sábado, 30 de junho de 2012

HORAS MORTAS


         Nas horas mortas me sinto viva; dialogo com minha alma de maneira honesta, singela, humilde mesmo... e depois me sinto iluminada, e o sol se faz em mim. Nas horas mortas, me percebo inteira; ouço o ritmo do meu coração, o entra e sai do ar no meu pulmão, a calor que me envolve com o chegar de uma lembrança, e sempre e bem vinda, a renovada esperança...

         Nas horas mortas uma vela acendo, no candelabro do velho piano centenário, e me ponho a tocar músicas sem partitura, dando somente vazão à voz da alma, que não quer ser mais do que martelos batendo em cordas, ressoando na madeira, se expandindo no espaço vazio, antes silente, e agora resplandente...meus dedos e o teclado, meu corpo balançando para um e outro lado, meus olhos fechados, meus ouvidos procurando a correta nota, o acorde perfeito, a sétima que desate, a segunda que acorde o gigante adormecido da emoção.

         Nas horas mortas vagueio pela casa, me sento na escrivana, como eu chamo ao meu ninho, e com um chá verde e seu aroma, vou buscar inspiração. Vejo a cor, a porcelana branca e o chá transparente, sinto a forma do vasilhame, sinto o tépido estímulo que me faz querer o frio como se quer o abraço do mais que amigo, do amante, que te traz o sangue a correr rápido nas mal desenhadas veias.

         Nas horas mortas tento ser hispano hablante, buscar eco distante, em vidas que já vivi, numa lingua que me dilacera por dentro, que me fala e me fere, falando de amor e de sombras, de idas e vindas, de juras infindas... como é bom amar em espanhol, uma lingua em tom bemol...

         Nas horas mortas me visto de longo e arrasto a cauda do vestido, te digo um segredo ao pé do ouvido, recolho o cabelo que me cai no olho, e te olho de soslaio, e logo me recolho, como se não soubesse do que sou capaz. A sedução da inocência, que concupisciência nos traz...

         Nas horas mortas me bole por dentro a vontade de dançar, reunir toda gente, acender as luzes do apartamento e fazer diferente; me vem a vontade de cirandar, grande roda, mãos se enlaçando, corpos suados de tanto girar, e girar, e sorrisos na boca, sempre a rosa louca, a se manifestar.

         Nas horas mortas me sinto viva; dialogo com minha alma de maneira honesta, singela, humilde mesmo... admito o que sinto, admito o que vejo, e me recolho em mim, desfiladeiro sem fim, que me leva a um vale, um Xangri-lá perdido, aonde amores esquecidos ainda vem me habitar...

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