inteligência que transparecia em cada atitude. Ela o cativara com sua inocência, que contrastava em muito com seu corpo de mulher. Ele a cativara com seu respeito por ela e por suas escolhas.

                Conversavam muito durante aquele verão. Enganavam o desejo que sentiam com horas agradáveis, falando sobre música, filosofias de vida, e besteiras, muitas bobagens, como só os jovens conseguem fazê-lo, sem dor na consciência. Pena que se cresce, pensou ela.

                Houve então o passeio na praia. Um dia como este, com vento. Ele a chamara para caminhar. Vestiam ambos bermuda e camiseta, com agasalhos por cima, para conter o vento. O resto dos amigos não quisera ir. Eles caminhavam pela areia,  olhavam o mar encapelado, e sem nenhum aviso, ele lhe pegou a mão ao caminhar. Ela aceitou o gesto, como se o esperasse. Por dentro, havia um tambor em seu peito, a emoção que aflorava e corria solta por suas veias. Ele a  olhava, a apreciava na sua total inabilidade em ser mulher.

                Sentaram-se na areia, perto do paredão de pedras que os protegia do vento. Ela perdia-se na sua falta de desenvoltura, e ele, rindo dela, puxou-a para si, num “vem cá” que não lhe deixava escolha. Ele a olhou e ela desviou o olhar, sem o costume de encará-lo assim, com todos os sentimentos as claras. Ele lhe perguntou se sabia como ela era bonita. Ela não sabia responder, apesar da resposta óbvia ser não.

                Ele lhe deu um beijo de borboleta, segundo ele, encostando seu nariz no dela. Ela sorriu, cabeça meio baixa, sem olhá-lo. Ele levantou-lhe o rosto, e lhe deu um beijo de leve nos lábios. Haviam redemoinhos em seu estômago e no peito, como se a emoção fosse lhe tragar. Ela o abraçou e encostou sua cabeça no peito dele. Ele afagava seus cabelos, percebendo-a tal qual menina, em sua insegurança.  Ele deixou-a ficar deitada em seu peito, por muito tempo.

                Mas ela se recordava das palavras dele para ela. Ele contivera sua natureza de homem para tornar-se um gentil homem para ela. Disse-lhe que gostaria de ser o homem da vida dela, mas tinha consciência que não seria, e que ela mereceria alguém especial. Disse-lhe que no dia que o ato de amor se concretizasse, que seria muito lindo, pois ela sentiria tudo vibrar dentro de si mesma, como se a felicidade pudesse partí-la em dois. Não foi acintoso, não foi obsceno, foi somente seu professor de amor, sem desnudá-la nem quebrar sua confiança.

                Repetia, como num mantra, que ela era linda, linda, que jamais se esquecesse disto, e que era muito especial, avis rara, ele disse, sorrindo. Ele deitou-se em seu colo, e ela acarinhou seus cabelos, beijando-lhe a testa, os olhos, a boca, quase como numa benção. Seu coração agradecia o momento especial, o presente que a vida lhe dava. Eles sabiam que não ficariam juntos, mas aquele momento era só deles.

                Viram o céu escurecer, a lua e as estrelas aparecerem, e então se deram conta da passagem das horas. Ele levantou-se, espanou a areia as roupas, puxou-a novamente para si, e cantando, dançou com ela, sob a grande lua, afundando os pés na areia. Ela entregou-se a dança, como uma despedida.

                Ficaram ali, se embalando, até que ele lhe beijou a testa e a puxou pela mão em direção a entrada da praia. Seguiram abraçados, calados, sem poder expressar em palavras tudo o que haviam sentido. No dia seguinte, ela partiria para sua cidade, ele também.

                Ele foi vê-la logo cedo pela manhã, para se despedirem. Nas férias seguintes, ele não mais aparecera, pois já se engajara no trabalho. Os anos passaram, e ela recordava-se, as vezes, daquele dia especial. Soubera, por amigos, que ele se casara. Ela também o fizera. E quando a felicidade lhe partira em dois, ela recordara da pequena profecia que ouvira da boca de seu amigo de férias.

                E ali, parada a beira do mar, voltava a escutar sua voz dizendo: você é linda, linda...e nem os cabelos arriscando a grisalhos,  nem seu corpo já na meia idade, tampouco suas rugas, traiam a beleza que ele anunciara um dia.

               

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