sábado, 1 de setembro de 2012

ANTES DO TEMPO PRESENTE


Saudade de ti me aperta o peito. Da tua ternura, teus olhos que não sei, mãos que não toquei. Saudades de que, mesmo? Das palavras que me acariciam, me provocam arrepios, me traduzem quereres. Saudades de ti, que és, sem serdes. Força telúrica que me invade, que habita meus poros, me fala na orelha, me enlaça a cintura. Sinto-me inteira, percepção de corpo vivo, expandido, banhado.

Saudades de ti. Teus cabelos, bons de acariciar; teu rosto, inúmeras vezes contornado com o tato do meu olhar. Teu semblante distante, de repente envolto em ternura, quando o sorriso te ilumina o rosto, e alarga o gesto de arrebanhar minhas mãos para ti. Ah! Saudade... esse pedido do nosso âmago para que o encontro se faça breve, na velocidade de nosso pensamento, da nossa necessidade de pele com pele, toque mágico que fecha o ciclo de vida e morte, morte e vida.

E lá vem você, montado em quimeras e mitologias outras, com o estandarte da franqueza lhe estampando as faces, com a delicadeza do abraço que envolve e amalgama nossos corpos pedintes. Como manter a distância exigida nas convenções do mundo, se o nosso mundo obedece a outras leis de gravidade imensa, se desrespeitadas?

Te dou a lua azul, que hoje vai no céu; te dou o sol pintado de carmim dos finais de tarde que não mais vejo neste deserto de cimento. Aqui dentro, aqui dentro, há outro mundo, como o dos poetas mineiros, imitando os europeus, repleto de Marílias e de Dirceus... aqui dentro, há o mundo de exigências da alma, que não precisa de máscaras, só quer vibrar.

Saudades de ti. Da branca veste em que vou te ver chegar, do arrepio das peles em mútuos toques, dos dedos enlaçados enquanto caminharemos lado a lado, rumo a lugar nenhum, pois que o destino não importará, já que o caminho será compartilhado contigo. Saudade da vida que pulsa quando me chamas: bela, e bela me torno aos teus olhos. Saudade do nosso tempo de nunca chegar.

Descubro-me antes do tempo presente em tua companhia; de lá me vem estas impressões; quem sou eu para duvidar do que meu corpo sentencia? Saudades de ti, que não me tens, de quem não fui...

Um comentário:

  1. Este eu pinçei do facebook, sobre o texto, feito por José Vitor Lemes: "Lindo Ana! Tua fala como fala as letras concisa de uma poetiza, e ainda mais, dosando o coração dos homens e mulheres, falas de um linguajar entre os seres que se estabelecem na harmonia do universo.
    Tu falas de uma saudade renovável, indomável... É isso algo que se estabelece que o pensamento não esquece, pelo contrário aquece a máquina do criador.

    "Saudade de ti, que não me tens, de quem não fui...""

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