sábado, 18 de fevereiro de 2012

O ÍDILIO

            Dona Alma, ou Alminha, como todos a chamavam, olhava para a parede da sala. Fotos da comemoração das bodas de ouro com Agenor penduradas na parede. A cortina semicerrada deixando entrar um raio de luz.

            Agenor se fora havia um mês. Um câncer lhe tomara tudo por dentro, e apesar de todos os tratamentos e cuidados de Alminha, ele não resistira. E agora lá estava ela, imaginando que rumo tomar. Sempre fora muito católica, participativa na igreja, e conversara com o velho Monsenhor há dois dias. Dissera que Deus já podia levá-la, e o Monsenhor a repreendera. “Não, minha filha, se ainda está nesta terra, Ele ainda tem surpresas para sua vida.” Mas, nessa idade?, pensou ela.

            Agora ela refletia sobre algo que o Monsenhor falara: aproveitar a sua vida, fazer o que gostava, procurar antigas amizades, enfim, viver. Foi então que deu seu primeiro esboço de sorriso. Recordara de Alceu, seu primeiro amor, em Itu, aonde nascera. Ele se enamorara de Eleonora, e   ela perdera o amigo, oculto pretendente, para outra. Afinal, ela também se casara, sua vida fora muito boa com Agenor.

            Mas uma idéia martelava em sua cabeça: e Alceu, aonde andaria? Será que já morrera? O comichão foi tão grande, a curiosidade, que conseguiu que uma amiga que enfrentava a parafernália da internet procurasse pelo homem nas redes sociais.  Pois não é que com nome e sobrenome encontraram o filho de Alceu? Ele era padre, ordenado, de uma pequena igreja no interior. Com outra amiga, conseguiu o telefone da igreja, criou coragem e ligou para lá.

            O padre, realmente filho de Alceu, ficou bastante assustado com uma senhorinha lhe falando que procurava por seu pai, amigo de mocidade. Ele pediu-lhe o telefone, prometendo que falaria com o pai, e daria o recado a ele. Quando desligou o telefone, o padre coçou a cabeça; a mãe doente, com o Alzheimer já em estado avançado, praticamente uma sombra da mulher que fora, e o pai cuidando dela, já há tantos anos, como falaria de uma mulher que lhe procurava?

            Mas falou. E Alceu lembrou de Alma; ligou para ela, contou que ainda estava vivo, que cuidava de sua esposa doente. Alma lhe contou então que enviuvara a pouco, e em que condições. Compartilhou com ele palavras amigas, experiências do que passara com o esposo, e colocou-se a disposição para conversar, se precisasse desabafar. Ele também era um católico fervoroso, tomava a comunhão diariamente, tinha um belo amparo, e apreciou as palavras profundas de ajuda que lhe deu.

            Depois deste telefonema, Alma não mais ligou para Alceu. Mas em Itu, a morte levava mais uma companhia para casa. A esposa de Alceu falecera, e agora era ele que tinha que repensar o que fazer com a vida. Fora um casamento de quase sessenta anos; nos últimos três, vivera quase que exclusivamente para cuidar da esposa. Mas no fundo da memória, bem lá no fundo, lembrara de Alma. Formosa, jovem, sua amiga, até que Eleonora aparecera. Começou a pensar no por que não namorara com Alma na época. Ah, sim, seu amigo gostava dela, não iria trair-lhe a amizade...

            Lembrou do telefone dela, em algum lugar...na gaveta do escritório, claro! Achou o papel, fez o interurbano para São Paulo, e logo Alma atendia o telefone. Ele contou que enviuvara, ela lhe deu as condolências, conversaram um pouco, e ele disse que gostaria de encontrá-la.

            Marcaram o encontro para dali a uma semana, em São Paulo. Ele registrou-se num apart hotel, perto da residência de Alma. Deste reencontro, saíram remoçados; valores comuns, muitos anos de vida e a certeza de que a vida é hoje os fizeram tomar uma decisão que quase levou ao infarte os familiares de ambos: começaram a namorar.

            Alceu tinha condições, e se mudou de mala e cuia para o apart hotel. Alma foi se confessar com o Monsenhor, que sorriu, e disse que amar não era pecado, que isto era vida! E a abençoou, por poder encontrar a felicidade mais uma vez.

            Meses depois o mesmo Monsenhor os casou em sua paróquia, com os familiares de ambos entre emocionados e assustados. A cerimônia foi singela, e apesar do estranhamento, a noiva, jovem de oitenta anos, estava linda em seu tailleur creme com pérolas. Alceu a esperava no altar, nervoso, como se nunca tivesse passado por isso. E os olhos dos dois brilhavam, com genuína emoção.

            E então, a lua de mel...Para espanto de todos, os dois pombinhos esqueceram do mundo a volta deles, e sequer saiam para a missa matinal, como antes era o costume. O idílio durou três meses, quando então juntaram-se o Monsenhor e o outro padre, filho de Alceu, para terem uma conversa com os dois recém-casados, pois já estava pegando muito mal eles não saírem do quarto do hotel nem para comerem...

            Hoje ainda estão juntos, vivos, e são ativos trabalhadores da igreja, para o sossego do Monsenhor. Amém.

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