domingo, 26 de agosto de 2012

100 ANOS DE NELSON RODRIGUES - RELEITURAS - MONÓLOGO DE AURORA


MONÓLOGO DE AURORA

 

         Eu e tu, Bibelot. É só o que penso agora. Me apronto para ti, é deste azul que gostas, não é? O vestido de Copacabana, tu lembras? Sei que gostas.

         Te perguntei se tu me amavas, não respondeste. Eu te incomodo com meu amar. Te incomodo com meus sonhos de ser tua mulher, papel passado, filhos... não dou para isso não é? Uma vez puta, sempre puta; ninguém perguntou se eu queria,ouviu bem? Ninguém perguntou se eu queria...

         Mas hoje eu me caso contigo. Tú de terno branco, com esta flor vermelha no peito, bem a modo de mostrar tua paixão por mim. Não chore, amor. Eu não queria ser da vida; no fundo eu só me sacrifiquei pelo bem maior, nossa menina tinha que entrar de branco na igreja, não de azul, como eu. Ela pura, você de puro branco, e tudo se perdeu.

         Onde os destinos se torceram? Quando foi que comecei a te esconjurar? Perdão, te peço perdão. Não chore mais estas lágrimas que me condenaram. Hoje me dou inteira para ti, meu amor. Serei a tua dama e a tua mulher dama, a única que te seguirá aonde você for. Me dá cá o punhal, arma branca como era branco o teu abraço. Eu também vou envergar em meu peito a flor que tens no teu. Agora sou tua, amor meu.

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