domingo, 18 de julho de 2010

ENSAIO SOBRE A INSÔNIA

Meu esposo tem insônia. ”E eu com isso?” Perguntará você, com razão. Bem, eu também não teria absolutamente nada a ver com isso, não fosse o fato do abençoado me acordar pelo menos três noites por semana –não importa se domingo, feriado ou dia santo- com perguntas sobre o dia a dia, as crianças, o andamento da casa. Eu, feliz no meu sono com sonhos (coloridos, e tudo mais), sou obrigada a voltar ‘a realidade do dia, no meio da madrugada, as quatro e quinze da manhã.
Concordo, sim, que muitos trabalhadores a esta hora já estão acordados, ou passando seu café, ou pegando uma condução lotada para o trabalho. Eu ainda teria o direito a mais umas duas horas de sono, veja bem, não direito constituído, mas digamos, adquirido, por excesso de serviços. Como disse, teria. Para bom andamento do relacionamento a dois, acabo de entrar para o clube da insônia, pois ao ser arremessada de um sonho para a minha rotina diária, não consigo mais dormir. Devido a ventura dos anos que passam, me recordo que tenho bexiga, em primeiro lugar, e estômago logo em seguida.
Já tentei retornar ao meu sono profundo de quem é bom de cama (deita e dorme), porém não há meios. Tento de tudo: pisar no tapete de lã ao lado da cama, para que a sensação agradável se espalhe no corpo e eu relaxe... Em vão. Tento lembrar o que eu sonhava antes de me acordarem, não consigo. Imagine que há umas cinco noites atrás estava sonhando com o Gianechini (sim , o ator!), logo eu, que nem assisto novelas. O moço estava lá, todo simpático, conversando comigo, quando escuto a voz de meu esposo: “as aulas de inglês da nossa pequena vão até quando?”, e puf! Lá se foi o bonitão, para o único local aonde ele falaria comigo: para o meu inconsciente. E eu fiquei com o meu bonitinho, me questionando até as seis da matina.
Dizem que insônia é comum em idosos. Discordo. Já vi muita gente jovem ter insônia. Tive uma cliente que não dormia antes das quatro da manhã, e acordava ás dez. Sim, tinha o próprio negócio para tamanha mordomia, mas me contava que era assim desde criança. Minha filha não consegue dormir antes das onze e meia da noite, por mais que eu avise que é bom dormir cedo. Agora aproveita o tempo para ler.
Há várias teorias para a insônia. A medicina chinesa fala de desequilíbrio do Yin e Yang. Como a noite é Yin, atribuem a falta de sono a falta de elemento yin no nosso organismo. Isto significa que há muita atividade, tanto física quanto mental, que “queima” o yin. Por isso continuamos pensando, com os olhos estatelados no teto, ainda que contemos um milhão de carneirinhos. Corresponde ao que chamamos de “stress”, aqui no ocidente. Só que orientais tem maneiras de driblar a falta de sono: chazinhos, escaldapés com aromaterapia, massagens relaxantes ou acupuntura... Nós, ocidentais, temos a televisão e o sofá, que se por um lado nos fazem dormir, ás vezes, por outro, nos dão uma bela dor nas costas.
Também os chineses (ô povinho sábio!) dizem que muitas vezes o acordar no meio da noite, por volta das três da manhã, é sinal de que a alma etérea (quem??) não está muito assentada no corpo. Explico: na teoria chinesa, das duas as quatro horas da madrugada é o período em que o Meridiano do Fígado trabalha. O fígado do chinês não é aquele que a gente conhece no ocidente; é como um órgão virtual. Este órgão virtual controla a alma etérea, que é aquela parte da psique que vai “passear” nos sonhos. Se o Meridiano do Fígado não estiver forte, ele não segura a alma etérea, e ela vai passear no que o nosso Jung chamaria de Inconsciente Coletivo, com muita freqüência, e logo após o passeio, o cidadão proprietário desta alma etérea com “milhagens” não consegue mais dormir, cheio de idéias que trouxe lá do “parque do inconsciente coletivo”.
É para este lugar também que vão as almas etéreas de quem gosta de uma bebida a mais, ou de quem faz uso de drogas para aumentar a criatividade ou o rendimento intelectual no trabalho. O único problema de ficar “ligadão” por indução é que “frita” os neurônios, enquanto a insônia, não.
Pensando bem, acho que os elaboradores das teorias chinesas também deviam ter insônia, pois ninguém com uma boa noite de sono imaginaria tudo isso. Aliás, acho que o Jung também tinha insônia. E talvez também os grandes cientistas, visto que muitos acordavam no meio da noite com a resposta para problemas que haviam elaborado de dia. Acabo de me dar conta que agora eu realmente faço parte do clube da insônia: são seis e meia da manhã, e estou escrevendo como louca há quarenta minutos!
Já que estou acordada, vou passar um café. Pois o lado bom da insônia, se bem aproveitada, é que ganhamos tempo para fazer aquilo que gostamos. E no meu caso, é escrever. Bom dia!

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