domingo, 26 de fevereiro de 2012

APRENDENDO COM O AMOR OU COM A DOR

Ao longo de minha vida, sempre ouvi que a cada ação corresponde uma reação. Sempre tentei levar o meu dia a dia tendo isto em mente. Talvez boazinha demais, tentei durante boa parte de minha vida não ofender, não magoar, não causar conflitos.

         E passados quarenta anos de existência, me questiono se tudo o que fiz foi correto. Não que eu queira ser má, de uma hora para outra. A verdade é que percebi que, com algumas atitudes, tentando não magoar os outros, eu deixei que me magoassem. Foi um grande baque esta tomada de consciência. Eu quis tanto respeitar aos outros que me desrespeitei, dando a outras pessoas a liberdade de me magoarem.

         Me dei conta que eu vivia me lamentando por ser sempre uma vítima, em situações que se repetiam ciclicamente. Me perguntava porque estas situações me “perseguiam”. Foi quando eu ouvi, pela primeira vez, que eu permitia que estas situações ocorressem. Escutei e esqueci. Outras tantas vezes desempenhei perfeitamente o papel de vítima, até o dia em que cansei.

         No dia que cansei, percebi da pior maneira: adoecendo gravemente. Apresentei uma doença auto imune, chamada Lúpus, e o que meu corpo dizia para mim era somente aquilo que eu não queria escutar: você permitiu que isto ocorresse. E, como não foi pelo amor, aprendi pela dor. Aprendi que durante anos e anos eu não me amara o suficiente para me fazer respeitar e impor limites aos que me cercavam. Quando eu era magoada e me calava, dava espaço para ser mais magoada; quando os abusos ocorriam, eu permitia que eles ocorressem, simplesmente porque eu não me amava.

         Como foi doloroso perceber que eu tivera estas atitudes comigo mesma! Eu estava dentro de um processo de tentar perdoar as pessoas que haviam me magoado, e tentar, senão esquecer, não ser mais atingida pela dor durante as lembranças. Chegara a conclusão brilhante de que cada pessoa só dá ao outro o que tem dentro de si, e conseguira perdoar a muitos somente analisando como eles tinham sido criados, como era sua história de vida. Não passei a amá-los, de uma hora para outra, mas parei de me sentir machucada a cada vez que revia suas atitudes, pois percebia que tinham limitações como qualquer ser humano, e agiam de acordo com suas verdades.

         Mas quando eu me dei conta que dera espaço para todos os que me magoaram ao longo da vida, como foi difícil me perdoar. Como foi difícil me enxergar com limitações, como vítima de meu desamor! Até então, eu achava que eu me amava. Proclamava minhas capacidades, minhas qualidades, mas no fundo, duvidava de todas elas. Tentei inventar novas rotas no passado, usando o “e se” como uma constante em meu discurso. Se eu tivesse falado tal coisa, ou agido de tal e qual maneira; e se eu pensasse por mim, e se eu acreditasse em meus sentimentos e intuições...

         Foi quando  escutei uma frase: “o passado não volta; o futuro ainda não chegou; a única coisa real é o presente, o agora. O que passou não pode ser lamentado; não adianta se pré-ocupar com o que está por vir; mas fazer o seu melhor no agora, é a única ação eficaz. Erros, todos cometemos; isto é vida.”

         Com certeza, já havia lido e escutado isto várias vezes; mas daquela vez eu entendi o significado. Parei de lamentar o passado, os atos dos outros e os meus, e fiquei mais atenta ao que ocorre a cada momento em que vivo.

         Em recolhimento, consegui perceber meus valores e meus defeitos, e consigo, hoje, perdoar a menina que se achava pequena demais para se defender; a adolescente que se isolava, para não se sentir ameaçada com o amor; a adulta que se anulou para viver a vida de outros, esquecendo de seus sonhos.

         E foi neste movimento que me permiti gozar de certas alegrias, como tocar meu piano no momento em que deveria estar lavando a louça suja; ou parar para ler até as duas da manhã um livro lindo, enquanto o resto da casa dormia; ou escrever histórias que nunca deixara antes sair, apesar delas ficarem bailando em minha cabeça por tantos anos. Foi neste movimento que me permiti estar com quem me agrada, e não com quem me ofende ou machuca. Foi neste movimento em que troquei o duvidoso pelo certo.

         Percebi que minhas atitudes mudaram, e alteraram também as atitudes dos que convivem comigo. Ensino a meus filhos e a quem me cerca, não com sermões, mas com ações, que ninguém tem o direito de nos machucar, nos deixar com uma opressão no peito, com vontade de sumir.

         Não me encaixo mais no papel de vítima, mas de merecedora de grandes bênçãos e presentes. As bênçãos são amigos que chegam, portas que se abrem, conversas únicas que temos com pessoas especiais as mais diversas.

         E por isso, hoje, também me prendo menos a convenções; escolho meus caminhos não para agradar aos outros, mas para agradar a mim mesma. Não vou aonde me machucam, pois não sei ser grosseira, às vezes não sei ainda impor limites. Me preservo, por saber, hoje, me amar.

          Não sou perfeita, tenho meus dias de mau humor, cometo erros, mas aprendi que perdoar a si e aos outros é um exercício constante. Por isto, pedimos para que Deus perdoe as nossas ofensas assim como perdoamos aqueles que nos ofendem. Se somos um pedaço da divina centelha, nós mesmos temos que nos perdoar, através do Deus em nós mesmos. Se não nos amamos, não amamos a Deus... não amamos aos outros, vivemos uma mentira.

         Sei que este não é um conto, não é uma crônica, mas também faz parte de mim, e bailava para sair...

3 comentários:

  1. Linda!!! Você não anda sozinha pela estrada afora, vamos de mãos dadas levar os doces para a vovozinha e render homenagem à sabedoria que chega e desvenda uma parte boa da vida. Nós nem imaginávamos o quanto sofríamos por opção própria achando que estávamos no caminho certo.
    A vovozinha mora longe, o caminho é deserto e há sempre um lobo mau passeando por perto. A diferença é que agora nós sabemos disso. Beijos

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  2. Obrigadíssima, Eliane! Nada como alguns anos de estrada para podermos enxergar o caminho percorrido. E o melhor: enxergar que caminhamos ladeados de amigos!

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  3. É verdade a vida é assim. Como você descreve: um cume cortante sendo usado aos avessos. Desta forma aprendeste com a música desvencilhar com sabedoria o manejo de amar ao próximo, o mais próximo... dentro de vós. Salvando a ti podes convidar os seus e se salvarem...

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