quarta-feira, 21 de março de 2012

ODE A LOTTE

Há leituras e leituras. As vezes leio com olhos que não são somente meus. Assim aconteceu com o livro Lotte &Zweig, de Deonísio da Silva. A leitura virou poesia.


Afogada estava, em vida.

O ar, que sôfrega puxava,

Não o queria.

Não lhe pertencia.

Andou na sombra,

Achando que a ela se rendia.

Nela não havia grito:

Ela não tinha norte.

Seu amante, seu braço forte,

Não lhe era real suporte.

Antes era bandido

A lhe ditar a sorte.

Também pássaro ferido,

Preferiu a morte.

Se a vida lhe foi tirada

Ou se ele mesmo o fez

 não importa:

Não ouviu os sinais

Que lhe chegavam a porta.

Lotte sentia e pré-sentia

E por isso já não vivia.

No desfecho de sua história, porém,

Lotte sofreu

Ao ver seu homem morto, ao lado,

E abraçada ao medo,

Angústia lhe fechando o peito,

Deixou-se ir, sem mais lutar,

Recusando o ar

Unindo-se ao funéreo leito.

Ficou vagando,

Espírito inquieto,

Pois negavam-lhe a voz.

Até que um escritor atento

Ouviu-lhe os gritos de socorro.

Ele a resgatou,

Pois tinha olhos para ver

E ouvidos para ouvir.

Da alma feminina

Um perscrutador,

Soube pegá-la no colo,

Niná-la e fortalecê-la,

Dando-lhe carne e ossos,

Brilho e voz.

Resgatada e reparida

Conseguiu na morte

O que não o fez na vida:

Ser por todos conhecida.

2 comentários:

  1. Ana, querida, muito obrigado pela homenagem a LOTTE & ZWEIG, meu romancinho, e especialmente à Lotte. São versos muito bonitos, vindo de seu talento, que sabe expressar fundos sentimentos, sensações e intuições com palavras bem arrumadas.
    Uma beijoca do
    Deonísio

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  2. Ana, sua poesia nos coloca na pele de Lotte. Muito bom!

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