quarta-feira, 6 de junho de 2012

O FRUTO, O CAROÇO


        Em verdes anos o sumo é azedo; na maturidade o sumo é doce. Agora é a hora da colheita, a festa da fartura que o coração aceita, os teus cinquenta dias que passaram; nos verdes anos, a semeadura, em terra boa, em pedra dura; na madurez, a temperança, e o fruto sumarento que sacia a alma. O corpo perde o viço, mas a mente não para. Antes  tinha-se o ímpeto; hoje a sabedoria, que nos é tão cara.

        Em verdes anos o corpo fala mais alto, a gana de vencer e lutar se traduz em ações, relações, calor exógeno, fazer sem pensar, mas fazer necessariamente. Semear palavras, semear gestos, semear sonhos. Também perder, muitas vezes, a razão do semear, mas recomeçar. Abraçar as causas, abraçar os amores, ou que tomamos por amores, sofrer, morrer por eles, e ressuscitar com outra nova emoção que nos tome. Verdes anos em que muitas vezes fazemos mas não pensamos, mas fazemos, e não nos arrependemos.

        Quando a maturidade chega, vem a hora da colheita: é o fruto sumarento, doce, que compensa a perda da energia, agora me volto para mim mesmo, vou cuidar de mim, apreciar a vida como um meio, não um fim. O fim, quando vier, que venha, e me abraçe e me leve. Mas hoje, não. Estou no auge de mim mesmo; descubro que meu espírito não envelhece, minha mocidade está em minha intenção de fazer, e se não tenho o vigor dos verdes anos, tenho sabedoria, amigos, realizações que me sustentam e amparam. Me fazem ver a vida de outro modo, e me ajudam a agir de acordo com o que tenho. É a minha colheita. Eu estou no grão que foi colhido, torrado e moído do café dos interiores; estou no fruto colorido que representa a tudo e todos que amo. Estou assim, estando, provando cada momento, pois sei, o tempo passa, não implacavelmente, como se em meu encalço, mas indubitavelmente, e me leva pela mão, para o único destino que é certo.

        Não preciso falar dele, preciso? Preciso. É o fruto que se deu ao ser consumido e consumado. Ainda assim, lhe restou intacto o caroço, semente de mim mesmo, que não foi deformado, não perdeu o conteúdo, dos verdes anos até a consumação. Eu serei consumido, mas a semente ficará. Germinará, quem sabe, se em terra boa. Haverá a comprovação de que eu um dia fui, através daquilo que estará, novamente, vivendo.

        Ciclos que se repetem, espirais do tempo. Verde, maduro, nulo. Zero ao uno, em tudo, sendo.

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